Por Laura Borges

A Cine Ninja conversou com o cineasta Lincoln Péricles, o LKT, durante a 21ª CineOP. Em diálogo com o tema desta edição, “Um país existe nas imagens que preserva”, o diretor da Cinemateca da Quebrada apresentou o projeto, que reposiciona o debate sobre preservação audiovisual: antes de decidir o que preservar, é preciso perguntar a quem pertencem esses acervos.

A Cinemateca da Quebrada foi lançada em abril de 2026 pelos coletivos Astúcia Filmes, 609 Filmes, Quitus Coletivo e Ramo, durante o 1º Fórum Internacional do Cinema de Quebrada. A iniciativa reúne imagens, vídeos e filmes produzidos nas periferias da Zona Sul de São Paulo.

Mais do que um acervo, o projeto se apresenta como um contra-arquivo, conceito desenvolvido por LKT para pensar arquivos produzidos pelas próprias comunidades não apenas como medida técnica de preservação, mas como um instrumento de organização política da memória.

“A questão é ter um espaço que pertença a nóis e à nossa memória, um local que produza dados que possam ser mais do que só argumentos, mas comprovação material da nossa existência e da nossa luta coletiva.” Lincoln informou que cerca de 20 pesquisadores estão recebendo bolsas de fomento à pesquisa, pelo edital VAI, a fim de produzir conhecimento sobre o real impacto das produções audiovisuais da quebrada.

A origem da Cinemateca também nasce de uma experiência pessoal do cineasta em buscar um espaço que cuide de suas produções.

“Quando conheci a Cinemateca Brasileira e percebi que existe um lugar para guardar filmes, igual existe uma biblioteca para livros. Tentei deixar lá os DVDs dos meus filmes. Ninguém parecia interessado e entendi que não tinha espaço pra mim. Voltei pra quebrada e comecei a distribuir meus DVDs na banquinha de DVD pirata. Foi quando percebi que precisava existir um espaço de cuidado com a nossa memória, e só poderia ser feito por nóis.”

O episódio ajuda a compreender o sentido da Cinemateca, que entende “quebrada” como uma rede de territórios historicamente afastados dos centros de legitimação cultural, das periferias urbanas às aldeias indígenas, comunidades rurais e bairros populares.

Em vez de esperar que instituições reconheçam determinadas imagens como patrimônio, o projeto parte da organização dos próprios realizadores para produzir pesquisa, documentação, critérios de catalogação e formas de circulação de um cinema que historicamente permaneceu fora dos grandes arquivos.

Hoje, o projeto tem catalogados cerca de 100 filmes. Porém, antes de reunir um acervo, a Cinemateca reúne pessoas. O projeto passou pela formação de um conselho gestor, pela articulação entre coletivos e pela construção de uma rede de pesquisadores.

Para LKT, esse trabalho de base do arquivo é o que permite que a preservação deixe de ser apenas uma prática técnica e se torne uma forma de organização coletiva da memória.

Evento de lançamento da Cinemateca da Quebrada. Crédito da imagem: Astúcia Filmes

O avanço das políticas públicas de fomento ao audiovisual e da tecnologia digital ampliou as possibilidades de produção de filmes em diferentes regiões do país. Produzir cinema tornou-se mais acessível. Preservá-lo, porém, continua sendo um desafio.

Armazenamento, HDs, backups e organização de arquivos fazem parte de uma infraestrutura frequentemente inacessível para realizadores de quebrada, o que compromete não apenas a permanência dessas obras, mas a possibilidade de que elas continuem produzindo memória.

Lincoln, no entanto, destacou que a preservação também depende de outra lógica, menos capitalista, para definir qual memória importa. “As big tech sabem o valor dos dados. Sabem o valor da memória audiovisual e elas vão cobrar você, inclusive, pra você acessar a sua própria memória. O que a gente está fazendo é dizer: isso aqui importa. Mas importa em outra lógica que não seja de mercado, é pela coletividade. E isso dá trabalho!”.

Além da masterclass na 21ª CineOP, Lincoln Péricles integrou a Mostra Contemporânea com o curta “Entrevista com Fantasmas”, vencedor da 29ª Mostra de Tiradentes como Melhor Curta-Metragem. Assim como os demais filmes do diretor, a obra está disponível gratuitamente no YouTube, reforçando que preservar imagens também significa dar acesso a elas.

Lincoln Péricles (LKT), é de Capão Redondo, Zona Sul de São Paulo (SP), seus filmes são sobre trabalho e memória, produção marcada por mixar documentários com ficção, definido como “cinema mutirão”. Crédito de imagem: Leo Fontes/Universo Produção