Como a presença feminina redefine o futebol dentro e fora de campo
Episódios recentes mostram que elas transformam a forma de viver e contar o futebol
Por Janaina Coutinho – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube
Fim de jogo, emoções à flor da pele nas arquibancadas do MetLife Stadium, em Nova Jersey, nos Estados Unidos. Após o empate com Marrocos, a jornalista e apresentadora Fernanda Gentil, com mais de 15 anos de carreira no jornalismo esportivo, foi entrevistar o ex-jogador Romário. Ela questionou o craque sobre o resultado e recebeu um comentário incômodo durante a cobertura. O ex-jogador da Seleção Brasileira disse que, para pessoas que não entendiam de futebol como Gentil, o empate com Marrocos poderia deixar o Brasil com gosto de derrota.
Após o ocorrido, o craque fez um pronunciamento e pediu desculpas à jornalista. “Quando uma mulher propõe uma análise tática aprofundada, é comum tentarem empurrá-la para nichos específicos, sugerindo, por exemplo, que ela crie um blog de futebol feminino, como se o futebol masculino fosse território exclusivo dos homens”, afirmou Ana Thaís Matos, em depoimento ao SporTV.
A presença feminina no futebol carrega uma história de resistência, segundo a Agência Senado, entre 1941 e 1979, a prática do futebol por mulheres foi oficialmente proibida no Brasil, sob a justificativa de que o esporte era incompatível com sua natureza. Décadas depois, as mulheres não apenas ocupam os gramados, como também disputam espaço nas arquibancadas, nas redações e nas transmissões esportivas.
Segundo o Relatório Oficial da FIFA, a edição da Copa do Mundo Feminina de 2023 atingiu um recorde absoluto de 2 bilhões de espectadores globais. Esse número mais do que dobrou o alcance da edição de 2019, que foi de 993,5 milhões. O crescimento da visibilidade e dos patrocínios no futebol feminino consolida o esporte como uma carreira possível e sustentável, inspirando novas gerações.
Para além da narração mais sóbria adotada pelas jornalistas esportivas, a entrada de mulheres na mídia fez com que o formato de narrar e contar o futebol se reinventasse. A presença das mulheres na cobertura esportiva ampliou os temas considerados relevantes dentro do futebol, desta forma questões como racismo, violência de gênero, diversidade, maternidade de atletas e condições de trabalho passaram a ganhar mais espaço no ambiente esportivo, tradicionalmente concentrado apenas em resultados e desempenho.
Piadas e expressões antes normalizadas nas transmissões ao vivo são hoje repensadas para não propagar machismo e homofobia em rede nacional. Comentaristas e analistas táticas trouxeram um olhar focado em dados, posicionamento e estratégia, desbancando o antigo modelo de debate baseado apenas em polêmicas ou resenha informal. Mas isso acontece porque as jornalistas, muitas vezes, precisam desse olhar mais sóbrio para não serem descredibilizadas por colegas masculinos.
Hoje, ao narrar um jogo, precisa-se levar em conta que tudo que um homem sabe, a mulher precisa saber mais. E não só isso: o peso de uma fala feminina sempre será maior do que o de uma fala masculina. As mulheres também transformam a forma de viver o futebol. Por conta das revisões de comentários e atitudes desrespeitosas, os estádios e o ambiente futebolístico se tornaram um lugar mais seguro.
Coletivos de torcedoras criam redes de apoio nos estádios, combatendo o assédio e transformando as arquibancadas em um espaço mais seguro para famílias e minorias. É o caso do Movimento Alvinegras, coletivo de torcedoras do Corinthians criado em 2018. A pesquisa Women and Sports, divulgada pela IBOPE Repucom, revelou que o interesse do público feminino se igualou ao masculino no Brasil. Atualmente, 71% das mulheres conectadas se declaram fãs do campeonato, um crescimento de 22% em comparação aos números de 2014.
As mulheres ajudam a redefinir os debates e o destino do esporte. Elas transformam a maneira como o futebol é vivido, narrado e compreendido pelas novas gerações, a partir de suas experiências nas arquibancadas, nas redações, nos gramados e nos bastidores dos grandes eventos esportivos.



