Por Isis Maria, especial da Feira do Livro 2026

Se você está acostumado a ler terror, provavelmente tem na cabeça um repertório específico: corvos, castelos, fantasmas esvoaçantes, gente muito pálida, frio, escuridão. Mas nada disso combina com a América Latina. Então, como descrever o horror usando lugares ensolarados, florestas tropicais ou cidades como São Paulo como cenário?

Na mesa “O insólito tem sangue latino”, na Feira do Livro 2026, Verena Cavalcante, André Balbo e Cristhiano Aguiar trouxeram uma resposta possível: estamos em um continente muito rico, e as referências para o horror são outras. Se o ponto de partida canônico é Edgar Allan Poe, aqui se fala de Julio Cortázar, Lygia Fagundes Telles, Silvina Ocampo, Borges. E, além deles, o realismo fantástico serve de solo fértil — a Macondo de García Márquez, o Pedro Páramo de Juan Rulfo, mundos em que o sobrenatural não invade a realidade; ele já mora nela.

É dessa tradição que nasce o que Verena Cavalcante escreve e que se pode chamar de gótico tropical. O extraordinário, ela explica, está no nosso cotidiano: ir se benzer, as ervas que viram cura, a simpatia para o santo, os rituais familiares. Tudo isso é realidade e fantasia ao mesmo tempo. Verena também disse que é Policarpo Quaresma: ufanista, queria ter um papagaio e que o tupi-guarani fosse ensinado na escola. Tudo é Brasil, e isso se reflete no que a estimula a escrever. É possível se horrorizar e tomar caipirinha.

Cristhiano Aguiar foi buscar o horror em outro lugar do cotidiano: a política. Parte da sua escrita veio da ascensão da extrema direita em 2018. Dois anos depois, vivemos uma pandemia. O horror aparece como forma de elaborar o que não se consegue nomear — morte, medo, doença — e de trazer para a página aquilo que ainda é tabu. André Balbo também usa o gênero para dar forma ao inominável, mas com o humor como lente: encarar o horrível com uma gargalhada torta. Você consegue pensar no quanto assustador pode ser um passeador de cachorro? André consegue.

Esse horror que nasce do ordinário não é exclusividade da literatura brasileira. Mariana Enriquez, Samantha Schweblin e Mónica Ojeda — três autoras que estão entre minhas últimas leituras — fazem o mesmo a partir de outros cantos da América Latina. Seus cenários são casas, personagens adolescentes, descobertas do corpo, pássaros, viagens. Não há Drácula, não há Frankenstein. Há pessoas comuns com uma perturbação que as leva a agir de modo surreal e que nos assombra por dias.

É o mesmo impulso que explica a popularização dos podcasts de true crime: a percepção de que as histórias mais perturbadoras não vêm dos monstros, mas das pessoas comuns que entram em um cinema e abrem fogo, ou da enfermeira que matava silenciosamente seus pacientes. O monstro mora ao lado.

O que une esses autores e autoras é exatamente isso: a América Latina. Um lugar com sol, cor e violência própria, que produz um horror que Poe nunca poderia ter escrito. A literatura é o caminho para tornar palpável o que a vida já colocou bem na nossa frente.