Em resposta ao manifesto “Em defesa do pluralismo e da liberdade acadêmica”, apresentado por um grupo de professores reunidos na Universidade de São Paulo, em abril de 2026, mais de 670 pesquisadoras e pesquisadores, além de dez coletivos e organizações acadêmicas, assinaram o documento “Em defesa do Pluralismo Encarnado: Contra-manifesto pela igualdade democrática nas Universidades”. Longe de negar o debate, o contra-manifesto se propõe a ampliá-lo, questionando a invocação da neutralidade institucional e do “bem comum” feita pelo manifesto anterior.

Para os signatários, defender a neutralidade das universidades equivale a negar a própria história, e um liberalismo que apela ao bem comum sem considerar as desigualdades pode ser, nas palavras do texto, “bastante autoritário, porque insensível às desigualdades”.

O documento reúne docentes e pesquisadores de mais de 80 universidades e instituições de ensino e pesquisa de todo o Brasil, incluindo Universidade de São Paulo, Universidade Federal de Minas Gerais, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Universidade Federal da Bahia, Universidade Estadual de Campinas, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Universidade de Brasília, Universidade Federal de Santa Catarina, Universidade Federal de Pernambuco, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Universidade Federal de São Paulo, Universidade Estadual Paulista, Universidade Federal do Ceará, Universidade Federal do Paraná e dezenas de outras instituições federais, estaduais e privadas, além de pesquisadores vinculados a universidades internacionais, como a University of Edinburgh, a Université Paris-Saclay e a Chulalongkorn University.

“Buscamos amplificar o debate e escutar, na vida universitária, uma multiplicidade de vozes democráticas”, afirmam os autores, “assumindo uma posição declaradamente favorável à igualdade democrática”.

O ponto central do documento é a distinção entre dois tipos de pluralismo. De um lado, o que os autores chamam de “pluralismo desencarnado”: uma coleção de opiniões isoladas, descoladas de seus contextos histórico e social, que não pluraliza o poder, mas multiplica o ressentimento. De outro, o “pluralismo encarnado”, proposta colocada em campo pelos signatários: um pluralismo ancorado na história, na sociedade e na ética responsável, sustentado pelo princípio da igualdade democrática.

Para os autores, a racionalidade neoliberal está na raiz do problema. Apoiado nas obras das teóricas políticas Wendy Brown e Melinda Cooper, o manifesto argumenta que o neoliberalismo não é apenas um conjunto de políticas econômicas, mas uma racionalidade governamental que transforma questões coletivas em preferências individuais e converte cidadãos em agentes de mercado. O resultado é um a-historicismo que esvazia o debate público de responsabilidade:

“Sem uma perspectiva histórica, todas as ideias parecem ter o mesmo peso e a mesma validade; por isso, parecem plurais quando, no entanto, são ideias particulares de uma comunidade bastante específica: a comunidade do ressentimento.”

Um dos conceitos centrais mobilizados no texto é o de “identidades feridas”, extraído da obra States of Injury, publicada em 1995, e construída a partir de uma releitura de Friedrich Nietzsche. O argumento é que determinadas posições políticas se constituem estruturalmente em torno da dor e da vitimização e que, ao fazê-lo, acabam reproduzindo a lógica de poder que afirmam combater.

Aplicado ao contexto universitário, o diagnóstico é direto: quando o debate de ideias não está ancorado na história e na responsabilidade social, grupos deixam de debater propostas e passam a agir como identidades feridas, lendo a crítica como ataque pessoal, o dissenso como agressão e a rejeição de uma ideia como cancelamento. “A comunidade do ressentimento não age: ela reage, imputa e acusa”, escrevem os autores.

Em contraposição, o documento formula o que chama de “tripé da encarnação”. Para os signatários, o pluralismo democrático só é construtivo quando ancorado simultaneamente na história — avaliando as ideias à luz de sua trajetória e de suas consequências ao longo do tempo —; na sociedade — testando as ideias pelo crivo da realidade coletiva, mediada por instituições constitucionais e democráticas —; e na ética responsável, que exige o dever de engajamento, de se deixar transformar pelo argumento e de reconhecer o outro como interlocutor legítimo.

“Sem demos, sem história, sem responsabilidade ética, o pluralismo reivindicado pelo manifesto dos e das colegas reunidas no Centro Maria Antônia não liberta: apenas multiplica as feridas e legitima ainda mais as hierarquias sociais da desigualdade entre nós”, concluem os autores.

Por fim, o contra-manifesto reafirma que reconhecer novas vozes no mundo acadêmico e outras formas de produção de conhecimento como legítimas implica, necessariamente, rever qualquer ideia abstrata e supostamente neutra de liberdade. “Se a liberdade de expressão já não é o direito de dizer qualquer coisa sobre qualquer coisa, inclusive de insultar ou agredir verbalmente, a liberdade acadêmica exige um ônus argumentativo muito maior.”

O manifesto completo e a lista integral de signatários estão disponíveis em https://pluralismoencarnado.com.