Por Amanda Boteon e Juliana Araujo – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube

No dia 28 de junho, quando o mundo celebra o Dia Internacional do Orgulho LGBTQIA+, uma reflexão importante ganha espaço também no universo do esporte. Em plena Copa do Mundo de 2026, a discussão sobre diversidade e representatividade no futebol evidencia uma realidade marcante: enquanto o futebol feminino se tornou um espaço cada vez mais acolhedor para atletas LGBTQIA+, o futebol masculino ainda convive com barreiras e tabus históricos.

A diferença pode ser percebida em um dado significativo. Até hoje, nenhum jogador assumiu publicamente ser gay ou bissexual enquanto disputava uma Copa do Mundo masculina. O fato demonstra como o ambiente do futebol masculino ainda é fortemente influenciado por uma cultura marcada pelo machismo e pelo preconceito, que muitas vezes leva atletas a esconder aspectos de sua vida pessoal por receio de discriminação.

A discussão sobre diversidade no futebol ganhou ainda mais visibilidade durante a Copa do Mundo de 2022, disputada no Catar. Antes do torneio, organizações de direitos humanos e entidades ligadas à comunidade LGBTQIA+ questionaram as leis do país-sede, onde relações homoafetivas eram criminalizadas. O tema se tornou um dos principais debates fora de campo da competição e colocou em evidência os desafios de promover inclusão em um evento de alcance global.

Na ocasião, diversas seleções europeias planejaram utilizar a braçadeira “One Love”, símbolo de apoio à diversidade e ao combate à discriminação. A iniciativa, porém, foi abandonada após a FIFA sinalizar possíveis punições esportivas aos atletas que entrassem em campo com o acessório. O episódio gerou críticas de torcedores, jogadores e organizações internacionais, além de ampliar o debate sobre o papel das entidades esportivas na promoção dos direitos humanos.

Nos últimos anos, a FIFA também passou a fortalecer campanhas institucionais contra diferentes formas de discriminação em suas competições, incluindo racismo, xenofobia e homofobia. Embora as iniciativas representem avanços importantes, especialistas e grupos de defesa dos direitos LGBTQIA+ apontam que ainda existe uma distância entre os discursos de inclusão e a realidade vivida por muitos atletas e torcedores ao redor do mundo.

Entre os poucos jogadores que disputaram Copas do Mundo e posteriormente revelaram sua orientação sexual estão o ex-atacante francês Olivier Rouyer, que disputou a Copa de 1978 pela França e assumiu sua homossexualidade décadas após encerrar a carreira, e o alemão Thomas Hitzlsperger, integrante da seleção da Alemanha na Copa do Mundo de 2006, que tornou pública sua condição de homem gay pouco tempo após sua aposentadoria.

Se no futebol masculino a representatividade ainda avança em ritmo lento, no futebol feminino a realidade é bastante diferente. Ao longo das últimas décadas, diversas atletas passaram a viver sua sexualidade de forma aberta e se tornaram referências dentro e fora dos gramados.

Entre elas está a brasileira Marta, considerada por muitos a maior jogadora da história do futebol feminino e a maior artilheira das Copas do Mundo. Além de seus feitos esportivos, Marta tornou-se um símbolo de representatividade ao assumir publicamente seu relacionamento com a também jogadora Carrie Lawrence.

Outro nome de destaque internacional é o da norte-americana Megan Rapinoe. Bicampeã mundial e uma das maiores estrelas da modalidade, Rapinoe tornou-se uma das principais vozes em defesa dos direitos LGBTQIA+, da igualdade de gênero e da inclusão no esporte.

O Brasil também possui importantes referências na seleção feminina. Jogadoras como Tamires, Debinha e Andressa Alves, que vestiram a camisa da Seleção Brasileira em competições internacionais, falam abertamente sobre sua orientação sexual e contribuem para ampliar a visibilidade da comunidade LGBTQIA+ no futebol.

Em um momento em que a Copa do Mundo mobiliza bilhões de pessoas ao redor do planeta e se consolida como o evento esportivo de maior audiência do mundo, a ausência de jogadores assumidamente LGBTQIA+ no torneio masculino não pode ser encarada como mera coincidência. Ela reflete uma estrutura que, apesar dos avanços sociais observados em diferentes setores, ainda impõe barreiras para que atletas vivam sua identidade de forma plena e sem receios.

A maior competição esportiva do planeta deveria ser também uma das maiores vitrines de inclusão do esporte mundial. Seu alcance ultrapassa fronteiras, influencia comportamentos e tem potencial para promover mudanças culturais em escala global. No entanto, enquanto atletas ainda sentirem que assumir quem são pode colocar em risco suas carreiras, sua imagem ou sua permanência no esporte, o futebol masculino continuará devendo um importante capítulo de sua própria história de evolução. Em um esporte que se orgulha de ser universal, ninguém deveria precisar esconder quem é para entrar em campo.