O brilho metálico das chamadas “terras raras” tem seduzido governos, empresas e investidores ao redor do mundo. Dizem que elas são o futuro: vão mover carros elétricos, turbinas, celulares, baterias e sustentar parte das promessas de um planeta menos dependente dos combustíveis fósseis.

Mas, para quem vive nos territórios onde esses projetos avançam, a pergunta é outra: futuro para quem?

Em Minas Gerais, comunidades inteiras começam a conviver com uma sensação conhecida. Primeiro chegam as promessas: emprego, crescimento, desenvolvimento. Depois vêm as reuniões apressadas, os mapas desenhados longe das comunidades, a insegurança sobre a água, a valorização repentina da terra para alguns e o medo para muitos.

Mais uma vez, o estado é apresentado como fronteira de uma riqueza estratégica global. Agora, não apenas do ferro, do ouro ou do lítio, mas das chamadas terras raras — minerais de altíssimo valor econômico, essenciais para as tecnologias da chamada transição energética.

O nome pode soar distante, técnico, quase abstrato. Mas os impactos são profundamente concretos. Como deputada preta, defensora dos povos e comunidades tradicionais, aprendi algo essencial nos territórios: terra é memória, alimento, pertencimento, água, espiritualidade, trabalho e continuidade da vida.

Quando um empreendimento minerário chega, não é apenas a paisagem que se altera. Mudam as relações comunitárias, cresce a pressão sobre os territórios, surgem conflitos e se instala uma sensação permanente de ameaça sobre o futuro.

As chamadas terras raras possuem enorme valor econômico e geopolítico. O Brasil detém algumas das maiores reservas do mundo, e Minas Gerais volta a ocupar o centro dessa disputa internacional por minerais estratégicos. O problema é que, historicamente, nosso estado aprendeu da pior maneira que riqueza mineral não significa, necessariamente, justiça social, proteção ambiental ou melhoria de vida para quem vive nos territórios afetados.

Nós já vimos esse filme antes. Assistimos a cidades transformadas em corredores de extração, rios contaminados, comunidades removidas, modos de vida destruídos e populações inteiras convivendo com medo e insegurança. Acompanhamos o lucro atravessar fronteiras enquanto os impactos permaneciam aqui.

Agora, o discurso muda de nome. Fala-se em “energia limpa”, “economia verde”, “transição energética”. Mas não existe transição justa construída sobre violação de direitos humanos.

Em Caldas, no Sul de Minas, moradores, movimentos populares e organizações ambientais têm denunciado preocupações legítimas sobre o avanço da mineração de terras raras. O debate envolve riscos ambientais, impactos sobre recursos hídricos, ausência de participação popular efetiva e preocupações com comunidades tradicionais potencialmente atingidas.

Nossa mandata acompanha essa situação de perto. Na Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de Minas Gerais, encaminhamos pedidos de providência ao Ministério Público Federal, ao Ministério Público Estadual, à Secretaria de Meio Ambiente e à Prefeitura de Caldas diante das denúncias envolvendo o processo de aprovação da mineração de terras raras no município.

Recebemos denúncias graves sobre a ausência de condicionantes ambientais, a negativa de realização de audiência pública mesmo diante de abaixo-assinado popular e possíveis restrições à participação da população nas decisões locais.

Também cobramos o respeito à Consulta Livre, Prévia e Informada dos povos e comunidades tradicionais potencialmente atingidos, entre eles comunidades quilombolas e indígenas da região — um direito garantido pela Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho, da qual o Brasil é signatário.

Nenhum projeto que afete territórios tradicionais pode avançar sem que esses povos sejam verdadeiramente ouvidos.

É direito dos povos decidir sobre seus próprios territórios. Existe uma lógica perigosa que tenta transformar regiões inteiras em zonas de sacrifício em nome de um suposto desenvolvimento inevitável. O Vale do Jequitinhonha e o Norte de Minas já conhecem essa história. Agora, o Sul de Minas começa a enfrentar a mesma tensão.

Mas precisamos perguntar: desenvolvimento para quem?

Não sou contra o debate sobre energia e tecnologia. O mundo precisa enfrentar a crise climática. Mas não aceitarei que a solução para um problema global seja construída sobre a destruição silenciosa de territórios populares, quilombolas, indígenas e rurais.

A transição energética não pode repetir a velha lógica colonial da extração: retirar riqueza daqui para alimentar mercados distantes, enquanto as comunidades locais ficam apenas com os impactos.

Precisamos falar sobre soberania dos territórios, proteção das águas, participação popular e justiça ambiental. É necessário garantir que nenhuma decisão seja tomada atropelando comunidades e compreender que há riquezas que não podem ser medidas apenas pelo valor imposto pelo mercado internacional.

O minério pode gerar lucro, mas a água, a memória, o território e a dignidade são aquilo que sustenta a vida.