O Brasil que chora na segunda-feira precisa aprender a construir o amanhã
Derrota na Copa expõe crise de liderança, influência das bets e desafios do futebol brasileiro
O silêncio que tomou conta das ruas do país após o apito final não foi apenas o de mais uma eliminação. O que o brasileiro viveu foi a pior segunda-feira em trinta anos. Uma ressaca coletiva, daquelas que pesam no corpo de quem acorda cedo para pegar o transporte público nas periferias, carregando a frustração de ver o único momento de trégua e catarse nacional ser adiado por mais quatro anos. A derrota na Copa de 2026 dói porque, para nós, o futebol nunca foi só um jogo; é a nossa identidade em disputa.
A equipe que nos representou foi, por muitos, definida como um grupo de transição e de profundos contrastes. Em campo, mesclou pilares consolidados, como Alisson, Marquinhos, Casemiro e Vini Jr., com jovens promessas do futebol europeu e nacional. Mas seria uma profunda injustiça — e até um reducionismo preguiçoso — considerar a participação oscilante e a postura de Neymar como a síntese dessa instabilidade. O diagnóstico é mais complexo. O que vimos na Copa reflete, na verdade, as fraturas da nossa própria sociedade: um país que anseia pelo futuro, mas que ainda se vê refém de velhos vícios e de um individualismo messiânico que já não cabe mais no mundo atual.
Precisamos, urgentemente, virar essa página e entender a necessidade de construir novas lideranças. O futebol brasileiro não pode mais depender de heróis solitários que operam em redomas de privilégios. O futuro já dá sinais de vida por meio de atletas como Danilo e Vini Jr. Eles entenderam que vestir a Amarelinha exige responsabilidade histórica. Ao pautarem o racismo estrutural, a saúde mental e o papel social do atleta, mostram que a verdadeira liderança do século XXI se constrói com posicionamento, letramento social e inteligência coletiva. São referências que dialogam com o Brasil real.
Essa evolução, contudo, esbarra nas contradições éticas que hoje asfixiam o esporte. A Seleção que carrega a paixão do povo caminha de mãos dadas com o mercado voraz e predatório das bets. As apostas esportivas inundaram o futebol, transformando a cultura popular em pura especulação financeira, com impactos socioeconômicos devastadores justamente sobre as famílias mais vulneráveis das nossas periferias. Quando o algoritmo e o lucro importam mais do que a dignidade humana e o desenvolvimento esportivo, a essência do futebol adoece. É papel do debate público questionar e regular esse cenário.
Mas o esporte, assim como a política, é feito de ciclos e de esperança. No ano que vem, o mundo vai parar para a Copa do Mundo Feminina, que marcará a despedida de Marta, a maior de todos os tempos. E sua saída dos gramados promete ser radicalmente diferente da de Neymar.
Marta não se despede isolada em si mesma; despede-se como a arquiteta de uma modalidade inteira, uma mulher negra que pavimentou a estrada para que tantas outras pudessem simplesmente existir no esporte. A despedida de Marta será um ato de dignidade, de celebração coletiva e de um legado inabalável que orgulha a nossa gente. Que a Seleção Masculina saiba ler os sinais do tempo. A reconstrução do nosso futebol, e do nosso país, depende da nossa capacidade de reconectar o topo da pirâmide à base da sociedade.