Durante o sexto dia da Feira do Livro de São Paulo, a escritora mapuche chilena Daniela Catrileo e o escritor munduruku paraense Daniel Munduruku se reuniram, sob a mediação do jornalista Leão Serva, para discutir literatura indígena, colonialismo, memória, território e resistência. Em uma conversa que atravessou fronteiras nacionais, os autores refletiram sobre os desafios compartilhados pelos povos originários da América Latina e sobre o papel da escrita na preservação de identidades historicamente silenciadas.

A identidade indígena e a reocupação de espaços dentro da sociedade contemporânea estiveram no centro do debate. Distanciando-se das narrativas coloniais que, durante séculos, promoveram uma visão homogênea dos povos indígenas, os escritores destacaram a pluralidade de culturas, línguas, cosmologias e experiências existentes entre os povos originários. Para ambos, a crescente presença indígena na literatura, na universidade, na política e em outros espaços públicos representa uma conquista recente, mas fundamental para romper com séculos de apagamento.

A literatura como instrumento de memória, sobrevivência e resistência atravessou toda a conversa. Reunidos em uma mesa que celebrou o lançamento dos romances Chilco e Fantasmas, Daniela Catrileo e Daniel Munduruku refletiram sobre os impactos permanentes da colonização, a disputa por territórios, a força da oralidade e o papel da imaginação na construção de futuros possíveis para os povos indígenas.

Os escritores dialogaram sobre experiências que revelam como a violência colonial continua presente no cotidiano, ainda que sob novas formas. Ao comentar seu romance Chilco, Daniela explicou que a obra surgiu a partir da observação dos processos de deslocamento enfrentados por indígenas que vivem nos centros urbanos e das transformações provocadas pelo avanço de projetos econômicos sobre territórios tradicionais.

Foto: Fábio Florido/ Terabia/ A Feira do Livro

“Há uma nova forma de desapropriação acontecendo dentro das cidades. Essa disputa não se limita ao passado colonial ou aos conquistadores europeus. Trata-se também de uma relação permanente com os Estados nacionais e com estruturas de poder que continuam ocupando nossos territórios e determinando nossas vidas”, afirmou.

A autora destacou que a colonização não pode ser compreendida apenas como um acontecimento histórico encerrado, mas como uma estrutura que continua produzindo consequências materiais e simbólicas para os povos originários. Ao mesmo tempo, ressaltou que sua escrita busca ultrapassar uma narrativa centrada exclusivamente na dor.

“Existe um trauma. Nós convivemos, muitas vezes, com a herança colonial e com as consequências que ela deixou para os povos originários. Mas também me interessa destacar a sobrevivência. Nem tudo é dor. Existe uma dança entre a dor e a sobrevivência. E é justamente essa zona que nos permite continuar de pé, continuar lutando e reafirmando nossa identidade.”

Ao refletir sobre os processos de criação literária, Daniela também ressaltou a importância dos saberes ancestrais e de outras formas de produzir conhecimento que escapam à lógica racionalista ocidental.

“Os povos indígenas sempre desafiaram essa racionalidade ocidental. Podemos construir conhecimento a partir do sensível. Aprendemos através do corpo, do tato, dos cheiros e das experiências sensoriais”, explicou.

Daniel Munduruku, em diálogo com a valorização da história dos povos originários defendida por Daniela, utilizou seu romance Fantasmas para refletir sobre o apagamento histórico dos povos indígenas no Brasil e sobre a necessidade de revisitar a história nacional a partir de outras perspectivas. Para o escritor, o país ainda precisa enfrentar suas próprias feridas para construir um futuro mais justo.

“O Brasil ainda precisa enfrentar a dor da própria história para se tornar o país que pode ser. Isso exige olhar para trás e buscar uma reconciliação com o passado. É o passado que nos impulsiona para frente”, afirmou.

Munduruku lembrou que os direitos dos povos indígenas só foram reconhecidos constitucionalmente em 1988 e destacou o caráter recente da presença indígena em espaços de produção de conhecimento e cultura.

“Nós só tivemos a possibilidade de nos mostrar para a sociedade há cerca de 30 anos. É muito pouco tempo. Mas hoje vemos indígenas nos ministérios, no Congresso, nas academias literárias, no teatro, no cinema e nas universidades. Existe uma geração indígena que venceu as barreiras que sempre foram colocadas diante de nós”, destacou.

Durante o debate, o escritor também criticou os estereótipos que ainda cercam a identidade indígena no imaginário brasileiro. Segundo ele, muitas pessoas continuam associando a autenticidade indígena a uma imagem congelada no passado, ignorando que os povos originários também ocupam e transformam os espaços contemporâneos.

“As pessoas ainda dizem: ‘Ah, então ele não é mais índio de verdade’. Como se publicar livros, usar tecnologia ou ocupar determinados espaços significasse abandonar a própria cultura. Mas isso não é abandono. É demonstração de competência”, afirmou.

Para ilustrar essa reflexão, o autor recordou uma frase do líder indígena Marcos Terena: “Posso ser quem você é sem deixar de ser quem eu sou”.

Outro tema que mobilizou a conversa foi a importância da oralidade na transmissão de saberes. Para Munduruku, contar histórias continua sendo uma das principais formas de preservar conhecimentos, valores e memórias coletivas.

“A oralidade é um método pedagógico. É uma forma de transmissão de saberes. Os velhos são as nossas bibliotecas vivas.”

O autor ainda acrescentou que costumava “dizer que cabe aos pais a educação do corpo da criança e aos avós a educação da alma. E eles fazem isso contando histórias”.

Questionado sobre a presença dos sonhos em sua obra, o escritor explicou que eles ocupam um papel central nas cosmologias indígenas e funcionam como formas de comunicação com a ancestralidade.

Foto: Fábio Florido/ Terabia/ A Feira do Livro

“O sonho é uma mensagem. O sonho é uma notícia. O sonho é uma fofoca que a ancestralidade traz para a gente. E, se estivermos atentos e silenciosos, somos capazes de ouvir”, afirmou.

A relação entre território, identidade e diversidade sexual também esteve presente na conversa. Em Chilco, Daniela destacou que diferentes formas de amar sempre existiram entre os povos indígenas, apesar das tentativas históricas de apagamento promovidas pela colonização.

“Sempre amamos de maneiras distintas. A luta por uma vida digna, a luta por um território e a luta pelo direito de amar fazem parte do mesmo processo de emancipação”, afirmou.

Para a escritora, o território ultrapassa a dimensão física e está profundamente ligado à memória, à espiritualidade e aos afetos.

“O território não é apenas material. Ele é simbólico. É espiritual. É nele que encontramos as plantas medicinais, os espíritos protetores e a palavra viva que nos conecta com aquilo que somos”, explicou Daniela.

Nos momentos finais da mesa, os autores discutiram o papel da Igreja Católica durante o processo de colonização da América Latina. Munduruku classificou a evangelização forçada como uma ferramenta de controle utilizada para enfraquecer culturas e identidades indígenas.

“Nossa gente foi considerada inimiga desde o começo. A força militar vinha acompanhada de uma força simbólica, que era a força religiosa. Foi uma instituição que teve atitudes realmente horrorosas e que contribuiu para que muitos povos indígenas passassem a desprezar o próprio pertencimento”, afirmou.

Ao encerrar o encontro, Daniela e Daniel retornaram à literatura como espaço de permanência, imaginação e construção de futuros. Em meio às disputas por território, memória e reconhecimento, ambos defenderam a escrita como uma ferramenta capaz de preservar saberes ancestrais e abrir caminhos para as próximas gerações.

“Graças à imaginação seguimos vivos e vivas”, afirmou Daniela.

Munduruku complementou cobrando a disseminação da produção literária indígena contemporânea para transformar a forma como o Brasil compreende sua própria história.

“A literatura indígena que estamos produzindo hoje é uma inovação. É uma forma diferente de fazer literatura e precisa estar cada vez mais presente nas escolas para que as novas gerações cresçam com uma compreensão mais ampla e mais crítica sobre os povos indígenas e sobre a própria história do Brasil”, finalizou.