Cholitas da Babilônia: indígenas andinas reimaginando a migração no Brasil
Um grupo de artistas andinas e indígenas em São Paulo transforma a migração em criatividade, ação política e identidade coletiva a partir da Casa das Cholitas
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NINJA
15 de abril de 2026
18:25
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Por Mijail Miranda
Preâmbulo
Natali, Tania, Cristina, Abi, Fernanda, Gabrieli, Lahayda, Milenka, Rio, Vanessa. Esta história precisa ser narrada no plural, a partir de uma identidade comum efervescente, que se constrói e se desfaz; que se reafirma e se questiona.
Em diferentes regiões dos Andes, falar no plural é falar a partir da comunidade, do encontro, do afeto e da solidariedade. E essas são algumas das chaves para entender como bate o coração das Cholitas da Babilônia em uma das maiores megalópolis do mundo.
1. Mães
Um dia decidiram reunir as suas mães.
“Nossas mães também deveriam estar aqui”, tinham comentado em alguma conversa.
O “aqui” é a Casa das Cholitas, um ponto de encontro comum para um grupo interdisciplinar de artistas, pensadoras e trabalhadoras de origem andina em São Paulo, Brasil.
O espaço funciona desde 2022 e, ao longo dos anos, se converteu em um nó cultural onde convergem diversas expressões artísticas, culturais, rituais e políticas.
Mas, como coletivo, as Cholitas da Babilônia haviam nascido antes. Exatamente em 2021, após uma intervenção artística e política na 34ª Bienal de São Paulo, o evento artístico mais importante do Hemisfério Sul e um dos mais antigos do mundo.
Foto: Felipe LopesFoto: Felipe LopesFoto: Felipe LopesIntervenção artística das Cholitas da Babilônia na Bienal de São Paulo 2021 Foto: Felipe Lopes
A Casa das Cholitas fica na zona norte da “Grande São Paulo”, a megalópolis brasileira onde vivem mais de 20 milhões de pessoas. Trata-se de uma das maiores conurbações do mundo, a mais populosa das Américas.
Segundo dados oficiais do Sistema Nacional Migratório (Sismigra), nos últimos 25 anos existem mais de 200 mil registros de bolivianos no Brasil. Oito em cada dez correspondem ao estado de São Paulo.
Fonte: Sismigra/Observatório das Migrações de São Paulo
Naquele encontro entre mães, um jantar pelo Dia das Mães, foram compartilhadas experiências migrantes. Trocaram-se histórias, risos, sonhos e dificuldades. Talvez também esperanças e lutas.
Graças a essa convivência, suas filhas compreenderam a origem da força que as reúne como comunidade.”Acho que essa é a força de onde vem tudo, das nossas mães”, diz Natali Mamani, integrante das Cholitas da Babilônia.
“E ver que estamos dando continuidade a essa força que elas nos ensinaram, para não desistir aqui e continuar sonhando este lugar. Esse sonho de ter um futuro melhor, de nos valorizar, de nos posicionar, de não nos calar. Acho que tudo isso vem delas.”
“Elas”: mulheres andinas, indígenas, trabalhadoras, que primeiro migraram do campo para as cidades e depois se deslocaram da Bolívia até o Brasil.
Na década de 1990, a proporção de migrantes homens era maior, mas nos anos recentes as mulheres representam praticamente metade da população boliviana no Brasil, segundo dados oficiais.
Fuente: Sismigra/Observatorio de Migraciones de Sao Paulo
Elas, apontam diversos estudos e publicações, “tendem a ser, com o tempo, mais requisitadas do que os homens como mão de obra (…) pois, além da costura (…), desempenham outras tarefas: cozinhar, limpar, ajudar e aprender o ofício no recinto (…) com uma sobrecarga de trabalho intensa e por momentos ininterrupta”.
2. Natali
A mãe de Natali é natural da comunidade de Santa Bárbara, nos Yungas de La Paz, uma região rural ao norte da sede do Governo boliviano. Ali começou seu percurso migrante: primeiro do seu pueblo para a cidade e depois emigrando até o Brasil.
Natali chegou a São Paulo com apenas quatro anos. “Minha mãe estava com minha irmãzinha na barriga”, lembra. Como muitas famílias bolivianas, sua única alternativa foi trabalhar em uma das oficinas que alimentam a indústria da costura e da moda.
Estimativas de 2013 indicavam que cerca de 10 mil “unidades produtivas” de costura em São Paulo eram sustentadas pela força de trabalho da comunidade boliviana.
As 15 primeiras categorias de ocupação que registram oficialmente as pessoas bolivianas no Brasil. Fonte: Sismigra/Observatório das Migrações de São Paulo
“Decorador, costureiro, alfaiate, modista, peleteiro, tapeceiro ou assemelhado”: pouco mais da metade dos registros bolivianos no Sismigra (2000–2025) se enquadram nessa categoria de ofício.
13% estão registrados como “Estudante”. Como Natali, que atualmente cursa um mestrado em Meios e Processos Audiovisuais na Universidade de São Paulo — a maior e mais importante instituição de ensino superior do Brasil e uma das melhores da Ibero-América.Lá deseja aprofundar uma exploração que já aparece em sua obra: cinema indígena feito e protagonizado por mulheres, videoarte e filme-ensaio. Seu primeiro filme, um curta-metragem documental chamado Thakhi, carrega essa marca: o suporte audiovisual como ferramenta de reflexão sobre uma identidade em trânsito, translocada entre La Paz e São Paulo, entre o rural e o urbano.
A família de Natali Mamani nos Yungas de La Paz. Fonte: Fotograma do documentário Thakhi
Mas os questionamentos sobre a própria identidade surgiram muito antes, quando — ainda criança — intuía que era “a outra”, “a estrangeira”, “a que não é desejável”.
No entanto, esclarece Natali, com o tempo descobriu que “o problema” não está em ser migrante, mas “na cor, na pele, no cabelo”, no corpo e na identidade indígena.
“Eu vejo minha migração a partir de La Paz. Em como a questão indígena me afeta lá. Primeiro aos meus pais e depois se transfere para mim, aqui no Brasil”, reflete Natali.
Natali Mamani em uma marcha pelo Dia dos Povos Migrantes em São Paulo
Por que nossos pais emigraram para a cidade na Bolívia? Por que não puderam viver no campo? O que acontece naquela sociedade para que os indígenas não possam continuar vivendo do trabalho no campo, para que os jovens precisem sair para a cidade em busca de trabalho?
Essas ideias e perguntas são comuns entre muitas das integrantes das Cholitas da Babilônia. Surgem, por exemplo, nas conversas de Natali com Tania Sayri, outra integrante do coletivo.
3. Tania
Uma das memórias mais bonitas da infância de Tania Sayri é de quando — recém-chegada a São Paulo — outras crianças como ela (de origem boliviana, com traços indígenas) a ajudaram a se comunicar em português com suas professoras e outros colegas de escola.
Tania Sayri também nasceu nos Yungas. Compartilha raízes com a mãe de Natali, mas viveu em El Alto — uma pujante cidade aimará a mais de 4 mil metros de altitude — até os oito anos.
Quando chegou a São Paulo, pouco depois da posse de Evo Morales como o primeiro presidente indígena da Bolívia, Tania não entendia nada de português.Tania diz que o processo de adaptação nos primeiros anos escolares no Brasil foi traumático. Passou de ser uma criança comunicativa e brincalhona em seu lugar de origem a não conseguir interagir com o novo entorno que lhe tocava assimilar.
A Casa das Cholitas com um novo mural em 2026. Foto: Acervo Cholitas da Babilonia
“Porque nós (referindo-se à sua família) não tínhamos condições financeiras para pagar um curso de português. E naquela época não havia projetos do Governo para que os imigrantes pudessem aprender português”, comenta.
Quando Tania chegou ao Brasil com sua família, vigorava o Estatuto do Estrangeiro de 1980. Essa norma foi elaborada sob a ditadura militar e se fundava na “ideia de segurança nacional”, com um viés mais persecutório em relação às pessoas migrantes.
Desde maio de 2017, está em vigor no Brasil a Lei de Migração. Essa norma se orienta por princípios como “o acesso igualitário e livre do migrante a serviços, programas, benefícios sociais, bens públicos, educação, assistência jurídica integral pública, trabalho, moradia, serviços bancários e seguridade social”.
Mas, apesar dos avanços normativos, segundo o relatório regional Laberintos de papel. Desigualdad y regularización migratoria en América del Sur (liderado pelo CELS e pela CAREF), ainda persistem estruturas discriminatórias e procedimentos burocráticos que tornam inacessível a integração e a regularização da população migrante “em termos geográficos, linguísticos e econômicos”.
Especialmente entre aquelas pessoas com “menos recursos materiais e menos habilidades ou conhecimentos para transitar em âmbitos burocráticos”.
Essas barreiras se aprofundam quando se soma uma dimensão que o relatório não chega a nomear: a identidade indígena. Para pessoas como Tania, o problema não se esgota nos papéis nem no idioma.
“As dificuldades vêm principalmente do (não saber o) idioma, ou da documentação”, sublinha Tania. “Mas também mais desse lugar subjetivo da identidade, das raízes culturais. O indígena ressoa bastante. Então, nós sempre encontramos uma forma de cuidar disso”, acrescenta.
Tania Sayri junto a algumas de suas obras. Foto: via Programação Cultural na Feira Coimbra
Tania é artista visual e também tem formação em artes plásticas. Em 2025 concluiu sua graduação na Universidade Estadual de Campinas. A partir da pesquisa, mas sobretudo de sua exploração artística, ela investiga a linguagem dos tecidos e têxteis andinos.
Quando diz “nós”, Tania se refere às Cholitas da Babilônia. Quando diz “cuidar disso”, refere-se a uma construção política que se tece, como os têxteis que tanto lhe interessam, a partir de fios de bem comum, afeto e reivindicação de uma identidade que resiste ao apagamento.
4. Cristina
Ao contrário de Natali e Tania, Cristina Mena emigrou na juventude. Chegou ao Brasil há cerca de dez anos.
“Mena” é o sobrenome de seu registro oficial, mas ela se apresenta com o sobrenome Llumipanta. Cristina Llumipanta. Dessa forma, reivindica a origem indígena de seu avô, pertencente à nação equatoriana Kitu Kara, originária da serra norte dos Andes equatorianos.
A migração na experiência de Cristina também é um impulso vital. Com poucos meses de vida, migrou de Quito para uma região rural. Já perto da adolescência, retornou à capital equatoriana. Depois, por motivações pessoais e em busca de oportunidades educacionais, decidiu deixar seu país natal.
Cristina Llumipanta (esq.) e Rio Inahuazo (dir.), integrantes das Cholitas da Babilônia no ATL 2025, em Brasília. Foto: Acervo do coletivo
Os dados do Sismigra (2000 a 2025) registram 16 mil entradas de nacionalidade equatoriana, metade delas no estado de São Paulo. Muitos deles, como ocorre também com a comunidade boliviana, se valem do Acordo de Residência para Nacionais dos Estados Parte do Mercosul e Associados para obter residência.
Mas, como explica Cristina no que diz respeito à burocracia, “é muito complicado ser migrante”: após uma década vivendo em território brasileiro, ela ainda não consegue acessar uma residência permanente.
“As informações sempre chegam com atraso, sempre são complicadas. Sempre te dizem uma coisa num lugar e depois te dizem algo diferente em outro”, lamenta Cristina.
Esse emaranhado burocrático se explica porque, segundo relatório liderado pelo CELS e pela CAREF, “o Brasil nunca teve uma autoridade migratória especializada”, nem mesmo após a aprovação da Lei de Migração de 2017.
Nesse contexto legal, é a Polícia Federal a responsável por iniciar os trâmites de permanência, mas “como suas delegacias são descentralizadas, não há procedimentos nem critérios comuns de atuação. Além disso, verifica-se uma alta rotatividade de servidores e funcionários que dificulta sua capacitação e aperfeiçoamento”.
Para piorar, ressalta o mesmo relatório, “a Polícia Federal foi apontada inúmeras vezes por tratamentos discriminatórios e criminalizadores“.
Essas condições obrigaram Cristina, que então vivia em outro estado, a se deslocar para São Paulo. Pouco tempo depois de se estabelecer ali, ela e seu companheiro fundaram um coletivo audiovisual chamado Quitus.
Desde então, seus esforços se orientaram a consolidar uma carreira como cineasta e videomaker. Mas com uma abordagem distinta das lógicas hierárquicas e coloniais das produções convencionais.
A cineasta e videomaker Cristina Llumipanta. Foto: Acervo Cholitas da Babilônia
“Pensamos (a linguagem audiovisual) para desconstruir e usar como uma ferramenta que avance nesse processo contracolonial. E que possamos nos autorrepresentar, que possamos ter autonomia, que possamos ter controle sobre o que dizemos e como o dizemos, e que não seja distorcido, que não esteja cheio de preconceitos.”
Esse tipo de reflexões, a partir da arte e da política, a aproximou muito rapidamente das Cholitas da Babilônia. Um evento em particular ressignificou seu vínculo com o coletivo.
5. Outra exploração
“Quando você vê o vídeo dessa primeira exposição, são puramente pessoas brancas, fazendo toda uma vernissage, como se fossem obras de arte chic, tomando seu champanhe, comendo, rindo”, relata Natali.A obra de Sergio Carvalho — que além de funcionário público também atua como fotodocumentarista — se apresenta como uma “denúncia” das condições de trabalho “análogas à escravidão” que enfrenta a população andina na região metropolitana de São Paulo.
Mas as Cholitas da Babilônia discordam, especialmente aquelas que cresceram nessas oficinas ou trabalharam nelas. Para elas, esse tipo de mostra é apenas uma “exploração da imagem” da comunidade migrante.
Uma exploração que se soma àquela já vivenciada por boa parte da população andina em seus espaços de trabalho.
Pesquisas e reportagens da imprensa, há décadas, apontam as condições laborais da comunidade boliviana no Brasil (jornadas de mais de 15 horas, golpes, coerção e confinamentos prolongados). Mas poucas vezes se aprofunda nas intrincadas cadeias de subcontratação que conectam essas condições “análogas à escravidão” com marcas comerciais ou com os mercados regionais e transnacionais de moda.
Essa dinâmica de representação, como denunciaram as Cholitas da Babilônia à época, perpetua estigmas e preconceitos contra os migrantes bolivianos e andinos no imaginário brasileiro.
“São fotos em preto e branco. Com pessoas no momento em que a fiscalização chegou à oficina (ateliê), então a galera está como se não quisesse que tirassem fotos, está assustada. Você vê o susto nos gestos”, descreve Natali.
“Alguém tira fotos de uma situação de violência e depois publica e transforma em arte. Isso não faz sentido”, conclui.
Após a primeira exposição e o anúncio de uma segunda mostra, as Cholitas da Babilônia tentaram participar do evento. Dialogaram com a organização, colocando a necessidade de incluir perspectivas da própria comunidade migrante, para problematizar em primeira pessoa como são representadas. Mas seus esforços não surtiram efeito.
Então, tomaram o caminho da ação direta.
6. “Nossa dor não é arte”
As Cholitas da Babilônia se definem como um coletivo artístico e político, explica Tania, tomando a criatividade como ferramenta de incidência social. Talvez a intervenção na inauguração de Oficina do Suor seja uma das maiores expressões dessa vocação transformadora.
“Fomos protestar e jogamos tinta (vermelha) nas fotografias. E as manchamos porque eram imagens violentas (…) Nós, como indígenas ou migrantes, que estamos nas oficinas, não estamos assim porque queremos. Há um grande problema estrutural”, aponta Tania.
Cristina chegou à intervenção da segunda exposição de Oficina do Suor quando as coisas já estavam tensas. O público da mostra fotográfica vaiava o protesto das Cholitas da Babilônia, argumentando que elas “não entendiam de arte”, e a Guarda Civil Metropolitana usava violência para retirar as manifestantes.
“Era um espaço muito classista, muito elitista em que as pessoas não estavam ouvindo”, lembra Cristina. “Ou seja, como podem falar da comunidade sem que a comunidade esteja ali?”.
Mas a tensão havia se gerado muito antes. Segundo relatou o portal Bolivia Cultural, houve diversas tentativas de mediação entre o fotógrafo, a institucionalidade que o respaldava e o coletivo migrante. Mas as “divergências na abordagem do tema” emperraram a conciliação.
O impacto da ação artística e política foi tal que chegou à Folha de S.Paulo, um dos veículos mais importantes do Brasil, o segundo de maior circulação no país.
Mas ainda mais importante para as Cholitas da Babilônia foi o convite ao Portal Bolivia News de Gastón Conde, um dos streamers mais populares entre a comunidade boliviana no Brasil.
“Na próxima, nos chamem porque queremos ir também”, foi uma das mensagens que mais emocionou Natali durante aquela transmissão.
Sua intervenção havia provocado uma importante repercussão midiática, mas também deixava entrever a possibilidade de uma mobilização migrante andina, para além de manifestações culturais ou festivas.
7. Casa das Cholitas: encontro, cuidado e afeto
Cristina, que então ainda não fazia parte do coletivo, registrou muitas das imagens do documentário-manifesto Nossa dor não é arte, uma resposta artística e política àquela mostra fotográfica.
Desde então, seu vínculo com as Cholitas da Babilônia foi se estreitando, até que se tornou, “oficialmente”, uma delas.
“Cholitas é um lugar também de afeto, de convivência”, diz Cristina.
“Quando você migra como uma pessoa racializada, uma pessoa indígena, ou migra em um contexto de vulnerabilidade de algum tipo, é muito complicado encontrar um lugar em que se sinta à vontade, em que se sinta bem”, acrescenta.
As palavras de Cristina se materializam na Casa das Cholitas, um espaço que oferece acolhimento, carinho, solidariedade e senso de pertencimento. “Detalhes” que a institucionalidade é incapaz de oferecer.
“Sempre senti que lá (tenho) uma segunda casa”, agradece.
A Casa das Cholitas é um espaço autogerido. Os ambientes em que funciona foram cedidos e são cuidados por Fernanda Quechua e Felipe Lopes.
Fernanda é uma das fundadoras das Cholitas da Babilônia e vive no Brasil desde 2012.
Nos últimos tempos, a Casa das Cholitas acolhe cineclubes, festas, exibições de documentários, performances e oficinas de todo tipo para crianças e jovens. Sua agenda inclui também outros coletivos de “indígenas de cidade” que não dispõem de um lugar para promover suas atividades.
Projeção em uma sessão de cineclube na Casa das Cholitas. Foto: Acervo Cholitas da Babilonia
É assim que esse espaço fortalece um diálogo “apagado” das discussões sobre migração: a questão indígena, uma identidade que vai além de uma territorialidade concreta ou de manifestações culturais compartilhadas.
8. Indígenas transfronteiriças
Além dos fortes laços que articulam as atuais integrantes das Cholitas da Babilônia (dez no total), a maioria delas também se mobiliza por meio de outros movimentos e organizações.
Por exemplo, muitas delas coincidem na Articulação Andina de Indígenas em Mobilidade (AYNI). Por meio dessa articulação, participaram do Acampamento Terra Livre, “um dos encontros de povos indígenas mais grandes do Brasil”, explica Tania.
Neste ano, como em edições anteriores, iniciaram uma arrecadação solidária para garantir sua participação. O objetivo é cobrir os custos de transporte e alimentação durante os cinco dias do acampamento em Brasília, a mais de mil quilômetros de São Paulo.
Fonte: IBGE
Segundo o mais recente censo populacional do Brasil (2022), apenas 0,83% da população se identifica como indígena. Embora o percentual seja mínimo, no contexto brasileiro equivale a quase 1,7 milhão de pessoas — uma quantidade similar à dos habitantes de El Alto e La Paz, as cidades mais populosas da Bolívia (depois de Santa Cruz de la Sierra).
Mas os números do Censo, dizem as Cholitas da Babilônia, “ainda não coincidem com a realidade”. Isso dificulta que se impulsionem políticas públicas para garantir o reconhecimento da identidade indígena andina transfronteiriça por parte do Estado brasileiro.
Os dados oficiais falam em 2.434 aimarás e 1.164 quéchuas, sob a categoria de “outras etnias das Américas”. No entanto, estimativas extraoficiais do consulado boliviano calculam que há mais de 350.000 bolivianos no Brasil (2018). Boa parte dessa imigração provém de territórios dos vales e das terras altas da Bolívia, regiões e localidades de raízes aimarás e quéchuas.
Ou seja, os números do censo não batem — há uma invisibilização sistemática de populações indígenas em mobilidade transfronteiriça. Pessoas que o Estado brasileiro registra por sua nacionalidade — boliviana, equatoriana, peruana — mas não por sua identidade.
Esses cenários são “problemáticos” e desatendidos pelas políticas migratórias dos Estados na América Latina, também além do Brasil. Um artigo publicado pela Dejusticia, centrado na realidade colombiana, denuncia que, apesar de a mobilidade entre diferentes territórios ser uma prática cultural de grande parte dos povos indígenas, muitos deles se enfrentam com “a impossibilidade prática para acessar a nacionalidade por naturalização, devido à exigência de requisitos impossíveis de alcançar”.
“Impõem-lhes condições de ignomínia em que se registraram casos de apatridia, indocumentação, discriminação por razão étnica e nacional, falta de acesso a serviços de saúde, educação, território, entre outros”, complementa Sebastián Hurtado, autor da nota.
Uma situação que com muita facilidade poderia se transpor a qualquer outro país da América Latina. No caso específico do Brasil, um relatório da Rede Jesuíta com Migrantes LAC (2023) evidencia que “é um dos países que não reconhece os povos que ancestralmente transcendem as fronteiras estabelecidas pelos países”.
Essa falta de reconhecimento fica manifesta no caso da nação indígena Warao, de origem venezuelana. Calcula-se que pelo menos 7 mil pessoas desse povo originário “encontram inúmeras dificuldades e uma grande falta de respostas e políticas públicas duradouras”. Entre elas, o acesso a “uma abordagem culturalmente adequada” que lhes confira os recursos necessários para se integrar à sociedade brasileira.
9. As lutas pendentes
Mas essas discussões também deixam de lado, por exemplo, as pessoas indígenas urbanas. Em meio a esse panorama, as Cholitas da Babilônia aprofundam ainda mais o debate em torno do “apagamento” das identidades indígenas em contextos de migração.
“O Brasil não reconhece muito os indígenas que vêm de outros países. Então, nos veem apenas pela nacionalidade. Então, perante o Estado brasileiro, somos apenas bolivianos ou peruanos”, reclama Tania.
Participação das Cholitas da Babilonia no ATL 2025, em Brasília. Fotos: Acervo Cholitas da Babilonia
Cristina trabalha agora em seu filme Sapi (raiz, em quíchua) e afirma que essa reivindicação identitária é fundamental em sua nova obra: “não importa que aqui você seja brasileiro ou que tenha vindo de outro território. Se você é indígena, é indígena em qualquer lugar. E as políticas públicas pensadas para indígenas deveriam se aplicar igualmente”.
Em 2025, durante o último dia da conferência da Articulação Nacional de Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade, um grupo de indígenas andinas foi convidado à cerimônia de encerramento. Lá participaram com os símbolos e a ritualidade andina, conforme conta Rio Inahuazo, também integrante das Cholitas da Babilônia.
Naquela noite, relata Rio, as parentes brasileiras aprovaram uma moção de apoio e reconhecimento às identidades indígenas andinas em território brasileiro. Uma declaração que as acolhe como suas iguais.
Essa conquista política e simbólica, fora dos limites do Estado, coexiste em reciprocidade com as agendas que alimentam o coração das Cholitas da Babilônia.
“Falar que você é uma pessoa indígena no Brasil também é se posicionar a favor dos indígenas no Brasil, porque é onde estamos. Por isso, como coletivo Cholitas, sempre acompanhamos a luta indígena do Brasil. Se estamos aqui, também temos que lutar ao seu lado”, conclui Natali, com a mesma força que as mães das Cholitas trouxeram dos Andes.
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