Os “Bafana Bafana” vocalizam sua ancestralidade através do Gwijo
A Seleção Sul-Africana de Futebol encerrou sua participação na Copa do Mundo com uma assinatura cultural
Por Fernanda Santos de Abreu – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube
A seleção sul-africana encerrou sua participação na Copa do Mundo após perder de 1 a 0 para o Canadá, no dia 28 de junho. Apesar da derrota, a equipe fez uma campanha histórica: voltou a disputar o Mundial após 16 anos de ausência e, pela primeira vez, avançou à fase eliminatória da competição.
Conhecida como “Bafana Bafana”, apelido que surgiu no início da década de 1990 e significa, em tradução livre do idioma zulu, “Os Meninos, Os Meninos” ou “Garotos, Garotos”, a equipe passou pelo Mundial deixando, além dos gramados, seu legado cultural.
O apelido da seleção faz parte de um marco histórico da África do Sul. Entre 1961 e 1992, o país foi banido das competições organizadas pela Federação Internacional de Futebol (FIFA), devido ao regime de segregação racial do Apartheid, que violava os direitos humanos e esportivos ao proibir times multirraciais e banir atletas negros de suas seleções. No retorno às competições, a equipe era formada por uma geração jovem, o que motivou o apelido, que virou marca do time e foi registrado comercialmente pela Federação Sul-Africana de Futebol.
Além do nome, os Bafana Bafana também chamam atenção por outra assinatura cultura: a música. Antes das partidas da Copa do Mundo de 2026, atletas e comissão técnica entoavam o Gwijo (ou igwijo), um canto coletivo tradicional realizado sem instrumentos, marcado pela presença da voz, do ritmo e da participação coletiva. O canto é uma manifestação em formato de chamada e resposta (call and response).
Entoado pelos Bafana Bafana nas chegadas aos estádios, o Gwijo funciona como um ritual de preparação e fortalecimento coletivo. Uma das principais canções é “Vula Amabala”, expressão que significa “abrir os caminhos”, cantada em isiZulu. Mais do que um canto, essa performance expressa a memória e ancestralidade sul-africana. Logo, é possível perceber que, em uma Copa do Mundo, a identidade cultural de uma seleção não aparece somente a partir das cores dos uniformes, pelos escudos nas camisas, suas bandeiras ou pelos hinos nacionais.
O esporte é, de acordo Varejão (2012, p.295), “um dos principais fenômenos socioculturais da atualidade”, o que nos fornece indícios de estar longe de ser um campo neutro de ideias, linguagens e simbologias. Nesse sentido, antes do apito inicial, os atores esportivos envolvidos em uma Copa do Mundo entram em “campo” com seu corpo, voz e ancestralidade, reconfigurando as quatro linhas em um espaço de celebração cultural, afirmação identitária e formas de pertencimento por meio do canto, da dança e da performance coletiva.
É desse modo que os Bafana Bafana ecoaram sua existência a partir do Gwijo, que é uma prática cultural profundamente enraizada na história sul-africana. Originário especialmente nos povos Xhosa e Zulu, essa manifestação atravessou diferentes gerações, estando presente em ocasiões como casamentos, funerais e também no esporte. Assim, a prática do Gwijo se materializa enquanto uma forma de fortalecer laços coletivos, reafirmar pertencimentos e celebrar uma herança cultural compartilhada.
Desse modo, o Gwijo apresenta-se enquanto uma prática da memória ancestral que se atualiza a cada momento e que se reconfigura em diferentes espaços, tornando o corpo e a voz transmissores de saberes e experiências coletivas. As pessoas tornam-se arquivos vivos de preservação, atualização e multiplicação de conhecimentos, histórias e modos de existir.
Essa percepção se aproxima da Oralitura, conceito desenvolvido pela professora brasileira Leda Maria Martins, formulado a partir das experiências afro-brasileiras, especialmente as presentes em congados, reinados e outras manifestações. Leda aponta que os movimentos corporais e as expressões vocais preservam os conhecimentos inscritos na memória ancestral. Assim, o corpo em performance é um local de inscrição de conhecimento, que transmite e revisa a memória do conhecimento, seja este estético, filosófico, metafísico, científico, tecnológico, etc.
O corpo se apresenta como um ambiente de memória, onde passado e presente coexistem e interagem, ou seja, as memórias ancestrais são constantemente reativadas e reinterpretadas no presente. O gesto, a dança e a palavra são formas de inscrição de saberes e histórias que escapam ao registro escrito tradicional.
Os Bafana Bafana, ao utilizarem o Gwijo como um ritual antes dos jogos, nos revelam que a memória não permanece apenas registrada em documentos, ela vive e se renova nas práticas culturais performadas coletivamente, o que desafia a hegemonia epistemológica ocidental. Também inscrevem, diante de um evento global, uma tradição cultural que conecta diferentes gerações e reafirma identidades construídas muito além do universo esportivo. Contudo, é importante reforçar que, apesar de possíveis aproximações, a Oralitura foi elaborada em outro contexto histórico e cultural.
O que é possível perceber é que o Gwijo e sua performance mostraram-se ao mundo como um espaço de preservação e atualização da memória e da ancestralidade, momento em que voz, corpo, ritmo e movimento funcionam como formas de inscrição de saberes, valores, visões de mundo e transmissão cultural. Seu destaque durante a participação dos Bafana Bafana na Copa do Mundo reforça que o futebol não se resume ao espetáculo esportivo transmitido mundialmente.
A Copa do Mundo é um espaço de circulação de culturas, corpos, identidades e memórias que ganham visibilidade e reconhecimento. Os Bafana Bafana, ao cantarem antes das partidas, nos mostram que, antes da bola rolar o espetáculo esportivo, “Vula Amabala” (abre caminhos) para contar as histórias que esses corpos carregam.



