Por Jhessyka Fernandes

O que acontece quando a potência da periferia de Guarulhos, a resistência das margens do Rio Madeira e a ancestralidade dos povos Potiguara se encontram nos corredores de algumas das universidades mais prestigiadas do mundo? A resposta está na Brazil Conference 2026.

Realizado anualmente em Cambridge, Massachusetts, o evento consolidou-se como um dos principais fóruns de debate sobre o futuro do Brasil no exterior. Nesta edição, porém, o destaque não é apenas o que se discute, mas quem está com o microfone. Sob uma gestão marcada pela diversidade e pela urgência de representar o “Brasil real”, a conferência deixa de ser apenas um espaço de elite para se tornar um espelho da pluralidade nacional, conectando o rigor acadêmico às vivências de quem transforma o país na prática.

A essência desta 12ª edição, realizada entre os dias 27 e 29 de março, é sintetizada pela trajetória de seus protagonistas. A Dra. Merllin Batista, primeira mulher negra e nortista a presidir a comunicação do evento, personifica essa mudança ao levar sua expertise em Ciências da Reabilitação da USP para o pós-doutorado em Harvard, com o objetivo de aplicar tecnologias digitais diretamente no SUS. Ela definiu o evento como uma ponte necessária para que o Brasil seja visto como uma potência capaz de prover soluções globais por meio da ciência e da diplomacia.

Esse sentimento de evolução é compartilhado por André Menezes, diretor de Comunidade, Cultura e Bem-estar, que viu na conferência um espaço de aprendizado constante, especialmente após os desafios de representatividade enfrentados em edições anteriores. Vanessa da Mata, cantora premiada e reconhecida mundialmente, destacou o papel da cultura como “pilar de identidade, resistência e transformação social”. Ela, que vive a cultura, elabora a importância de outras estruturas transformadoras, como a família e o esporte, e reforça que os aprendizados são horizontais e acontecem a todo momento, sendo fundamentais para o desenvolvimento criativo humano. Ela esteve presente no painel Poesia em Movimento, debatendo as mudanças na música brasileira e como elas refletem a sociedade e o futuro do país.

Oliver Kornblihtt / Mídia NINJA

Cecília Oliveira, fundadora do Instituto Fogo Cruzado, vê o Brazil Conference 2026 como uma brecha para que o debate geopolítico mundial seja enxergado de forma mais ampla, apontando problemáticas e suas decorrentes consequências nas ações de países de grande economia, como os Estados Unidos, que recentemente avaliaram classificar organizações criminosas brasileiras como terroristas, ampliando ainda mais o debate sobre segurança pública em um ano de eleições.

A programação deste ano refletiu esse ecossistema de diálogo, com painéis que cruzaram temas técnicos e populares, como a reforma tributária, da qual participou o antropólogo Michel Alcoforado. Autor do livro Coisa de Rico, que relata comportamentos da elite brasileira, ele integrou o painel “Por que o Brasil continua tão desigual?”, no qual também discutiu cultura e riqueza ao lado de nomes como Bernard Appy e André Menezes.

Ainda na economia, Ana Fontes, que participou do painel Por Trás de um Negócio, debateu as formas de empreender no Brasil. A fundadora e presidente da Rede Mulher Empreendedora conversou com Bianca Andrade, empresária e fundadora da Boca Rosa Company, sobre a importância de apoiar negócios e causas lideradas por mulheres e por outros grupos minoritários. Incentivos, apoio e recursos financeiros são primordiais para que projetos com causa social sejam verdadeiramente ativos.

O painel Território, Clima e Desenvolvimento no Brasil, que discutiu os desafios para políticas sustentáveis, incluiu Domitilla Barros, autora, palestrante e estrategista ESG, e Samela Saetrê Mawé, bióloga, ativista e comunicadora. Domitilla, que desenvolveu um trabalho de alfabetização com crianças em Linha do Tiro, em Recife, destacou a importância de alcançar novos patamares para que sua atuação também possa impulsionar outras iniciativas ainda sem o apoio necessário. Samela, que levou a narrativa dos povos indígenas ao painel, ressaltou a necessidade de reconhecer a importância dos povos originários, que há gerações já discutem e compreendem meio ambiente e sustentabilidade, e apontou como a ideia de progresso e desenvolvimento dissociada do cuidado ambiental e social se revela uma falácia rasa, com impactos diretos no presente.

Oliver Kornblihtt / Mídia NINJA

No painel Transformando a Educação no Brasil, a professora, escritora e palestrante Bárbara Carine participou do debate, acendendo diálogos sobre o avanço do sistema de ensino e enfatizando a importância da valorização da cultura e da diversidade em ambientes renomados, como a própria Harvard, que também se beneficia do conhecimento e da herança que o Brasil tem a oferecer. Lari Moraes, professora e idealizadora do Coletivo Afroativos, recebeu o prêmio de Impacto Social 2026, destacando a potência da favela e como ações educativas pautadas no protagonismo estudantil podem ajudar a construir uma sociedade antirracista e mais inclusiva.

Na ciência e tecnologia, Ana Carolina Querino, representando a ONU Mulheres Brasil, reforçou a importância de reconhecer as dificuldades que o outro enfrenta e tratá-lo como igual, para que a sociedade possa combater injustiças e atrasos e, assim, caminhar em direção a um Brasil do futuro que tantos almejam. Sarah Barbosa, vencedora do Impacto Social 2026 pelo Programa Pesquisadores, vê na ciência e na educação ferramentas de resistência. Doutoranda em Educação, ela pesquisa financiamento e políticas educacionais na Amazônia, buscando reduzir desigualdades históricas por meio da articulação entre ciência, território e compromisso social.

Oliver Kornblihtt / Mídia NINJA

No campo ambiental e climático, a voz do jovem embaixador Fred Karakarã, do povo Potiguara, levou a urgência da internacionalização das vozes indígenas, lembrando que o conhecimento ancestral é uma estratégia real para a sobrevivência do planeta. Complementando essa visão regional, a professora e pesquisadora Sara Barbosa reforça o papel fundamental das políticas públicas para os povos amazônidas, enfatizando a necessidade de reconhecer as especificidades do “Custo Amazônico” e valorizar os saberes da floresta nos centros de decisão mundial.

Ao longo dos próximos dias, a Mídia NINJA publicará uma série de entrevistas exclusivas com os participantes, detalhando as propostas e os bastidores desse encontro histórico. O futuro do Brasil está sendo debatido agora, e você é convidado a acompanhar cada capítulo dessa construção coletiva por meio de nossas plataformas.