Grupo acusado de espalhar desinformação climática ganhou acesso a COPs, parlamentos e líderes globais
AllatRa usou COPs e redes para espalhar desinformação climática e desviar o foco das causas reais da crise
Uma investigação publicada pela openDemocracy, assinada por Julián Reingold e Ignacio Conese, revelou como a AllatRa, organização apresentada como uma iniciativa voluntária de pesquisa sobre clima e desastres naturais, vem ganhando espaço em ambientes políticos e institucionais de alto nível para disseminar desinformação climática. A reportagem mostra que o grupo circulou por parlamentos, conferências da ONU, redes sociais e cúpulas do clima enquanto promovia narrativas pseudocientíficas que desviam o foco das emissões de gases de efeito estufa como causa central da crise climática.
Fundada na Ucrânia em 2014 e atualmente sediada nos Estados Unidos, a AllatRa se apresenta como uma organização dedicada ao estudo da crise climática e de desastres naturais. No entanto, segundo a investigação, seus materiais defendem explicações sem respaldo científico, atribuindo a crise climática principalmente à poluição por plásticos, aos nanoplásticos e até a fenômenos cósmicos que ocorreriam em ciclos de 12 mil anos.
A reportagem também aponta que a organização já difundiu previsões apocalípticas sobre o futuro da humanidade. Em conteúdos removidos de seu site depois que a openDemocracy procurou o grupo para comentar o caso, a AllatRa alertava que a existência humana poderia estar em risco nos próximos dez anos. Um dos relatórios citados pela investigação afirmava que nanoplásticos nos oceanos impediriam o resfriamento do núcleo da Terra, provocando atividade sísmica extrema e uma explosão capaz de destruir a atmosfera, os oceanos e o campo magnético do planeta.
Especialistas ouvidos pela openDemocracy classificam essas narrativas como pseudociência. Eles alertam que esse tipo de desinformação cria confusão pública, alimenta ansiedade coletiva e desvia a atenção das causas reais da crise climática, especialmente a queima de combustíveis fósseis e as emissões produzidas por atividades humanas.
Mesmo com críticas da comunidade científica, a AllatRa conseguiu acessar espaços de grande influência internacional. Desde 2024, segundo a reportagem, integrantes da organização participaram de eventos no Capitólio dos Estados Unidos, no Parlamento Europeu, em reuniões da ONU, no Vaticano e em conferências climáticas internacionais.
Um dos episódios destacados pela investigação ocorreu no Parlamento Europeu, em fevereiro, durante uma conferência sobre nanoplásticos. O evento foi coorganizado com o eurodeputado tcheco de extrema direita Ondřej Knotek e reuniu cientistas, representantes políticos e membros do centro de pesquisa da própria AllatRa. Para especialistas, esse tipo de estratégia mistura ciência real com conclusões distorcidas para dar aparência de legitimidade a teses sem base científica.
A reportagem também mostra a aproximação da organização com figuras da direita internacional e do universo MAGA, ligado ao trumpismo nos Estados Unidos. O pastor evangélico Mark Burns, que se apresenta como conselheiro espiritual de Donald Trump, participou de eventos associados à AllatRa no Parlamento Europeu e no Capitólio dos EUA. Em um desses encontros, Trump gravou uma mensagem em vídeo elogiando Burns.
A AllatRa também aparece conectada a disputas políticas envolvendo Ucrânia e Rússia. Autoridades ucranianas já acusaram membros da organização de justificar a guerra russa e promover narrativas alinhadas ao Kremlin. Em 2023, uma operação policial em escritórios da AllatRa na Ucrânia encontrou armas, explosivos, dinheiro, bonés MAGA e retratos de Vladimir Putin, segundo documentos citados pela reportagem. Ao mesmo tempo, a organização também foi proibida na Rússia, onde foi classificada como “extremista”.
No campo climático, o acesso mais sensível ocorreu nas conferências da ONU. Segundo a openDemocracy, integrantes da AllatRa participaram das COP29, no Azerbaijão, e da COP30, no Brasil, além da conferência climática de Bonn, em 2025, e de encontros da ONU sobre biodiversidade, desertificação e direitos humanos. A entrada nas COPs teria ocorrido por meio da delegação da Egypt the Dream Foundation for Development and Innovation, organização egípcia com status de observadora na UNFCCC.
O presidente da fundação egípcia, Mohamed Haggag, afirmou à openDemocracy que concedeu credenciais aos integrantes da AllatRa porque acreditava que eles eram cientistas e comunicadores reais. Disse ainda que não sabia das investigações envolvendo a organização na Ucrânia e na República Tcheca e afirmou que não voltaria a fornecer credenciais ao grupo no futuro.
A investigação chama atenção para um problema cada vez mais estratégico no debate climático global: a entrada da desinformação em espaços institucionais por meio de linguagem técnica, aparência científica e articulações políticas. Em vez de negar a crise climática de forma direta, esse tipo de narrativa desloca o centro do problema, relativiza o papel dos combustíveis fósseis e confunde a opinião pública sobre o que precisa ser feito com urgência.
A AllatRa, por sua vez, negou à openDemocracy que pratique desinformação climática. Em resposta escrita, a organização afirmou reconhecer o papel das emissões antropogênicas de gases de efeito estufa no aquecimento global e disse apoiar a posição do IPCC, o painel climático da ONU. A reportagem, no entanto, aponta que o IPCC não é mencionado nos principais relatórios do grupo analisados pela investigação.
O caso revela como a disputa pela narrativa climática se tornou também uma disputa política, religiosa e informacional. Em um momento em que o planeta enfrenta eventos extremos cada vez mais frequentes, redes organizadas de pseudociência e desinformação buscam ocupar espaços de poder para atrasar respostas concretas à crise.
Com informações da openDemocracy
Leia a investigação completa: https://www.opendemocracy.net/climate-change-allatra-cult-doomsday-russia-maga-trump-ukraine-disinformation/



