O Junho Verde marca novamente a urgência de decodificar um tempo em que as tragédias ambientais deixaram de ser previsões distantes para se tornarem eventos rotineiros. No Brasil, o ritual do debate público se repete: os holofotes se voltam à Amazônia, ao Cerrado e ao combate ao desmatamento. Mas há um silêncio que paira sobre o asfalto: onde estão as cidades na engrenagem da sobrevivência climática?

Como arquiteta, urbanista e gestora pública, insisto que não há justiça ambiental sem uma nova arquitetura urbana. No país, 84,8% da população vive nessas áreas, segundo o IBGE. Ignorar esses territórios na discussão ecológica escolhe invisibilizar a realidade da maioria do povo brasileiro, reduzindo o espaço onde a vida urbana pulsa e adoece, a um mero problema secundário de infraestrutura.

A pauta da proteção de encostas, do manejo de bacias e do combate às inundações não é uma novidade. O que mudou com o agravamento da crise climática não foi o diagnóstico, mas a escala do perigo, exigindo que o planejamento urbano seja alçado à prioridade número um da segurança nacional.

Aqui cabe uma autocrítica à nossa própria comunidade técnica — arquitetos, urbanistas, engenheiros e sanitaristas. Falhamos em pautar o debate público com a radicalidade necessária.

O Brasil, pela dimensão de seus desafios e riqueza de sua produção acadêmica em territórios populares, deveria ser referência mundial em soluções urbanas de resiliência. Mas o que vemos é a repetição de fórmulas obsoletas.

Os dados do Instituto Trata Brasil evidenciam nossa omissão: cerca de 32 milhões de pessoas não têm acesso à água tratada e 90 milhões não contam com coleta de esgoto. O déficit habitacional ultrapassa os 6 milhões de moradias, empurrando as populações vulneráveis para áreas de altíssimo risco geológico e hidrológico.

Este cenário tem cor, classe e gênero. É a expressão exata do racismo ambiental, visível nas favelas submetidas ao estresse térmico de ilhas de calor que chegam a registrar temperaturas até 10°C maiores do que bairros arborizados na mesma cidade. As mulheres negras e periféricas, chefes de metade dos lares nessas comunidades, são as primeiras a sofrerem os efeitos dessa assimetria socioespacial.

Saneamento básico, transição energética no transporte e adaptação urbana não são apêndices da pauta ecológica: são o coração da sobrevivência. Sustentabilidade sem justiça social e urbana é apenas jardinagem. Neste mês junho, o convite é para ecologizar a política urbana e urbanizar o debate ambiental. Pelas nossas vidas, pelo nosso direito de imaginar e disputar o futuro.