Valeria Lima (Foto Mariana de Moraes / Arte: @edjuoficial)

“Tudo é político também, tudo se constrói socialmente, tudo são escritas” Valeria Lima

Valeria Lima é uma aquariana, preta e sapatão. Intelectual negra, formada  em Letras Português – Inglês, tradutora, mestranda da UFRJ no programa de Pós Graduação em Linguística aplicada. Filha única e poeta que nasceu em 1975 na Tijuca-RJ.

Passei um início de noite conversando por Whatsapp (por causa do isolamento social) com essa sapatona maravilhosa! Falamos sobre a escrita, poesia e literatura serem atos revolucionários de denúncia e acolhimento para mulheres negras e lésbicas! Confira a entrevista com ela:

Ana Claudino: Como você enxerga o refúgio que as lésbicas negras acabam procurando na escrita, na literatura, nas zines, nos lambes… Como forma de resistência até hoje.

Valeria Lima: Buscar a escrita como refúgio, historicamente tem sido coisa de mulher. O acesso à educação, durante muito tempo tem sido historicamente negado às mulheres e de modo geral às pessoas negras. O acesso de pessoas negras à universidade é um dado muito recente da nossa história e é importante pensar como o gênero afeta isso. Falar da minha própria história é falar de muitas histórias semelhantes. Eu tive uma bisavó analfabeta, muito inteligente mas analfabeta porque o direito da escrita e da leitura foi negado a ela na infância, uma avó e mãe com pouca escolaridade. Minha mãe foi uma das intelectuais mais brilhantes que já conheci na vida, a mulher que me formou para ser a intelectual que eu sou, me sinto muito herdeira dela em muito do que eu falo, produzo e penso. Minha mãe só foi ter o certificado de conclusão do ensino médio quando já era adulta! Ela era uma mulher de muita cultura geral mas de pouca escolaridade formal.

Hoje estou aqui mestranda! Um atravessamento de raça e gênero que faz com que nossas intelectualidades muitas vezes ainda sejam invisíveis.

 “A escrita como refúgio ser coisa de mulher” Valeria Lima

Valeria Lima: A nossa característica, não estou recorrendo a nenhum essencialismo, mas historicamente, nós mulheres temos recorrido às histórias contadas de boca a ouvido e a escrita feminina tem muito isso, mesmo com todos os atravessamentos as escritas femininas guardam essa característica do desabafo, do refúgio mesmo. Então da mesma forma que na adolescência existe a escrita no diário, as nossas escritas tem muito da questão do desabafo, da memória, da reinvenção porque ser mulher numa sociedade estruturada pelo machismo e ser uma mulher negra numa sociedade estruturada pelo racismo, é buscar frestas para sobreviver. E o movimento de mulheres negras fala muito do bem viver, então considerando a escrita no sentido amplo, a escrita para nós sempre foi esse momento de cura, de autocuidado e de tomar contato com a nossa subjetividade. Encontrar nessa escrita caminhos de fuga, encontro com outras histórias que podem ser muito semelhantes ou diferentes. 

“Aquela história também é nossa, ela dialoga com a gente’’, Valeria Lima

Gravura feita por @_indiatattoo

Valeria Lima: O contato com essas escritas de mulheres negras e de lésbicas negras traz pra gente essa característica ancestral, os segredos de mulheres, das coisas que a gente diz entre nós, das coisas que a gente nem quer que todo  mundo ouça, ou até mesmo as coisas que a gente quer que escutem mas do nosso ponto de vista, rompendo estereótipos. 

Ana Claudino: Poesia não é luxo, é revolução! 

Valeria Lima: A poesia como forma de autoexpressão também é um autocuidado, ela nos permitiu a sobrevivência como povo. Grada Kilomba fala sobre escrever como um ato de descolonização, no momento em que a gente escreve como pessoas negras,LGBT’S, mulheres, a gente coloca a nossa subjetividade ali. Quando eu falo de colocar a nossa subjetividade, estou falando de várias escritas possíveis. Falo de poesia e de outras escritas literárias. Posso falar de uma escrita acadêmica, por exemplo, como pesquisadora trabalho a questão da imagem e representação das mulheres negras e como o movimento de mulheres negras traçou uma resistência contra  políticas reprodutivas eugenistas. Isso também é uma rota de fuga da opressão, isso é resgate histórico! É uma batalha também. Assim como outras formas de expressão artística, tudo isso é o resgate de prática de promoção do bem viver ancestral. 

Valeria Lima: A Conceição Evaristo diz que para a mulher negra escrever e publicar é um ato político.  Nós acabamos não nos vendo nos espaços das grandes editoras. Existe um processo de acanhamento porque nós as vezes por causa de um processo sistêmico onde não vemos, acabamos acreditando que esses espaços das publicações não são para nós.

Valeria Lima: São diferentes escritas que nos compõem e todas tem o seu lugar também. Na Coleção Feminismos Plurais da Djamila Ribeiro, nós temos várias escritoras e escritores negros, travando uma batalha epistêmica contra a invisibilidade epistemológica que vem nos atravessando há muito tempo.

“Hoje nós vivendo em um momento onde podemos ir para essa disputa em vários lugares” Valeria Lima

Valeria Lima:O nosso movimento precisa ser: trazer visibilidade para as vozes que estão na periferia e estão produzindo artes, são potentes. Historicamente, o nosso povo tem produzido arte, conhecimento e resistência. As mulheres lésbicas negras tem produzido tudo isso. É a grande invenção do povo preto na diáspora. 

“Nós estamos num tempo onde mais intelectuais negras e lésbicas estão visíveis! 

É o momento onde precisamos pegar o megafone e amplificar essas vozes” Valeria Lima 

Arte de @edjuoficial

Ana Claudino: Em Junho tivemos o mês do Orgulho LGBTQI+ e agora em Julho temos o dia da mulher negra, latina, americana e caribenha. As múltiplas identidades atravessam os corpos das mulheres negras e lésbicas….

Valeria Lima: É impossível pensar nessas sequências de meses sem falar em Audre Lorde: Na comunidade negra ela é lésbica e na comunidade lésbica ela é negra.

“Ser negra e ser lésbica é a gente lutar contra a invisibilidade em várias níveis. É a gente lutar com vários processos de opressão, solidão afetiva , solidão epistêmica. A gente não ter muitas vezes um céu de representações para gente mirar nas nossas noites.” Valeria Lima

Valeria Lima:As vivências negras são múltiplas, preto não é tudo a mesma coisa. O racismo coloca a gente nesse lugar, como se nossas vivências fossem todas iguais. As pessoas nos atribuem muita das vezes narrativas que não nos pertencem, antes mesmo de nós falarmos algo. Quando uma mulher negra ela é estereotipada de alguma forma, ela é colocada nesse lugar, é uma invisibilidade porque o racismo é uma produção de apagamento. Produz invisibilidade sobre o que nos difere também, é como se tivéssemos que escolher entre ser negra ou lésbica. A normatividade nos coloca uma série de narrativas que não são nossas como a heterossexualidade e a branquitude. 

“Precisamos pensar que existem diversas lesbianidades negras. Muitas lésbicas negras são mães, por exemplo.” Valeria Lima

Valeria Lima: A heterossexualidade compulsória impacta de forma intensa as mulheres negras. Uma mulher negra lésbica disse uma vez que se não tivesse encarado o racismo tão cedo na vida, talvez ela tivesse se assumido lésbica mais cedo. 

“Talvez eu tivesse me assumido mais cedo se eu não tivesse lutado de forma tão encarniçada contra o racismo na minha adolescência” Valeria Lima

Valeria Lima: Precisamos pensar na interseção entre raça e classe, muita das nossas são pobres e estão na informalidade. Muitas ainda não estão na academia. São outras discussões, são diversas demandas que são diferentes das nossas. Precisamos pensar nessas mulheres lésbicas que não são um bolo só, que estão em todos os lugares, que estão no mercado informal, no ativismo, na política, na cultura. Cada vivência dessa vai trazer novas demandas, agregando significados também. É importante que essas vivências todas sejam visibilizadas e atendidas. 

Foto: acervo pessoal

Essa foi a minha conversa com a Val! Leiam, escutem e valorizem intelectuais negras e lésbicas! Até a próxima!

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