Tudo começou em uma manhã ensolarada e de céu azul na capital gaúcha. Na segunda-feira (29), mais de 300 pessoas participaram de uma plenária promovida pela Comissão Especial de Cultura da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul para falar sobre o Sistema Estadual de Cultura. Foi um momento para ouvir a população sobre o tema e reunir agentes culturais, gestores públicos, representantes de Pontos e Pontões de Cultura, pesquisadores, artistas e integrantes de diferentes movimentos sociais.

“Estamos vivendo um momento histórico para a cultura brasileira, com a ampliação do investimento por meio da Lei Rouanet, da Lei Paulo Gustavo e da Política Nacional Aldir Blanc. Mas, para que esses recursos se transformem em políticas públicas permanentes, é fundamental fortalecer o Sistema Nacional de Cultura. É essa lógica sistêmica que vai permitir consolidar um verdadeiro SUS da Cultura e garantir que os municípios tenham estrutura para desenvolver políticas culturais de forma contínua”, afirmou o diretor do Sistema Nacional de Cultura, Junior Afro.

O Plenarinho da Assembleia Legislativa do Estado ficou lotado. Cadeiras, corredores e demais espaços foram ocupados por um público diverso, representando a pluralidade cultural do Rio Grande do Sul. Estiveram presentes representantes de povos indígenas, comunidades quilombolas, povos de terreiro, blocos e escolas de carnaval, além de agentes territoriais de cultura, lideranças comunitárias e integrantes da rede Cultura Viva. O evento terminou com um cortejo até a frente do Palácio Piratini.

Foto: Marina Z. de Albuquerque

Centro Histórico-Cultural Santa Casa ocupado pelas culturas populares

Já no dia 30, foi a vez de intelectuais, ativistas e agentes culturais debaterem temas como comunicação e cultura, a centralidade da cultura afro-brasileira na sociedade, a potência das periferias e o desenvolvimento social. Importantes nomes estiveram presentes, como Olívio Dutra, Renato Freitas, Hilton Cobra e Anapuáka Tupinambá.

O evento foi realizado no Centro Histórico-Cultural da Santa Casa e iniciou com apresentações culturais, como as do grupo Odomodê e da Família Afrosul, celebrando a identidade e o axé da cultura negra. A abertura institucional contou com a presença e as falas de Júnior Afro, diretor do Sistema Nacional de Cultura do Ministério da Cultura; Patrícia Affonso, coordenadora do Escritório Estadual do MinC no RS; Denise Flores, do Comitê de Cultura no RS; Mari Martinez, da Comissão Especial de Cultura da Assembleia Legislativa do RS; Denise Viana Pereira, diretora do Centro Histórico-Cultural Santa Casa; Virgínia Borges, da Comissão da Política Nacional Cultura Viva; e Pedro Vasconcellos, gestor e produtor cultural da Fundação Delfim Mendes da Silveira, da UFPEL.

Abrindo a programação de debates do segundo dia, o painel sobre Comunicação e Cultura debateu a disputa de narrativas, o papel da mídia independente (como a Mídia Ninja e a Rádio Yandê) e a necessidade urgente de uma política de Estado para a soberania digital e a regulamentação de plataformas internacionais. No painel, convidados como Breno Altman, do Opera Mundi, Anapuáka Tupinambá, da Rádio Yandê, e Paulo Zé Barcelos, representando a Mídia Ninja, abordaram como iniciativas disruptivas em comunicação surgiram a partir de momentos de pressão e da falta de visibilidade; uma mídia na qual se possam defender princípios.

Foto: Marina Z. de Albuquerque

Paulo Zé Barcelos apontou como a Mídia Ninja cresceu durante as manifestações de 2013 e destacou a importância das mídias alternativas nos processos democráticos. Já Anapuáka Tupinambá trouxe a importância de ser um “bom ancestral” hoje, pensando nas marcas que deixamos para a próxima geração. Anapuáka destacou a necessidade de mudar a narrativa sobre os povos indígenas nas mídias e na sociedade e explicou que o conceito de etnomídia indígena é fundamentado na diversidade cultural e na forma social, política, cultural e econômica de cada povo. “Se a gente pensar que hoje no Brasil temos mais de 390 povos indígenas, nós temos mais de 390 formas comunicacionais”, ponderou.

Breno Altman destacou que a luta por uma informação contra-hegemônica é uma luta guerrilheira. Ele explicou as mudanças trazidas pelas redes sociais, capazes de alterar o sistema de mediação, embaralhando os papéis de “emissor” e “receptor” da informação e gerando novos paradigmas comunicacionais. Também apontou que enfrentar os grandes oligopólios que comandam as plataformas de redes sociais é fundamental para pensar a comunicação e a cultura. “Nós não somos uma contribuição para essa sociedade, somos uma condição de possibilidade desse país”, afirmou.

À tarde, a programação seguiu com reflexões sobre a cena cultural periférica, com a participação de nomes como Hilton Cobra, Carol Anchieta, Nina Fola, Jessé Oliveira e Priscila Couto, discutindo a resistência e o protagonismo negro no teatro e nas artes brasileiras. A jornalista Carol Anchieta abriu a mesa compartilhando sua trajetória profissional e refletindo sobre a importância de não ser a primeira, nem a única, mulher negra a ocupar determinados espaços, mas de abrir caminhos para que mais pessoas negras possam estar onde desejarem, especialmente na cena cultural. “Quando falo em se sentir pertencente, eu falo em se sentir cidadã da cultura e da arte. Que sintam a arte como um direito e como uma necessidade”, pontuou.

Jessé Oliveira, ator, diretor e gestor cultural, refletiu sobre os lugares das pessoas negras na cultura. A multiartista e doutora em Sociologia Nina Fola trouxe a importância do legado da ancestralidade negra na vida e na cultura do Brasil, refletindo sobre a necessidade de pensar o que, de fato, é universal e o que é periférico. Encerrando a mesa, o ator Hilton Cobra fez uma fala emocionante ao lembrar de sua amiga e intelectual gaúcha Luiza Bairros. Em uma abordagem diferente, a lenda da dramaturgia brasileira trouxe uma reflexão sobre o financiamento do setor cultural por meio da PEC 421. Veemente, cobrou a tramitação da PEC, que poderia trazer inúmeros benefícios para o setor.

Foto: Marina Z. de Albuquerque

A terceira mesa do dia contou com as presenças de Renato Freitas, presidente da Comissão de Igualdade Racial da AL-PR, do rapper GOG, de Pedro Garcia, do Pontão Kaingang, e da PoetaDesperta. O primeiro a falar foi Pedro Garcia, que destacou a importância das parcerias e dos aprendizados entre os povos, como os construídos entre as comunidades negras e indígenas. GOG trouxe a importância do que chamou de “afrobetização”, de perceber a própria potência e ir além dos estereótipos.

Renato Freitas falou sobre cultura, mercado e consumo, sobrevivência, bem viver e capacidade de organização. Explicou que canalizou sua revolta nos estudos e, assim, entrou na universidade. “A nossa cultura não é a de quem está embriagado em prazeres provindos de privilégios. A nossa cultura é de resistência. É cultura de vida”, afirmou. Na mesa, o movimento Hip Hop foi apresentado como uma ferramenta fundamental de transformação social e política nas periferias. Destacou-se a criação da Escola Nacional de Hip Hop e a importância de inserir essa cultura como pedagogia nas escolas para combater a evasão escolar e promover escolhas de vida positivas para os jovens.

Encerrando o evento, Olívio Dutra, ex-governador do RS, Tarson Nunez, economista, Rafa Rafuagi, do HUB Atividade, Helena Bonumá, representando a Economia Solidária, e Mano Cascata abordaram a cultura como um ponto central para o desenvolvimento do país, defendendo a democracia participativa e a economia solidária como formas de superar as contradições sociais.

Em sua fala, Tarson Nunez destacou a economia da cultura como uma alavanca fundamental para o desenvolvimento social. Com dados, mostrou o impacto das mais diversas atividades culturais na economia e como a concentração de recursos em grandes empresas faz com que o dinheiro não chegue aos trabalhadores do setor, reforçando a importância do fomento público. “O artista precisa poder viver da sua arte de forma digna.” Segundo ele, a Política Cultura Viva é uma forma de mostrar o país para si mesmo, ampliando a cidadania e o processo de identificação dos brasileiros com o Brasil.

Olívio Dutra apontou a importância da troca permanente de experiências e de como a cultura impacta as cidades, a convivência e o trabalho, trazendo a centralidade da educação para o debate. O político, velho conhecido da cena cultural gaúcha, refletiu sobre os impactos da tecnologia na vida, defendendo que ela seja utilizada para o bem-estar da sociedade. Ele lembrou, ainda, da condição política inerente ao ser humano. “A cultura, em suas mais diversas manifestações, é libertária e precisa estar livre para se manifestar, e o Estado tem que garantir isso.”

O segundo dia do encontro contou ainda com apresentações artísticas, reuniu cerca de 400 pessoas e reforçou a importância do trabalho em rede e da autonomia na criação de conteúdos como ferramentas de luta política e resistência cultural.