Por Analice Ruas e Graziela Guedesa – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube

Em agosto de 1936, diante de mais de cem mil pessoas no Estádio Olímpico de Berlim, um jovem negro norte-americano transformou-se no protagonista involuntário de uma das maiores contradições do século XX.

Enquanto a Alemanha nazista utilizava os Jogos Olímpicos para apresentar ao mundo uma imagem de ordem, grandeza e superioridade racial, o velocista Jesse Owens atravessava a pista e desmontava, medalha após medalha, a narrativa que Adolf Hitler tentava vender ao planeta. Entre os dias 3 e 9 de agosto, Owens conquistou quatro medalhas de ouro, nos 100 metros, 200 metros, salto em distância e revezamento 4×100 metros, tornando-se o atleta mais vitorioso daqueles Jogos.

A presença de Owens em Berlim carregava um significado que ultrapassava o esporte. Desde 1933, o regime nazista implementava políticas de exclusão contra judeus e outros grupos considerados indesejáveis. O esporte também foi incorporado a esse projeto ideológico, transformando-se em uma ferramenta de propaganda do Estado.

Por isso, cada vitória de Owens representava mais do que um resultado esportivo. Sua imagem cruzando a linha de chegada colocava em xeque a narrativa racial construída pelo nazismo. O homem que a ideologia do regime considerava inferior era, naquele momento, o atleta mais admirado do mundo. Mas a ironia histórica não terminava ali.

Décadas depois, Owens lembraria que o maior desprezo não veio da Alemanha, mas dos Estados Unidos. Ao retornar para casa, não recebeu convite para a Casa Branca nem uma mensagem de congratulações do então presidente Franklin D. Roosevelt. O país que celebrava suas medalhas continuava segregando pessoas negras em seu próprio território.

Agora, os Estados Unidos se preparam para ocupar novamente o centro do palco esportivo global. A Copa do Mundo de 2026 acontece em território norte-americano, canadense e mexicano, enquanto o governo Donald Trump endurece políticas migratórias, amplia deportações e reforça o discurso de proteção das fronteiras. Os contextos históricos são diferentes, a América de hoje não é a Alemanha de Hitler, ainda assim, uma questão continua atravessando os dois momentos: quem tem o direito de pertencer?

Em 1936, o nazismo tentou definir quem era digno de representar uma nação. Em 2026, o debate reaparece sob outra forma, quando milhões de migrantes enfrentam barreiras cada vez maiores para entrar ou permanecer nos Estados Unidos. As preocupações não são apenas teóricas, organizações de direitos humanos e entidades ligadas ao esporte vêm alertando para os impactos que políticas migratórias mais rígidas podem ter durante a Copa do Mundo de 2026. O debate envolve desde a concessão de vistos para torcedores até a entrada de jornalistas, árbitros e representantes de delegações estrangeiras.

A discussão ganhou força à medida que os Estados Unidos ampliaram medidas de controle migratório e reforçaram o discurso de proteção das fronteiras. Para os críticos dessas políticas, existe uma contradição entre a proposta de um evento global, baseado na circulação de pessoas e culturas, e as dificuldades enfrentadas por parte daqueles que desejam participar dele.

A Copa do Mundo costuma celebrar a circulação de culturas, povos e identidades. Mas, fora dos estádios, a realidade nem sempre acompanha esse discurso. Enquanto torcedores de todo o planeta são convidados a participar da festa do futebol, políticas migratórias restritivas lembram que nem todos encontram os mesmos portões abertos. Talvez seja por isso que Jesse Owens continue tão atual.

Quando deixou Berlim com quatro medalhas de ouro, Owens ajudou a expor as contradições de um regime que utilizava o esporte como vitrine para o mundo. Quase noventa anos depois, a discussão já não é a mesma, mas a pergunta continua relevante: quais valores os países-sede da Copa de 2026 desejam transmitir, e quem corre o risco de ficar do lado de fora dessa narrativa?