Por Doiara Silva dos Santos e Fernanda Santos de Abreu – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube

O documento normativo da FIFA, As Regras do Jogo (2026–2027), estabelece que nenhuma mensagem política ou religiosa ou pessoal pode ser exibida em uniformes ou equipamentos antes, durante ou depois das partidas. A regra se aplica a técnicos, árbitros, atletas e qualquer pessoa envolvida no espetáculo esportivo.

Apesar da restrição, na estreia da Alemanha na Copa do Mundo de 2026, o meio-campo Felix Nmecha manifestou sua religiosidade. Ao descer do ônibus da seleção, carregava abertamente uma Bíblia na mão. Durante a partida, celebrou o primeiro dos 7 gols contra Curaçao com gestos muito comuns em partidas de futebol: apontar para o céu, fechar os olhos e ajoelhar-se. A celebração de Felix, realizada anteriormente em jogos pelo seu clube, o Borussia Dortmund, tem uma particularidade. Ele realiza o gesto denominado “crown down”, em tradução livre do inglês para o português: entregar a coroa. Ele leva as mãos à cabeça, simulando retirar uma coroa invisível, e depois a coloca no chão, apontando para o céu.

Ao final do duelo, vencido pela Alemanha por 7 a 1, o atleta reuniu-se com jogadores da equipe adversária em campo, onde se abraçaram e oraram. Em entrevista pós-jogo à emissora alemã ARD, ao ser questionado sobre aquele momento coletivo, ele afirmou: “Nós somos oponentes apenas no jogo. Depois do jogo, somos todos irmãos”. O atleta ainda disse que acredita “que Jesus foi glorificado” através da partida.

Nessa mesma partida, outro jogador da Alemanha, Deniz Undav, marcou o 6º gol da goleada sobre o Curaçao. Ele comemorou realizando uma dança tradicional curda, denominada Govend. O povo curdo é o maior grupo étnico do mundo sem um Estado oficial, representado por uma população estimada em cerca de 40 milhões de pessoas. Essa população compartilha elementos culturais, históricos e linguísticos.  

Undav é um jogador de origem curdo-yazidi. Os yazidis são uma comunidade religiosa de origem ligada ao povo curdo. Todo yazidi é etnicamente curdo, mas nem todo curdo é yazidi. Ao longo da história, os yazidis foram alvo de perseguições e deslocamento forçados, além de episódios de violência e genocídio. 

Logo, apesar dessa comemoração durar poucos segundos, sua história simboliza a resistência do seu povo. Ao performar o Govend em um dos maiores eventos esportivos do planeta, Deniz transformou uma celebração esportiva em um gesto de reconhecimento cultural, memória e pertencimento. Um gesto religioso e político. Desse modo, é possível perceber que os atores esportivos entram em campo representando histórias, identidades e até mesmo povos que não aparecem nos mapas políticos do mundo.

A partir disso, surgem reflexões importantes: O que acontece com “as regras do jogo” da FIFA diante destas manifestações em suas competições? Até que ponto gestos e manifestações são ou serão tolerados? Ao comemorar um gol, o atleta apenas celebra esse momento ou também compartilha formas de ser, estar e interpretar o mundo? O futebol é apenas um jogo ou pode se apresentar enquanto um espaço onde crenças, identidades, ancestralidades e culturas disputam visibilidade?

A fé e o Mundial

Para entender sobre isso, é importante realizar uma contextualização dessa relação entre a fé e a Copa do Mundo. A Lei 4, presente no documento normativo da FIFA, delimita com precisão o que conta como mensagem (textos, símbolos, slogans ou imagens).  Porém, a aplicação dessas normas opera em um terreno interpretativo. Gestos corporais, orações coletivas e referências religiosas implícitas não costumam ser enquadradas como infrações. Contudo, é possível observar que em sua maioria, essas manifestações estão associadas às tradições cristãs amplamente difundidas no futebol europeu e sul-americano. A fronteira entre expressão pessoal e manifestação religiosa pública, portanto, não é definida pelo texto normativo e fica a critério de árbitros, delegados e comissões disciplinares.

Em 2002, após a vitória na final contra a Alemanha, vários jogadores brasileiros ajoelharam-se no gramado para rezar e agradecer a Deus. O técnico Luiz Felipe Scolari também participou desse momento público de oração. A celebração foi transmitida mundialmente e não houve punição da FIFA. 

A seleção de Senegal, majoritariamente muçulmana, realizou orações coletivas em campo após partidas nas Copas de 2002, 2018 e 2022 sem sofrer punições. Esses episódios demonstram que manifestações religiosas individuais ou coletivas têm sido, em regra, toleradas pela FIFA quando não são enquadradas como mensagens políticas, comerciais ou ofensivas.

A Copa de 2022, no Catar, ampliou esse debate. O país promoveu uma narrativa de tolerância religiosa e diálogo inter-religioso, enquanto mantinha restrições às práticas não islâmicas e reprimia manifestações públicas de outras tradições. Pesquisadores têm chamado esse movimento de religionwashing: o uso estratégico da religião para construir uma imagem internacional positiva e suavizar críticas sobre direitos humanos (Hughes, 2026). Para o autor, o Mundial tornou-se vitrine de uma hospitalidade cuidadosamente coreografada, enquanto a FIFA reforça a ideia de que celebra a diversidade. Porém, o religionwashing não se aplica somente a religiões não-ocidentais.

Ao longo da história das Copas do Mundo, a FIFA tem, em geral, permitido manifestações religiosas pessoais e coletivas em campo, independentemente da fé professada pelos atletas. Ou seja, orações antes e depois das partidas, sinais da cruz, prostrações em agradecimento, gestos de louvor e outras expressões de devoção têm sido recorrentes entre jogadores cristãos, muçulmanos e de diferentes tradições religiosas, sem que isso resulte em punições disciplinares. Assim, não há registros recentes de proibição de expressões de fé.

As restrições impostas pela entidade concentraram-se sobretudo na exibição de mensagens religiosas, políticas ou pessoais em camisetas, uniformes e equipamentos. Assim, o histórico das Copas sugere que a FIFA tradicionalmente distingue a expressão religiosa praticada como gesto individual ou coletivo da utilização do evento para a divulgação explícita de mensagens por meio de inscrições, slogans ou símbolos exibidos no material esportivo.

Esse cenário fornece indícios de que a problemática não está diretamente relacionada à presença da religião no futebol. A questão é como essa fé é manifestada publicamente. As regras do jogo enfatizam o uso de uniformes e equipamentos esportivos. Nesse sentido, a Copa do Mundo tende a se configurar como um espaço onde diferentes expressões religiosas convivem e, ao mesmo tempo, revelam tensões sobre quem define os limites do aceitável no espetáculo esportivo.