Entre algoritmos e estereótipos: como as “novelas de frutas” transformam misoginia em conteúdo viral
Conteúdos criados por IA acumulam milhões de visualizações, mas especialistas alertam para roteiros com violência e preconceito.
As chamadas “novelas de frutas” se consolidaram como um dos conteúdos mais virais das redes sociais em 2026. Com personagens como Abacatudo e Moranguete, vídeos produzidos com inteligência artificial acumulam milhões de visualizações no TikTok e Instagram e, junto com o alcance, também despertam preocupações em tempos de avanço do movimento red pill.
À primeira vista, a estética colorida e os personagens animados sugerem um conteúdo leve, quase infantil. Mas os roteiros seguem outra direção: histórias marcadas por traições, ciúmes, violência e relações tóxicas, muitas vezes sem qualquer tipo de problematização. O que se apresenta como entretenimento rápido acaba reproduzindo padrões e discursos já conhecidos, agora embalados por algoritmos e IA. Para a socióloga e cientista política Bruna Camilo, pesquisadora e doutora em gênero e misoginia, o hype das novelas de frutas está longe de ser apenas mais uma tendência engraçada e absurda da internet. “À primeira vista, esses folhetins parecem banais, mas funcionam como uma forma de normalização lúdica de temas machistas. A estética infantilizada cria um contraste direto com enredos marcados por traição, violência e humilhação. E esse contraste não é neutro: ele reduz a resistência crítica de quem consome”, explica em entrevista à ELLE Brasil.

O formato ganhou força a partir de adaptações de tendências internacionais, como o reality “Fruit Love Island”, inspirado no britânico “Love Island”. Perfis como o “AI.Cinema021” ajudaram a impulsionar o fenômeno, acumulando milhões de seguidores. No Brasil, a estética foi tropicalizada com gírias, cenários populares e narrativas que remetem a programas como “Casos de Família”.
Mas o fenômeno não parou no entretenimento. Marcas, influenciadores e até instituições públicas passaram a adotar a trend para dialogar com novas audiências. Ao mesmo tempo, surgiram versões “live-action” e um novo nicho de mercado: cursos online que prometem ensinar a produzir esse tipo de conteúdo e gerar renda.
Entre a viralização e a monetização, as novelas de frutas expõem como a inteligência artificial está sendo incorporada à cultura digital, nem sempre com filtros críticos à altura do alcance que conquista. E, se você vê seu filho ou seu parceiro consumindo esse tipo de conteúdo, fica o alerta: essas “frutinhas inocentes” são mais um exemplo de como a misoginia não é apenas discurso, mas também um negócio milionário.



