O Mundial e o outro mundial: entre gols e a crise climática

Talvez o movimento climático precise de menos relatórios isolados e de mais espaços capazes de gerar desejo

Por Leticia Doormann*

Na semana passada, dois eventos globais aconteceram ao mesmo tempo.

Em Londres, centenas de pessoas circulavam entre auditórios tentando responder a uma pergunta tão simples quanto difícil de resolver: como evitar que o planeta continue aquecendo?

Era a Semana do Clima. Entre painéis, conferências, cafés apressados e salas com vinte ou cinquenta pessoas, discutiam-se políticas públicas, financiamento climático, transição energética, adaptação, inovação tecnológica e o papel dos povos indígenas. Conversas indispensáveis. Conversas urgentes.

Enquanto isso, porém, o restante do planeta voltava sua atenção para outra disputa: o Mundial. Agora, sim, com letra maiúscula.

A milhares de quilômetros de Londres, multidões lotavam estádios transformados em grandes templos contemporâneos, enquanto dezenas — talvez centenas — de milhões de pessoas acompanhavam o mesmo ritual diante de uma tela: a Copa do Mundo de Futebol.

Um evento reunia ativistas, representantes de governos, cientistas, lideranças indígenas, inovadores e intelectuais para discutir o futuro do planeta. O outro reunia o mundo inteiro em torno do destino de uma taça.

A maior conversa global daquele momento não era sobre o clima.

Era sobre gols.

Por trás dessa imagem surge uma pergunta mais profunda: o que o futebol tem de tão poderoso que consegue reunir o mundo inteiro? E o que ainda falta ao movimento climático para despertar essa mesma energia coletiva?

Talvez a resposta esteja em tudo o que o futebol construiu ao seu redor: histórias compartilhadas, rituais, símbolos, identidade e a sensação de pertencer a algo maior do que nós mesmos.

E isso não é uma crítica ao futebol. Pelo contrário. É um reconhecimento de sua extraordinária capacidade de mobilização.

Ou talvez também seja uma crítica. Não ao jogo, mas à nossa dificuldade de construir, em torno do desafio climático, uma narrativa capaz de despertar a mesma emoção, o mesmo compromisso e o mesmo sentido de comunidade.

Porque a Copa do Mundo consegue algo extraordinário.

Durante algumas semanas, pessoas que talvez jamais se encontrem compartilham emoções, superstições, conversas e silêncios. Como dizia Eduardo Galeano, “o futebol é a única religião que não tem ateus”. O planeta inteiro conhece o calendário, compreende as regras e transforma seus jogadores em figurinhas — literalmente.

Poucos acontecimentos conseguem produzir uma linguagem comum dessa magnitude. Mas daí surge outra pergunta inevitável: essa conexão nasce de forma espontânea ou é resultado de uma longa construção de alinhamento cultural? E, se for assim, a quem ela beneficia?

Não é preciso escavar muito para perceber que, por trás de cada partida, existe uma engrenagem sofisticada de produção de identidade, pertencimento e emoção. Uma indústria sem fronteiras que, durante décadas, aprendeu a transformar um evento esportivo em uma experiência coletiva capaz de atravessar classes sociais, idiomas e fronteiras.

Então surge outra imagem impossível de ignorar.

O mesmo evento que revela uma extraordinária capacidade humana de criar comunidade também nasce, se alimenta e se reproduz dentro de uma cultura baseada no consumo ilimitado, na desigualdade e na exploração de recursos humanos e naturais — uma lógica econômica que está no centro de muitos dos desafios que enfrentamos.

Porque o futebol vende.

Cada interrupção da partida nos lembra que a melhor forma de aproveitar o espetáculo seria consumir mais um produto. Outro carro. Outra bebida. Outro telefone. Outra aposta. Outro hambúrguer. Outro voo.

O maior encontro futebolístico do planeta também é financiado por uma promessa bastante conhecida: consumir para pertencer. Consumir como se nada estivesse acontecendo do lado de fora, como se a bolha do futebol pudesse suspender, por noventa minutos, as crises do mundo real.

É nesse ponto que a imagem romântica e afetiva do futebol de várzea conduz a outro debate recorrente: é possível separar o artista de sua obra? E, no futebol, podemos separar a beleza do jogo da lógica econômica que o transformou em um dos maiores negócios do planeta?

E não se trata de culpar o futebol.

O problema nunca foi o futebol.

O problema é que um dos grandes momentos que compartilhamos como humanidade — e é preciso reconhecer isso, porque uma Copa do Mundo é algo verdadeiramente extraordinário — continua reproduzindo, quase sem questionamentos, o mesmo imaginário econômico que nos trouxe até a crise que enfrentamos. E isso é profundamente contraditório.

Gostamos tanto de futebol que resistir a essa ideia se torna difícil. Quantos de nós disseram que iriam boicotar esta Copa do Mundo e, ainda assim, estamos aqui: acompanhando jogo por jogo, comemorando, sofrendo e vivendo cada momento com a intensidade máxima da paixão?

Talvez essa seja a maior contradição: construímos uma das experiências coletivas mais poderosas da humanidade, mas ainda não conseguimos colocar essa mesma capacidade de união a serviço da proteção da vida que torna possíveis todas as nossas celebrações.

Mas talvez exista aí também uma oportunidade.

Imaginar uma Copa do Mundo em que as marcas não disputem apenas a atenção dos consumidores, mas também inspirem novas formas de viver. Um evento em que o esporte não seja apenas um grande mercado a céu aberto, mas um espaço capaz de estimular encontros, transformação e superação. Uma celebração coletiva que não dependa necessariamente do consumo.

Uma Copa do Mundo em que suas maiores instituições estejam à altura dos valores que o esporte afirma representar; em que interesses econômicos, disputas de poder e conflitos internos não acabem ofuscando aquilo que dá sentido ao jogo.

Porque o desafio climático não consiste apenas em reduzir emissões.

Consiste, sobretudo, em transformar os valores que orientam nossas escolhas, construir uma nova identidade comum e criar instituições capazes de representá-la. Construir uma relação diferente com a vida, com a natureza e com o nosso próprio futuro. Despertar uma emoção tão profunda quanto aquela que milhões de pessoas sentem diante de um gol — mas direcionada à proteção de uma floresta, de um rio, de um mar, de uma espécie e, em última instância, de nós mesmos.

A mudança climática tem dados. Tem evidências científicas. Tem gráficos, cenários e modelos.

O futebol tem tudo isso.

E, além disso, tem histórias.

E existe, acima de tudo, algo que muitas vezes deixamos passar: uma indústria bilionária dedicada a produzir emoção, identidade e desejo em torno dessas histórias.

As marcas não vendem apenas camisas ou bebidas. Vendem pertencimento. Vendem a sensação de fazer parte de algo maior do que nós mesmos.

E as pessoas não compram apenas produtos; compram emoções, identidades e a possibilidade de se reconhecerem dentro de uma narrativa coletiva. O futebol produz essa emoção, e as marcas aprenderam a transformá-la em desejo de consumo.

Talvez o movimento climático precise de menos relatórios isolados e de mais espaços capazes de gerar desejo. Mas um desejo verdadeiro, não construído como estratégia de publicidade. Ou talvez precise de algo ainda mais profundo: recuperar a capacidade de nos sentirmos parte de uma mesma história sem que esse pertencimento precise, necessariamente, se transformar em uma oportunidade de consumo.

Se as histórias continuam sendo a tecnologia social mais poderosa que criamos para nos fazer olhar, simultaneamente, para o mesmo lugar, talvez a próxima grande vitória climática não nasça em uma sala de conferências.

Talvez ela comece no dia em que cuidar do planeta desperte a mesma emoção que um gol marcado aos noventa minutos.

Porque, no fim, nenhuma Copa do Mundo terá muito sentido se perdermos o único estádio onde todas elas são disputadas.

Sim, a Terra.

*Leticia Doormann é especialista em análise de sistemas socioecológicos, cofundadora da TINTA (The Invisible Thread) e torcedora do Platense e da Seleção Argentina.