Por Grace Lima – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube

A contabilidade histórica do futebol mundial enfrenta um momento de confronto estatístico. A iminente quebra de recordes na categoria masculina recoloca sob holofotes a invisibilidade intencional de atletas mulheres.

O atacante argentino Lionel Messi igualou a marca de 16 gols do alemão Miroslav Klose em Copas do Mundo. A ascensão do jogador reacendeu debates profundos sobre como os recordes absolutos são divulgados.

Messi na estreia da Argentina em que se igualou com  Miroslav Klose na artilharia da copa do mundo (Foto: ROBERTO SCHMIDT/AFP)

A grande imprensa celebra o avanço de Messi rumo ao topo da artilharia histórica. Contudo, manchetes frequentes omitem que o recorde geral não pertence a um homem. O uso do termo “maior artilheiro” sem o recorte de gênero esconde conquistas consolidadas pelas mulheres.

O verdadeiro topo do mundo

A soberania absoluta em gols marcados no maior torneio do planeta pertence a Marta Vieira da Silva. A camisa 10 da Seleção Brasileira balançou as redes 17 vezes em Copas do Mundo. Ela supera Klose, Ronaldo e, até o momento atual, o próprio astro argentino. 

Foto: Lívia Villas Boas/CBF

Marta também se consagrou como a pioneira a marcar em cinco edições diferentes do campeonato. Além disso, a rainha supera Pelé em gols com a camisa canarinho, somando mais de 117 gols oficiais pela Seleção.

Sua consistência atlética pavimentou o caminho para o reconhecimento do alto rendimento feminino. Mesmo assim, seus dados oficiais costumam ser isolados em uma subcategoria invisível.

A magnitude de sua carreira foi referendada internacionalmente pela ESPN, que a posicionou no topo do futebol. Em um ranking dos 100 maiores atletas do século 21, ela ficou na 32ª posição. O dado expõe uma distância abissal no reconhecimento global comparado a ídolos masculinos.

No mesmo levantamento da ESPN, o craque Ronaldo apareceu apenas na 87ª posição. Ronaldinho Gaúcho ocupou o 94º lugar, enquanto Neymar sequer foi listado entre os escolhidos. Marta veio do sertão para legitimar um esporte que lutava por espaço.

A ameaça do apagamento cultural 

A possibilidade de Messi ultrapassar os 17 gols de Marta traz uma reflexão crítica necessária. Caso o argentino assuma a liderança, o ecossistema esportivo tende a unificar o discurso imediatamente. O atleta masculino passará a ser aclamado como o maior de todos de forma irrestrita.

A história do futebol não pode validar o topo absoluto apenas quando ele passa a ser ocupado por um homem. Essa assimetria revela o sexismo estrutural enraizado nos manuais esportivos e jornalísticos. Enquanto os 17 gols de Marta precisavam do rótulo “feminino” para existir, os futuros 18 de um homem serão universais. O fenômeno repete o que ocorreu com os recordes de longevidade de Formiga, única atleta com sete Copas no currículo. 


Foto: Naomi Baker/Getty Images

Historiadores desportivos alertam para o risco de retrocesso na preservação da memória atlética. A precisão factual exige que o jornalismo não use o masculino neutro como sinônimo de totalidade. O topo de Marta deve ser defendido com o mesmo peso conferido aos ídolos masculinos.

A cobertura do esporte precisa evoluir na mesma velocidade que suas protagonistas em campo. Ignorar os números de Marta e Formiga deforma o real significado de excelência desportiva. O reconhecimento integral impede que o futebol continue apagando quem mais fez história nos gramados.

*Com informações de ESPN e FIFA