Por Larissa Cristovão – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube

A Copa do Mundo de 2026 promete entrar para a história não apenas por reunir, pela primeira vez, 48 seleções e 104 partidas em três países, mas também por consolidar a inteligência artificial como parte da operação do maior evento esportivo do planeta. A tecnologia estará presente na arbitragem, nas análises táticas das seleções, na segurança dos estádios e até na experiência dos torcedores.

A tecnologia já vinha ocupando espaço no futebol, mas nunca de forma tão abrangente. Em 2026, a inteligência artificial conecta arbitragem, análise de desempenho, segurança e produção de conteúdo em um mesmo ecossistema.

Arbitragem mais rápida e precisa

Uma das tecnologias mais conhecidas é a bola conectada. Ela estreou na Copa do Mundo de 2022, no Catar, e retorna nesta edição equipada com um chip e um sensor de movimento capazes de registrar, em tempo real, informações sobre posição, rotação e o instante exato do contato com a chuteira.

Sozinha, porém, a bola não resolve nada. O maior avanço está na integração com outros sistemas instalados nos estádios. Em cada uma das 16 arenas, câmeras posicionadas sob a cobertura acompanham continuamente os jogadores, identificando diferentes pontos do corpo para criar um rastreamento preciso dos movimentos em campo.

Antes do início do torneio, todos os atletas passaram por um escaneamento corporal que gerou modelos tridimensionais utilizados nos sistemas de arbitragem. Quando os dados enviados pela bola são cruzados com esse rastreamento, o VAR consegue reconstruir os lances com muito mais precisão.

É essa combinação que permite o funcionamento do impedimento semiautomático. O sistema envia alertas quase instantâneos para possíveis irregularidades, reduzindo o tempo de análise e diminuindo a margem para erros de interpretação visual. Ainda assim, a decisão final continua sendo do árbitro.

Outra novidade é o Referee View, desenvolvido em parceria com a Lenovo. A ferramenta utiliza inteligência artificial para estabilizar, em tempo real, as imagens captadas pelas câmeras corporais dos árbitros, oferecendo ao público uma visão em primeira pessoa durante as transmissões.

A inteligência artificial também ajudará as seleções

A IA não ficará restrita ao trabalho da arbitragem. A FIFA desenvolveu, em parceria com a Lenovo, o Football AI Pro, uma plataforma baseada em inteligência artificial generativa treinada com dados acumulados ao longo de décadas de competições.

O sistema reúne vídeos, estatísticas, mapas táticos, informações sobre jogadores e padrões de jogo das seleções para produzir relatórios em texto, gráficos e visualizações em três dimensões.

Na prática, a ferramenta funciona como um grande assistente de análise esportiva. Pela primeira vez, todas as 48 seleções terão acesso ao mesmo sistema, independentemente do orçamento disponível, reduzindo diferenças de acesso a informações que antes dependiam de grandes departamentos de análise.

Sensores utilizados pelos próprios atletas também entram nessa equação. Eles monitoram indicadores físicos, como carga muscular e sinais de fadiga, ajudando as comissões técnicas a prevenir lesões e administrar o desempenho dos jogadores.

Segurança e reconhecimento facial

A inteligência artificial também será utilizada fora das quatro linhas. Em diferentes cidades-sede, sistemas de reconhecimento facial serão empregados para controlar o acesso aos estádios e autorizar pagamentos. Em alguns locais, robôs equipados com câmeras circularão pelas instalações monitorando áreas de circulação de torcedores.

Softwares de análise de vídeo em tempo real poderão identificar objetos abandonados, drones não autorizados, veículos suspeitos e movimentações consideradas incomuns. Sensores acústicos complementam o monitoramento ao detectar sons que podem indicar situações de risco.

O uso dessas tecnologias, entretanto, também desperta preocupações. Organizações que atuam na defesa dos direitos digitais questionam como serão armazenados os dados biométricos dos torcedores e por quanto tempo essas informações permanecerão nos bancos de dados após o encerramento da competição.

No Brasil, a discussão também está presente. A Lei Geral do Esporte determina a adoção de identificação biométrica em estádios com capacidade superior a 20 mil pessoas. Especialistas e organizações da sociedade civil alertam para riscos relacionados à privacidade, ao uso indevido de dados pessoais e aos vieses presentes em sistemas de reconhecimento facial.

A experiência do torcedor também muda

Quem acompanhar os jogos de casa também verá os efeitos da inteligência artificial. Durante as transmissões, a tecnologia produzirá estatísticas em tempo real, animações tridimensionais para explicar lances complexos e replays gerados automaticamente. Nas plataformas digitais, a IA também será utilizada para criar legendas, cortes de vídeo, análises e recomendações de conteúdo quase instantaneamente.

Com 48 seleções, 104 partidas e 16 cidades-sede, a quantidade de informações produzidas pela Copa é inédita. Processar esse volume de dados em tempo real só será possível graças ao uso combinado de inteligência artificial, computação em nuvem e redes de alta velocidade.

Muito além da tecnologia

A Copa de 2026 será um dos maiores testes já realizados para o uso da inteligência artificial em um evento esportivo. Ao mesmo tempo em que promete tornar a arbitragem mais precisa, ampliar o acesso das seleções a ferramentas de análise e reforçar a segurança dos estádios, o torneio também coloca em evidência discussões sobre privacidade, vigilância e uso de dados biométricos.

A edição de 2026 pode ficar marcada como o momento em que a inteligência artificial passou a ocupar um lugar permanente no futebol. A IA estará na bola, nas câmeras, nos computadores das comissões técnicas, nos sistemas de segurança e nas telas de quem acompanha os jogos. Nunca uma Copa do Mundo concentrou tantas aplicações dessa tecnologia ao mesmo tempo.

Se essas ferramentas vierem para transformar o futebol, os efeitos dessa mudança vão muito além das quatro linhas.