Por Sofia Ricardo – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube

Em 96 anos de Copa do Mundo, nenhum jogador se assumiu gay ou bissexual enquanto o torneio ainda ocorria. Nesta edição, 48 seleções e 1.248 atletas estão participando, mas nenhum deles se assumiu publicamente como parte da comunidade LGBTQIAP+.

Um levantamento sobre diversidade no futebol brasileiro, realizado pelo Observatório da Discriminação Racial, registrou que apenas 1% dos jogadores do futebol masculino brasileiro se declarou homossexual ou bissexual.

Um dos principais problemas que levam os jogadores a não se assumirem é o preconceito. O futebol masculino enfrenta uma homofobia estrutural, pois esse esporte foi atrelado a um ideal de masculinidade e, por muito tempo, foi uma atividade associada apenas aos homens. A homofobia presente no campo, na torcida e nas agremiações é reflexo dos ideais preconceituosos que ainda existem na sociedade.

Um esporte que deveria explorar a coletividade acaba perdendo esse senso, influenciado pelo preconceito, pelo individualismo, por ameaças e pela violência. O orgulho LGBTQIA+ no futebol não deve ser apenas lembrado com uma postagem nas redes sociais, mas, sim, precisa ser cotidianamente conscientizado, respeitado e vivido.

Ao longo das Copas do Mundo, alguns jogadores só conseguiram se assumir e encontrar um espaço um pouco mais confortável para exercer a própria sexualidade após a aposentadoria. É o caso de Olivier Rouyer e Thomas Hitzlsperger, que jogaram em Copas do Mundo.

Olivier Rouyer se assumiu apenas aos 52 anos

O primeiro jogador que participou de uma Copa do Mundo e se assumiu bissexual foi Olivier Rouyer, que disputou o torneio em 1978 como atacante da Seleção Francesa. Foi apenas em 2008, quando tinha 52 anos, que ele revelou que se relacionava com outros homens. Após o anúncio, tornou-se um importante ativista dos direitos LGBTQIAP+ e passou a atuar como comentarista esportivo.

Rouyer é reconhecido por ser o primeiro jogador da história a disputar o principal torneio mundial masculino e se declarar integrante da comunidade LGBTQIAP+. Por muito tempo, ele foi uma exceção entre os jogadores que se assumiram publicamente. Assim, seu legado é fundamental para aqueles que vieram depois.

Thomas Hitzlsperger se assumiu após se aposentar

Thomas Hitzlsperger, que fez parte da Seleção da Alemanha, também só revelou sua orientação sexual depois da aposentadoria. Ele se assumiu gay em 2014 e, na época, reforçou que tomou essa decisão como forma de promover o debate sobre a homossexualidade entre atletas profissionais.

Atualmente, ele é membro do conselho administrativo do Hellas Verona, trabalha como analista e comentarista esportivo para canais como a BBC Sport e atua como embaixador da diversidade da Federação Alemã de Futebol (DFB).

Ex-jogador Richarlyson se assumiu bissexual: representatividade entre atletas

Para além dos jogadores que disputaram Copas do Mundo e fazem parte da comunidade LGBTQIAP+, o futebol também conta com atletas gays ou bissexuais que não participaram de Mundiais. É o caso do ex-jogador Richarlyson, que se assumiu bissexual em 2022, repetindo o padrão de revelar sua orientação sexual apenas após a aposentadoria.

Ele foi convocado e vestiu a camisa da Seleção Brasileira pela primeira vez em 2008, em amistosos, mas não disputou o principal torneio da FIFA. Além disso, Richarlyson foi o primeiro jogador com passagem pela Seleção Brasileira e pela Série A a declarar abertamente ser bissexual.

Atletas da comunidade LGBTQIA+ fizeram história ao assumir sua orientação sexual e buscar abrir um caminho árido para os demais jogadores. Caminho esse que, apesar de alguns avanços, ainda permanece marcado pela homofobia. Esses atletas foram pioneiros em um esporte inserido em uma sociedade que insiste em intimidá-los.

O ponto é que existem mais membros da comunidade LGBTQIA+ atuando nos gramados, dentro ou fora de campeonatos mundiais, sejam eles assumidos e atuando na promoção da representatividade, sejam impedidos pela homofobia de viver sua identidade de forma plena.

Relação entre patrocinadores, orgulho LGBTQIAP+ e futebol

Os patrocinadores também são uma parte importante quando se comenta sobre diversidade no futebol. Eles podem ajudar na promoção de campanhas contra a homofobia e contribuir para a criação de um ambiente seguro, no qual os jogadores não tenham medo de perder patrocínios.

Porém, o cenário recente envolve o afastamento de marcas de campanhas LGBTQIAP+. Na Parada do Orgulho LGBTQIAP+ de São Paulo, por exemplo, diversas empresas deixaram de ser patrocinadoras ao longo dos anos. Algumas delas, inclusive, patrocinam esta edição da Copa do Mundo, como a Smirnoff e o Mercado Livre.

O apoio à diversidade por parte dos patrocinadores do futebol também é importante. Quando existe um movimento contrário ou a ausência desse apoio, fortalece-se um sistema pouco diverso dentro do futebol. Todas as esferas que envolvem o esporte precisam estar alinhadas à diversidade para que um ambiente respeitoso seja criado e mantido.

Futebol é um espaço de respeito e coletividade

No Brasil, a homofobia é classificada como crime equiparado ao racismo pelo Supremo Tribunal Federal (STF), com penas que podem chegar a três anos de prisão. Dentro do futebol, algumas medidas também são aplicadas, como as previstas pelo Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD).

O artigo 243-G do Código Brasileiro de Justiça Desportiva (CBJD) estabelece que é passível de punição quem “praticar ato discriminatório, desdenhoso ou ultrajante, relacionado a preconceito em razão de etnia, raça, sexo, orientação sexual, cor, idade, condição de pessoa idosa ou com deficiência”.

Além disso, a CBF estabelece quatro tipos de punições para casos de LGBTfobia em jogos: advertência, multa pecuniária administrativa (no valor de até R$ 500 mil, destinada a causas sociais, podendo chegar a R$ 1 milhão em caso de reincidência), vedação de registro ou de transferência de atletas e perda de pontos.

O futebol, assim como qualquer outro esporte, deve ser uma prática para todos. O fato de a Copa do Mundo de 2026 não apresentar nenhum jogador que tenha se assumido publicamente gay ou bissexual, assim como o fato de que jogadores que participaram do torneio só tenham revelado sua orientação sexual após a aposentadoria, reforça que a homofobia no futebol continua sendo um fator de intimidação.

Muitos atletas ainda têm receio do preconceito, da mudança na forma como são tratados dentro do esporte e em sua rotina, sentindo-se obrigados a limitar aspectos de sua identidade para conseguir crescer na carreira e alcançar competições como a Copa do Mundo.