Ataques de grupos neonazistas contra parlamentares, principalmente mulheres têm aumentado consideravelmente nos últimos dias e organizações buscam apoio para segurança

Duda Salabert é a vereadora mais votada da história de BH e a primeira mulher travesti a se candidatar a uma vaga no Senado. Foto: Mídia NINJA

Por Mauro Utida

A vereadora mineira e pré-candidata a deputada federal, Duda Salabert (PDT-MG), voltou a receber ameaças de morte por grupos classificados como neonazistas. Foram três ameaças nos últimos três dias, o que prejudicou, inclusive, o compromisso político da parlamentar trans, que passou o primeiro dia da campanha em reunião com forças de segurança.

Nesta quarta-feira, dia 17, ela informou pela sua conta no Twitter que iria às ruas com a escolta de seguranças armados para a sua proteção. “Não vão nos calar!”, escreveu ela.

 

 

Ela afirma ainda que fará campanha com carro blindado, colete à prova de bala e com a escolta armada que me acompanhará.

Duda, que é a vereadora mais votada da história de Belo Horizonte e a primeira mulher trans a ser eleita na cidade, já havia sido vítima de ameaça de morte em 2020 e voltou a registrar boletim de ocorrência no último dia 1°, onde denunciou o conteúdo recebido por e-mail com ameaças contra ela e a família, que expressam diversas formas de violência. Em depoimento, Duda disse que a ameaça foi enviada por um “frequentador de ambientes virtuais neonazistas”.

Após a repercussão do crime, o prefeito de BH, Fuad Noman, colocou o efetivo da Guarda Municipal à disposição para reforço na proteção da parlamentar.

Mais ameaças

Ataques de grupos neonazistas contra parlamentares, principalmente mulheres têm aumentado consideravelmente nos últimos dias. Nesta semana, a vereadora de São Paulo Erika Hilton e a vereadora suplente de Porto Alegre e ativista pelos direitos das pessoas trans e travestis Natasha Ferreira, ambas do PSOL, procuraram a polícia para denunciar o recebimento de novas ameaças de morte por bolsonaristas, através de mensagens enviadas por e-mail anônimo.

As ameaças acontecem uma semana após as parlamentrares, que são lideranças do partido nas câmaras municipais das duas capitais, denunciarem o presidente da república, Jair Bolsonaro (PL), ao Ministério Público por homofobia após fala insinuando no Flow Podcast que a epidemia de varíola dos macacos é relacionada à homossexualidade.

Ambas são candidatas à Câmara dos Deputados e o autor das ameaças exige que as parlamentares abandonem a vida pública, com comentários transfóbicos e retratando a varíola do macaco como “peste gay”. As ameaças também foram enviadas por e-mail aos vereadores Matheus Gomes e Karen Santos, do PSOL-RS, e a outros parlamentares do partido em São Paulo, incluindo a deputada estadual Erica Malunguinho.

Os jornalistas do site Congresso em Foco, Lucas Neiva e Vanessa Lippelt, também são mencionados e ameaçados. Além disso, há citações sobre o ex-presidente Lula (PT) e o Supremo Tribunal Federal (STF).

No início do mês, Manuela d’Ávila (PC do B) e a líder do PSOL na Câmara dos Deputados, Sâmia Bomfim (SP) também foram ameaçadas de morte, incluindo, suas famílias. Estes ataques, inclusive, fez com que Manuela D’Ávila desistisse de concorrer ao Senado em aliança partidaria no Rio Grande do Sul. Ela tomou a decisão para preservar a vida pessoal e profissional de ataques dos quais foi alvo nas últimas três eleições.

Sâmia registrou um boletim de ocorrência, no último dia 3, após receber uma ameaça de estupro e de morte por e-mail. Um inquérito foi aberto e o caso será investigado pela divisão de crimes cibernéticos da Polícia Civil de São Paulo. Sâmia cobrou uma investigação minuciosa por parte das autoridades policiais e afirmou que a sociedade brasileira não deve naturalizar agressões “tão perversas, misóginas e nazistas” como essas. “O nosso recado para eles é de que todas as ameaças estão sendo investigadas, e os responsáveis serão punidos. Por mais que tentem nos calar e nos intimidar, nós não arredaremos o pé da política”, diz a deputada federal.

Mais proteção

Uma carta com 5 mil assinaturas cobra o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e a Procuradoria-Geral Eleitoral (PGE) urgência no enfrentamento a violência política de gênero e raça no período eleitoral, que deu inicio nesta terça-feira (16). O documento foi entregue pela diretora do Instituto Marielle Franco e irmã da vereadora assassinada em 2018, Anielle Franco, ao presidente do TSE, ministro Edson Fachin. A carta faz parte da campanha “Não Seremos Interrompidas”, liderada pelo Instituto Marielle Franco.

O documento apresenta recomendações para o enfrentamento da violência política de gênero e raça, como a eficácia e integração de canais de denúncia e o monitoramento destes canais durante as eleições. “O intuito é contribuir para o aumento da confiança no processo eleitoral, do fortalecimento do processo democrático e das instituições brasileiras”, informa o instituto.

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