Meios registram a menor cobertura da violência contra mulheres em nove anos, apesar da magnitude dos crimes
A cobertura midiática das agressões machistas recua, segundo um estudo global, enquanto crescem os conteúdos propagados pelo movimento antifeminista global.
A cobertura midiática da violência contra as mulheres caiu ao nível mais baixo em quase uma década, apesar da magnitude e persistência desses crimes em escala global. É o que revela o relatório The Global Misogyny News Coverage Tracker, que analisou 1,14 bilhão de artigos publicados entre 2017 e 2025. Em 2025, as notícias sobre violência de gênero representaram apenas 1,3% do total, bem abaixo do pico de 2018, durante o auge do movimento #MeToo.
A queda na cobertura contrasta com a gravidade de casos que vieram à tona nos últimos anos, como os abusos sistemáticos cometidos por Jeffrey Epstein ou as violações sofridas por Gisèle Pelicot. Ainda assim, esses episódios não se traduziram em uma presença proporcional na agenda dos meios de comunicação.
Para especialistas, o problema não é apenas quanto se cobre, mas como se cobre. O relatório aponta que a perspectiva dominante segue sendo masculina: para cada mulher citada nas notícias, quase quatro homens têm voz. Além disso, as narrativas tendem a se concentrar nos agressores, deixando em segundo plano as sobreviventes e sem oferecer o contexto estrutural necessário para compreender essas violências.
Em escala global, quase uma em cada três mulheres já sofreu violência física ou sexual ao menos uma vez na vida, segundo a ONU. Ao mesmo tempo, o ambiente digital intensifica o problema com o uso de inteligência artificial para abusar de menores e o aumento das buscas por ajuda relacionadas à violência doméstica.
Enquanto isso, discursos antifeministas ganham espaço. As menções à chamada “ideologia de gênero” se multiplicaram por 42 entre 2020 e 2025, muitas vezes impulsionadas por campanhas organizadas.
O relatório aponta um silenciamento estrutural: a violência persiste, mas é cada vez menos, e pior, narrada. Por isso, os meios feministas se tornam mais necessários do que nunca, para construir uma comunicação que ofereça ferramentas para analisar as violências estruturais que atravessam mulheres, lésbicas, travestis e pessoas trans em todo o mundo.
Com informações de Ana Carbajosa / El País (Espanha)



