Raphinha nunca jogou no futebol brasileiro e isso diz muito sobre sua conexão com a seleção
Jogador declarou que não precisa “se provar” para ninguém, mas não rendeu o esperado durante o Mundial de 2026
Por Gabriel Mansur – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube
Parte significativa da torcida brasileira está cansada de uma “perspectiva” adotada por uma parcela dos jogadores da Seleção nos últimos anos: a ideia de que estão fazendo um “favor” por atuar com a camisa verde e amarela.
E, inegavelmente, um dos mais polêmicos é o camisa 11, Raphinha. Poucos dias antes do início da Copa do Mundo de 2026, o jogador declarou que não precisava provar nada para ninguém além de si e de sua família, além de afirmar que sente um carinho “diferente” dos torcedores de fora do Brasil.
A fala não repercutiu bem para o astro do Barcelona, que também não vem atuando bem dentro de campo quando defende a Seleção Brasileira. Mas, ao analisar a trajetória de Raphinha como jogador de futebol, fica fácil entender por que o jogador possui essa perspectiva com relação à torcida, assim como sua própria desconexão com o futebol brasileiro.
Raphinha inicia carreira profissional em Portugal
Ainda muito novo, Raphinha deixou o futebol brasileiro. O jogador de Porto Alegre (RS) saiu muito cedo do Avaí, onde atuava na equipe sub-20, para jogar no futebol português. Sua primeira partida como profissional foi pelo Vitória Sport Clube, da cidade de Guimarães. Nos dez anos que se seguiram à estreia, o atleta passou por Sporting (POR), Rennes (FRA) e Leeds (ING), até chegar ao Barcelona, onde se tornou o astro de hoje.
Como jogador do Barcelona, Raphinha é incontestável. Na temporada 2025/26, marcou 21 gols e deu oito assistências nos 33 jogos de que participou. Quase uma participação em gol por jogo, um número espetacular. O próprio treinador da Seleção Brasileira, Carlo Ancelotti, já declarou que considera Raphinha o “melhor do mundo” na sua função. Então, o que explica o desempenho abaixo do esperado com a camisa do Brasil?
Raphinha nunca marcou na Copa do Mundo
Ainda que o rendimento de Raphinha seja um dos grandes diferenciais do atacante no Barcelona, não vemos o mesmo na Seleção Brasileira. Segundo dados do portal Transfermarkt, são 41 jogos pelo Brasil, com 11 gols marcados.
O detalhe está no fato de que a maior parte desses gols não foi marcada em partidas decisivas para a equipe: dez deles aconteceram em amistosos ou nas Eliminatórias. Apenas um dos gols de Raphinha pode ser considerado impactante: o marcado no empate do Brasil contra a Colômbia, na Copa América de 2024.
Mas a Copa do Mundo de 2026 chegou, e Raphinha foi uma das principais apostas de Ancelotti para a equipe titular. Aliás, o jogador era tido como incontestável na escalação inicial da Seleção Brasileira.
Entretanto, o desempenho dentro de campo não agradou aos torcedores, que não entendiam a insistência no jogador. Contra Panamá e Egito, foi apático. Já no Mundial, sua atuação durante os 90 minutos da partida contra o Marrocos ficou abaixo do esperado e, para piorar, sua saída por lesão no jogo contra o Haiti foi sucedida por uma visível melhora da equipe com a entrada de Rayan.
“Não posso mudar o gosto das pessoas”
Assim como Raphinha, outros jogadores da Seleção Brasileira também não vinham atuando como nós, torcedores, gostaríamos. A diferença é que o jogador parece não se sentir confortável com as cobranças vindas de fora do campo.
Durante a coletiva de imprensa que antecedeu o Mundial, Raphinha afirmou que vê uma grande diferença entre a forma como é tratado pelos torcedores brasileiros e pelos fãs de outros países:
“Sinto que realmente é diferente o carinho do torcedor brasileiro com o do pessoal de fora que me acompanha diariamente. Mas, se eu tenho que me provar para alguém, é para mim, para os meus pais, para a minha esposa e para o meu filho. […] Infelizmente, eu não posso mudar o gosto das pessoas. Eu entendo que tem gente que não gosta do meu futebol […] e tá tudo bem”.
A declaração, é claro, não agradou a milhares de torcedores.
O problema não é onde Raphinha jogou, mas o que representa a Seleção
É claro que nunca ter atuado profissionalmente no futebol brasileiro não faz de Raphinha um jogador pior, nem menos brasileiro. O país já teve diversos atletas formados no exterior ou que deixaram o Brasil ainda muito jovens e construíram uma forte identificação com a camisa da Seleção.
A diferença está na forma como essa relação é construída. O torcedor brasileiro sempre foi exigente, mas costuma abraçar jogadores que demonstram entender o peso de defender a Seleção, principalmente nos momentos de dificuldade. Raphinha, por outro lado, frequentemente transmite a sensação de que as críticas fazem parte de um problema externo, e não de um processo natural de quem veste uma das camisas mais pesadas do futebol mundial.
A resposta para isso não virá em entrevistas ou coletivas de imprensa. Virá dentro de campo, se Raphinha conseguir transformar seu enorme desempenho pelo Barcelona em atuações decisivas pela Seleção Brasileira, a relação com a torcida mudará naturalmente. Foi assim com diversos jogadores que começaram contestados e terminaram idolatrados.
Enquanto isso não acontece, porém, a impressão que permanece é a de um atleta extraordinário em seu clube, mas que ainda não conseguiu criar uma conexão verdadeira com a Seleção Brasileira, nem com a torcida que espera muito mais de um camisa 11 do Brasil.



