Por Isis Maria, cobertura especial da Feira do Livro 2026

Quando Borboletas Furiosas se Tornam Mulheres Negras é o novo livro de Cidinha da Silva. Uma coleção de 16 ensaios que discutem a presença das escritoras negras no mercado editorial brasileiro. O livro percorre questões sobre representatividade, as armadilhas que o racismo impõe para escritoras negras, condições de contratação nas editoras e nos eventos literários. Foi também o nome da mesa que ainda teve a Tatiana Nascimento, poeta, acompanhando Cidinha na Feira do Livro 2026, em São Paulo.

Eu entrevistei Cidinha meia hora antes dessa mesa. A autora, que tem 24 livros publicados, tem 13 do gênero crônicas, e acho que isso diz bastante sobre o que ela gosta de escrever. Mas ela me disse também que escreve crônicas por conta da falta de tempo. O gênero é mais rápido, facilita. Seus últimos livros são todos ensaios, mas ela também me revela que a rapidez não é o único ponto determinante da crônica.

“O que me interessa na crônica é a possibilidade de olhar para coisas do cotidiano, que todo mundo está vendo, e apresentar um ângulo que não é o que predomina. Extrair alguma coisa diferente daquilo que a maioria das pessoas está vendo da mesma forma. Entendo a crônica como uma dança no tempo. Não falo apenas do presente. Muitas vezes busco a raiz de coisas que estão acontecendo agora, e essa raiz está no que foi vivido antes. Esses trânsitos no tempo são algo que gosto de explorar.”

Planejando a cobertura da Feira do Livro de São Paulo, fui olhar os autores convidados e pensar pautas. Vi que Cidinha da Silva estava entre as convidadas e logo procurei um jeito de falar com ela. Meu intuito desde o começo dessa entrevista era saber o que ela pensa sobre o que escreve, mas principalmente, sobre o como escreve. A variedade de gêneros que aborda. A forma como constrói.

“Sou muito interessada em poesia, embora leia menos do que deveria. E digo ‘deveria’ porque a poesia melhora muito a escrita de todo mundo. Quem faz escrita acadêmica, quem escreve ensaios, quem escreve prosa, quem escreve poesia. A poesia refina a percepção, o olhar para o mundo.”

Dos poetas que Cidinha lê, ela cita Edmilson de Almeida Pereira, Tatiana Nascimento, Ricardo Aleixo e Livia Natália.

Mas a conversa não deixa o tema racismo longe por muito tempo. Quando Borboletas Furiosas existe exatamente para nomear o que acontece com escritoras negras no mercado, Cidinha não tem nenhum interesse em desviar disso. Cada tridente em seu lugar completa 20 anos em 2026, é possível discutir como sua dicção mudou desde então, mas isso não é feito. Em vez disso, o que se vê é um bloco: “mulher negra que escreve”. A mesma chave para pessoas e obras muito diferentes. Cidinha não é igual a Carolina Maria de Jesus, que não é igual a Conceição Evaristo, que não é igual a Lélia Gonzalez. Pra ficar só nas brasileiras.

“É uma preguiça que responde a um clichê, o do apagamento, com outro clichê, o do olhar uniforme. Antes havia o clichê da invisibilização. Hoje chegamos num ponto em que não é mais possível negar a nossa existência ou fechar totalmente as portas. Mas o movimento que se detém no como cada uma escreve, no que cada uma constrói, ainda está por ser feito. Ler fora da casinha dá trabalho. E a maior parte das pessoas se refestela na preguiça colonial.”

Falando com ela sobre o mercado, percebi que há um padrão que ela já nomeou antes, e que eu ouvi ecoar em outras conversas nessa feira: a literatura negra parece não poder ser de entretenimento. Ela só serve se ensinar algo, se deixar uma lição quase moral. Enquanto outros autores me falavam sobre confiar no leitor, deixar espaço para interpretação, a escrita negra segue sendo cobrada como se fosse um serviço público de educação racial. Ninguém se questiona sobre o que escritoras negras querem escrever, porque parece que elas só podem falar de racismo, de cabelos crespos ou da busca por seus ancestrais.

Ao mesmo tempo, quando você é especialista em um tema, o racismo pode tirar você do lugar, para que outras pessoas falem sobre isso, porque a imagem que vai passar é melhor. E isso causa momentos como um que ela me conta que viveu:

“Uma colega branca foi convidada para escrever sobre um tema que não é o dela, numa coletânea. Ela perguntou se eu tinha sido convidada. O organizador disse não. Ela não aceitou participar. Disse: ‘Ela trabalha com isso. Você me chama e não chama ela. Eu não consigo entender e não vou participar.'”

“Não adianta bater no peito e dizer que reconhece privilégios. Isso é pedir biscoito. Você precisa mexer no mecanismo, desarmar o mecanismo. E isso dá trabalho. Você perde privilégios quando faz isso. E só colocar mulheres negras ou temas de negritude nos seus textos, coletâneas e festivais não significa que você está mudando estruturas.

Esse movimento precisa existir. Não a declaração, mas a ação concreta de colocar a mão na engrenagem, correndo o risco de perder os dedos. É o que modifica.”

Durante a mesa, eu descobri, pela boca da própria Cidinha, que ela só dá entrevista por escrito, mas que cedeu pra mim uma entrevista em áudio. Tive 30 segundos de vergonha porque eu estava sentada na plateia, e todo mundo viu de quem ela falava. Mas passei o restante da mesa feliz e orgulhosa. Talvez porque eu também sei o que é querer falar sobre o como, e não só sobre o quê.