Em Santa Marta, cientistas mostram que a superação do petróleo é inevitável
Conferência na Colômbia coloca conhecimento científico como central para guiar nações para uma economia longe dos combustíveis fósseis; as iniciativas anunciadas nesta semana vão guiar acordo final entre líderes políticos e criar um fórum permanente para auxiliar implementações de ações práticas.
Por Fábio Bispo
Matéria originalmente publicada em InfoAmazonia
“A transição energética é complexa: envolve economia, meio ambiente e justiça social”, disse o cientista sueco Johan Rockström, diretor do Instituto Potsdam para Pesquisa de Impacto Climático. O caminho para o fim dos combustíveis fósseis não é simples, mas cientistas dispostos a resolvê-lo estão em Santa Marta, na 1ª Conferência Internacional sobre Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis, discutindo a melhor forma de avançar.
Duas iniciativas inéditas foram apresentadas nos últimos dias e colocaram o conhecimento científico no centro das discussões. A primeira foi o ciclo acadêmico, realizado na Universidade de Magdalena, reunindo cerca de 300 especialistas de diferentes países.
O grupo elaborou estratégias para a transição energética, com compromissos concretos, para apresentar aos governos. Um documento preliminar com o resultado das propostas sintetizando as linhas gerais das recomendações que serão apresentadas aos países nesta terça-feira (28) e quarta-feira (29), quando representantes das 56 nações participarão do encontro de alto nível para traçar planos de implementação com base, também, nas evidências apresentadas pelos cientistas.
A proposta dos cientistas recomenda a interrupção de novos projetos de combustíveis fósseis, a redução das emissões de metano, a aceleração da eletrificação e o fim dos subsídios ao setor petroleiro. Entre os argumentos que sustentam essas recomendações, os pesquisadores destacam evidências econômicas que apontam para o declínio acelerado da indústria do petróleo, além de exemplos práticos da expansão e do uso de energias renováveis.
A segunda iniciativa é a criação do Painel Científico para a Transição Energética Global, um organismo de assessoramento permanente a governos, que reunirá entre 50 e 100 cientistas para fornecer evidências científicas e produzir recomendações voltadas a orientar a saída progressiva dos combustíveis fósseis.
O Painel Científico reunirá nomes de destaque da ciência internacional, com sede na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em São Paulo. Idealizado pelo cientista Carlos Nobre, referência mundial nos estudos sobre aquecimento global, o painel será copresidido por Johan Rockström e Gilberto Jannuzzi, professor de sistemas energéticos na universidade do interior paulista.

O lançamento do painel lotou o Teatro Santa Marta, na universidade colombiana. Rockström destacou que, com apoio dos cientistas, experiências bem-sucedidas e lições aprendidas por governos que já iniciaram sua transição poderão “atuar como ponte entre países que avançam mais rápido e aqueles que ainda estão hesitantes”.
A expectativa é que os primeiros resultados do Painel Científico sejam apresentados na COP31, que será realizada em Antália, na Turquia, em novembro deste ano. “Não estamos aqui para estabelecer um novo consenso científico, estamos aqui para unir a ciência e permitir uma tomada de decisões melhor e mais rápida nas empresas, nos países, nas comunidades, em todo o mundo”, afirmou o pesquisador sueco.
Não estamos aqui para estabelecer um novo consenso científico, estamos aqui para unir a ciência e permitir uma tomada de decisões melhor e mais rápida nas empresas, nos países, nas comunidades, em todo o mundo.
Johan Rockström, diretor do Instituto Potsdam para Pesquisa de Impacto Climático
A Conferência de Santa Marta está prevista para acabar na quarta-feira, com uma reunião de alto nível entre representantes dos países participantes. Ao longo de todo o evento, há a intenção de resgatar o protagonismo da ciência, enfraquecido ao longo dos anos nas negociações climáticas formais das Nações Unidas, frequentemente travadas pelo lobby do setor fóssil e por impasses geopolíticos entre grandes produtores de petróleo.

Restauração florestal como complemento para saída dos fósseis
“Se atingirmos 2°C até 2050, muitas regiões podem se tornar inabitáveis”. O alerta de Carlos Nobre mostra que já estamos bastante perto de perder uma parte do planeta — em 2025, a temperatura média anual ficou cerca de 1,43 °C acima da média pré-industrial (1850–1900), situando-se entre o segundo e o terceiro ano mais quente da série histórica.
Em conversa com jornalistas antes do lançamento do painel, Nobre afirmou que limitar o aquecimento global a 1,5°C não será mais suficiente sem transformar metas em ação. Segundo ele, além da redução das emissões, será necessário remover grandes volumes de carbono da atmosfera. Ele aponta a restauração florestal como uma das principais soluções.
“Uma forma positiva de fazer isso é por meio da restauração florestal. O painel também vai debater como evitar essa ultrapassagem e como ampliar a remoção de carbono”, disse o climatologista, que também explicou que a medida deve compensar parte das emissões já acumuladas na atmosfera. Para Nobre, conter o desmatamento em florestas tropicais é uma condição indispensável para evitar cenários irreversíveis.
“Isso é absolutamente necessário porque, se ultrapassarmos o ponto de não retorno das florestas, não apenas da Amazônia, mas também de outros biomas da América do Sul, como o Cerrado, o Pantanal e áreas semiáridas, poderemos liberar mais de 400 bilhões de toneladas de dióxido de carbono. E isso tornaria impossível manter a meta de 1,5°C”, explicou.
Cientistas apontam caminhos para a transição
“Às vezes, é preciso aquecer gasodutos, comprimir o gás, transportá-lo por longas distâncias e só então queimá-lo. Quão absurdamente insano é esse sistema [energético] que construímos”, afirmou o economista Mark Campanale, CEO da Carbon Tracker, uma think tank que realiza análises aprofundadas sobre o impacto do mercado financeiro ao risco climático.
Às vezes, é preciso aquecer gasodutos, comprimir o gás, transportá-lo por longas distâncias e só então queimá-lo. Quão absurdamente insano é esse sistema [energético] que construímos.
Mark Campanale, CEO da Carbon Tracker
Os estudos de Campanale apontam que, para conter o aquecimento acelerado do planeta, 80% das reservas ainda não exploradas do setor de combustíveis fósseis precisam ficar intactas. O economista explica que o sistema energético fóssil já entrou em declínio estrutural. Segundo ele, a economia baseada em petróleo, gás e carvão sustenta cerca de US$ 50 trilhões em ativos entre infraestrutura, produção e consumo, mas enfrenta uma disrupção acelerada, impulsionada por tecnologias mais eficientes.
A substituição ocorre porque o novo sistema energético é mais simples e barato, avalia Campanale. Enquanto o modelo fóssil depende de cadeias longas que envolvem extração, transporte, refino e queima — muitas vezes em partes distintas do planeta —, as energias renováveis podem ser geradas em menos etapas e mais próximas ao local de consumo.
Esse movimento já se reflete nos mercados. Segundo ele, a demanda global por petróleo atingiu seu pico entre 2019 e 2020, e projeções indicam queda de até 8 milhões de barris por dia até 2030, o que tende a pressionar preços e reduzir a rentabilidade do setor.
“Se todos trocarem seus carros com motor a combustão interna por veículos elétricos, poderemos mudar todo o sistema. Na Europa, as vendas de veículos elétricos ultrapassaram as de carros a gasolina pela primeira vez no ano passado, e isso não vai parar. Pelo contrário, está se acelerando, com profundas consequências para o sistema de combustíveis fósseis”, afirmou o economista.
Na prática, isso significa que bilhões de dólares investidos em infraestrutura fóssil correm o risco de se tornarem ativos encalhados — cenário que ajuda a explicar a resistência de setores econômicos à transição.
Zero emissão já é realidade, diz cientista chinês
Na mesma linha, o pesquisador Pan Jiahua, da Academia Chinesa de Ciências Sociais, apresentou evidências de que a transição já está em curso, especialmente na China. A expansão da energia solar, combinada com baterias e veículos elétricos, já adiciona capacidade equivalente ao consumo total de países inteiros.
Para ele, o debate precisa ir além da ideia de “descarbonização” gradual ou da “economia de baixo carbono”, mas ainda baseada em fósseis, e assumir a necessidade de reconstrução completa dos sistemas produtivos. “Uma economia de zero emissões não é um objetivo distante — já está se tornando uma realidade”, afirmou.
Eu não gosto do termo descarbonização. É preciso haver carbono para descarbonizar, e nunca se consegue eliminar o carbono completamente.
Pan Jiahua, da Academia Chinesa de Ciências Sociais
Apesar de reconhecer desafios, como a demanda por minerais críticos, argumentou que esses recursos são recicláveis, ao contrário dos combustíveis fósseis, em que as emissões são irreversíveis.
“Na China, visitei várias fábricas de reciclagem de baterias de lítio, onde 97% do lítio é recuperável. Acredito que o mesmo se aplica à reciclagem de painéis solares”, afirmou.
Ciência recomenda fim dos contratos de petróleo
No documento preliminar apresentado no ciclo acadêmico, os cientistas defendem que a saída dos fósseis precisa ser conduzida com justiça social, garantindo proteção a trabalhadores e redistribuição dos custos e benefícios, especialmente entre países do Norte e do Sul global. O texto também destaca a necessidade de enfrentar os chamados “travamentos” estruturais, como subsídios, contratos e interesses políticos, que mantêm a dependência do petróleo, do gás e do carvão.
As recomendações incluem interromper novos projetos de combustíveis fósseis e a criação de mecanismos econômicos, como precificação de carbono, e a reorientação do sistema financeiro para reduzir riscos e ampliar investimentos em energia limpa.
Outro eixo relevante é o da governança global. Os pesquisadores defendem maior coordenação internacional, incluindo a possibilidade de um instrumento jurídico específico para regular a produção de combustíveis fósseis, além da revisão de mecanismos legais que hoje permitem que empresas processem Estados e atrasem políticas climáticas.
Por fim, o documento reforça que a transição energética depende de participação social efetiva, com inclusão de comunidades locais, povos indígenas e trabalhadores nos processos decisórios. A conclusão é direta: mais do que uma mudança tecnológica, a superação dos combustíveis fósseis exige reorganizar as bases econômicas e políticas que sustentam o modelo atual.
Esta reportagem foi produzida com o apoio do Global Greengrants Fund e da Climate and Land Use Alliance.



