A Seleção Brasileira evoluiu, mas como sabemos disso?
Entre dados, percepção e confiança, a evolução da equipe também acontece na cabeça de quem torce
Por Paula Cunha – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube
“A Seleção evoluiu?”, esse foi meu primeiro pensamento quando acabou o jogo entre Brasil e Escócia. Mas, talvez, a evolução de uma seleção aconteça em etapas: primeiro em campo e depois na cabeça de quem torce.
Bruno Guimarães é o líder de assistências da equipe brasileira na Copa do Mundo de 2026. Três passes para gol, dois contra Escócia e um contra Marrocos. “Talento sem movimento não é nada”, disse ele mesmo em entrevista. Os gols foram fruto da pressão, ou seja, um quarto dos gols brasileiros nasceu da pressão em cima do outro time.
O Brasil marcou bem a Escócia sem deixar a bola muito tempo com eles, o que limitou o tempo de ação do adversário. Rayan foi decisivo no primeiro gol, quando pressionou e roubou a bola dos escoceses, passando para Vini Jr. driblar o goleiro e fazer o gol que abriu o placar. Até Carlo Ancelotti sorriu quando disse na coletiva: “Podemos ser um pouco mais rápidos quando temos o controle.”
Quando um time evolui, muda também a maneira como a torcida vive a competição. O jogo passa mais rápido, os minutos finais não são apenas sofrimento e viram expectativa. Começamos a esperar o próximo jogo com um pouco menos de medo e mais curiosidade. Alguns deixam de discutir apenas quem deveria sair do time e passam a imaginar até onde ele pode chegar.
Nós, seres humanos, tendemos a perceber e valorizar mais as informações que reforçam aquilo em que já acreditamos. Nós vimos o Brasil melhor contra a Escócia e as estatísticas confirmaram isso, logo, evoluímos, não é? A confiança é contagiosa. Se um erro pode fazer um jogador desaparecer no jogo, quando ele joga com mais ousadia e é mais acionado por seus companheiros, se arrisca mais, o torcedor enxerga isso e tem a expectativa de que dê certo.
Mas quanto tempo dura essa evolução?
Antes do jogo contra o Japão, eu só pensava que a Seleção Brasileira estaria diante de um time rápido e isso seria um problema. No começo da partida, fiquei muito nervosa. O Brasil jogava mal, sofria com a marcação japonesa e dava espaço para os adversários jogarem. Contra a Escócia, o duelo havia sido mais leve, mas, diante dos japoneses, começamos perdendo. Quem não sabe como os brasileiros são emocionais e se abalam se já começam levando gol?
Passei parte do jogo fazendo café na cozinha e foi de lá que comemorei nosso primeiro gol, marcado por Casemiro, no início do segundo tempo. O meio-campo ficou mais rápido com a entrada do Endrick no lugar de Paquetá. Rayan jogava bem e participou da construção do gol final do Brasil, passando a bola para Bruno Guimarães, que deu sequência na jogada com passe para Gabriel Martinelli. Aquela foi a quarta assistência do meio-campista em quatro jogos, assumindo a liderança da equipe. A série terminou com um gol de Martinelli, que garantiu a virada brasileira.
As pessoas estão felizes, porque o Brasil ganhou de virada. Esse foi o jogo que eu mais ouvi comemoração no bairro: gritos, cornetas e gente celebrando juntas. E, além da classificação às oitavas de final, o feito entrou para a história. A última virada da Seleção Brasileira em mata-mata de Copas do Mundo tinha sido em 2002, quando o Brasil superou a Ingraterra por 2 a 1. Há 24 anos, no ano do penta.
A jogada decisiva pode não ter tido beleza, mas teve resiliência. O Brasil jogou como coletivo. Evoluiu o coletivo. Sob comando de um técnico estrategista, o time virou o jogo, mesmo inseguro.
Ancelotti apostou em Martinelli. E, como afirmou o colunista Thiago Arantes, do UOL, o treinador foi o único que viu no jovem “potencial para jogar numa posição que tem requisitos totalmente diferentes da ponta, onde se acostumou a atuar . O técnico enxergou nele uma capacidade de atacar espaços, pressionar sem a bola e chegar à área” Nosso técnico italiano, pelo jeito, é visionário.
O trabalho rendeu destaque após a partida. A jornalista Renata Mendonça disse em seu Instagram: “Para ganhar a Copa, é preciso ter um técnico que saiba ganhar jogos difíceis, e isso ele sabe muito bem”. Arnaldo Ribeiro foi além: “Mas a estrela do Carletto brilha, né? Ele tem sorte. Mais sorte que juízo até agora nessa Copa do Mundo. Muito mais sorte que juízo.” Para o site The Athletic, a última segunda-feira (29) foi o melhor dia da Copa do Mundo. Endrick foi chamado de “fator Ancelotti” pelo Opta Analyst.
Se Ancelotti é um gênio, se sabe muito o que faz, se o que teve é sorte, o que importa é que deu certo. E, além do trabalho técnico, em campo, os jogadores demonstraram força mental para uma reação.
A Seleção evoluiu? Eu acho que sim, mas não só porque temos um craque, um líder de assistências e um técnico com cartas na manga. Ela evoluiu, porque mudou a confiança de quem joga e a expectativa de quem torce. Talvez seja por isso que a pergunta nunca possa ser respondida apenas com estatísticas. A maior prova de que a Seleção Brasileira evoluiu está nas TVs ligadas outra vez, nos bares cheios, nas pessoas que juravam que não assistiriam mais nada e, agora, acompanham todos os jogos. Porque uma seleção pode evoluir em campo, mas só convence quando faz o torcedor voltar a acreditar.



