“Somos perseguidos para sempre por nossas ações. A sua ordenação, as suas circunstâncias e a sua motivação podem perfeitamente vir a ser profundamente modificadas a posteriori. Esta é meramente uma das armadilhas da história e suas múltiplas determinações.”
Franz Fanon.

Por Milton Rondó Filho, diplomata aposentado e membro do Instituto Fome Zero

 

Ninguém melhor para falar de Caribe do que um caribenho, no caso, Franz Fanon, médico psiquiatra da Martinica.

Outro caribenho, o ex-primeiro-ministro da Jamaica, Michael Manley, filho do primeiro chefe de governo do país, independente, Norman Manley, foi, junto com seu pai Norman, um dos maiores homens de estado do Caribe.

Pois bem, Michael era claro em delimitar o Caribe: ao Sul, a fronteira é a foz do Amazonas, o que faz todo sentido do ponto de vista geográfico (a flora e fauna dessa região são determinadas pelas águas do rio-mar), humano (somos descendentes dos mesmos povos originários) e político (populações que buscam a liberdade, sempre em contratensão com as potências coloniais que buscam negá-la, em representação dos interesses de seus capitais).

No caso brasileiro, a pugna implicou o próprio pertencimento ao Caribe, uma vez que a França reivindicava todo o litoral do Amapá, de forma ilegítima.

Em caso de vitória do pleito francês, colonial, o Brasil perderia o exclusivo direito de navegação no Amazonas, uma vez que a França controlaria a margem esquerda da foz.

O árbitro da disputa foi o Presidente da Confederação Helvética, o Presidente da Suíça, vizinha e incrustrada na França.

Pode-se imaginar a qualidade dos documentos que o Barão do Rio Branco teve de produzir para defender os legítimos interesses brasileiros e, dessa forma, manter sob a soberania nacional aquele território, ao qual lhe cabia por o direito de sucessão, havendo provadamente, pertencido a Portugal.

No entanto, com a alternância de influência geopolítica do Norte sobre o Caribe, no início do século passado, concomitantemente à vitória diplomática brasileira, a hegemonia sobre a região passou da Europa para os EUA. O Brasil, então, iria se retrair, diplomaticamente, deixando até de reivindicar sua condição caribenha, que, como visto acima, era determinante geográfica, humana, histórica e política.

Com efeito, o Caribe é nada menos do que a primeira região de interesse geopolítico da hiperpotência, como as sanções a Cuba deixam bem evidente.

Isso também se pode aferir pelo fato de que, ao longo da História, a região será aquela com maior número de intervenções dos marines; em alguns países, de quase modo sistemático,  uma verdadeira Via Sacra, em que o Sábado de Aleluia e, menos ainda, o Domingo de Páscoa ainda não ponteiam.

Chegamos ao Haiti

O país cometeu vários pecados históricos, alguns deles – aos olhos dos brancos – imperdoáveis: foi o primeiro país das Américas a libertar os escravos (1794); fundou a primeira república independente (1-1-1804) e, previamente à independência da França, venceu os generais de Napoleão.

Pior, criou língua própria, o creole, e, heresia suprema, uma religião: o vudu, tão ridiculamente caricaturado pelo cinema branco estadunidense, sem que os bonequinhos espetados guardem qualquer relação com o rico sincretismo religioso do vudu.

Destarte, à vitória sobre os franceses seguiram-se inúmeras invasões por parte dos EUA, às quais, por sua vez, promoveram os clássicos golpes de estado, patrocinados pela nação que se queria bastião da democracia (rs).

E o Brasil nisso?

Além de dois diplomatas brasileiros, heróis, que lá faleceram, dando suas vidas, literalmente, por aquele martirizado povo, pouco, bem pouco fizemos, embora outros agentes diplomáticos tenham feito de seu melhor no país.

As razões do fracasso brasileiro passam, em primeiro lugar, por termos mecanismos diplomáticos, como a cooperação técnica, em nível aquém do amadorístico.

A Agência Brasileira de Cooperação (ABC) não conta com corpo próprio de cooperantes, apenas agenciando a demanda internacional e a oferta interna de pessoal técnico de outros órgãos da administração federal, como a Empresa Brasileira de Pesquisa Agrícola (EMBRAPA), por exemplo.

Por exemplo, no Haiti, a EMBRAPA mantinha um projeto de cooperação, que consistia em…uma horta…

Verdade que estava na região montanhosa de Kenskoff, onde se cultiva a maior parte das hortaliças para a venda na capital.

Entretanto, era necessário veículo com tração para chegar lá e em torno de duas horas de viagem…

Ora, que sentido fazia enviar agrônomos altamente qualificados, viajando em avião ao Haiti, para visitar…uma horta?

Vale notar que esse equívoco de planejamento e execução reflete não apenas a inadequação da ABC, como o desconhecimento da EMBRAPA sobre o que seja agricultura familiar, uma vez que a Empresa foi criada para o agronegócio, financiada regiamente pelo estado, ou seja, pelos contribuintes, porém…

A boa e velha relação promíscua entre capital e estado, sem a qual o capitalismo brasileiro não vem à tona.

Sempre o Brasil carregando o agro – que a todos tenta convencer (simbolico que seja Globo em primeiro lugar, sempre a promotora principal das hegemonias negativas) ser a relação contrária ao que de fato é.

Ou seja, exportamos nossas contradições e ainda acabamos por fazer mais mal à chaga aberta em que se tornou o Haiti.

Sem falar na intervenção militar, por nós patrocinada, vulgo MINUSTAH, para cuja chefia mandamos o plurigolpista general Heleno e o aprendiz de genocida e atual desgovernador de São Paulo, Tarcísio de Freitas.

Compreensivelmente, imagino que o povo haitiano não conte muito com a cooperação brasileira…

Como mudar esse inferno em que se tornou a nação caribenha, para o qual infelizmente colaboramos?

Mudando a cooperação brasileira e a relação parasitária entre a oligarquia brasileira, inclusive seus representantes no aparelho estatal, que impedem qualquer possibilidade de cooperação internacional efetiva.

Parece muito. E é.

Como fazer isso, ou o que fazer, como diria aquele senhor russo?

Começar, diria aquele outro senhor chinês, pois uma longa caminhada começa sempre com o primeiro passo.