O Brasil que formava laterais agora exporta pontas
Em meio à Copa do Mundo, a escassez de destaques na posição levanta uma questão: o futebol brasileiro ainda forma laterais como antes?
Por: Manoel Costa
A cada Copa do Mundo, uma mesma discussão ressurge. Entre convocações, escalações e análises táticas, uma pergunta volta a circular entre torcedores e comentaristas: por que o Brasil parece ter cada vez mais dificuldade para revelar grandes laterais?
A percepção contrasta com uma tradição histórica. Durante décadas, a Seleção Brasileira foi reconhecida mundialmente pela capacidade de formar jogadores que transformaram a posição. Mais do que defensores, os laterais brasileiros se tornaram protagonistas, participando da construção ofensiva e ajudando a moldar uma identidade própria para o futebol do país.
Hoje, no entanto, o debate sobre a posição é recorrente. Embora o Brasil continue produzindo atletas para as laterais, a sensação é de que a abundância de talentos que marcou gerações anteriores já não existe da mesma forma.
Mas será que o problema está realmente na formação dos jogadores?
Uma posição cada vez mais complexa

O futebol mudou. E poucas posições sentiram tanto essa transformação quanto a lateral.
Se antes o papel do lateral era associado principalmente à marcação e ao apoio ofensivo, hoje a função exige um conjunto de responsabilidades muito mais amplo. O jogador precisa defender em campo aberto, participar da construção das jogadas, ocupar diferentes zonas do campo, pressionar sem a bola e interpretar constantemente os movimentos dos companheiros e adversários.
Para o ex-lateral Filipe Luís, um dos jogadores brasileiros mais identificados com a posição nas últimas décadas, a principal exigência é a leitura de jogo.
Em entrevista ao Charla Podcast em 2024, ele afirmou que o lateral moderno precisa, antes de tudo, saber defender os espaços. “Se o lateral toma uma bola nas costas, o valor de mercado dele cai pela metade”, disse. Na mesma conversa, definiu a função como uma posição de “pura leitura tática”, em que compreender o momento exato de fechar por dentro ou dar amplitude ao ataque pode determinar o sucesso ou o fracasso de uma equipe.
A observação ajuda a explicar por que o desenvolvimento de um lateral costuma ser diferente de outras posições. Enquanto um ponta pode chamar atenção ainda na adolescência por velocidade, drible ou capacidade de finalização, o lateral depende de atributos que normalmente exigem mais tempo para amadurecer. Posicionamento, leitura tática e tomada de decisão são competências construídas ao longo de anos de experiência.
Não por acaso, muitos dos grandes laterais da história atingiram seu auge apenas na fase madura.
O tempo necessário para formar um lateral

A trajetória de Cafu ajuda a ilustrar esse processo. Antes de se tornar capitão do pentacampeonato mundial e um dos maiores jogadores da história da posição, o ex-lateral passou por um longo processo de adaptação e aperfeiçoamento técnico.
Em depoimento resgatado pelo O Globo em 2006, Cafu relembrou que nem sequer gostava de atuar na lateral quando começou a trabalhar com Telê Santana. O treinador, porém, insistiu na mudança e estabeleceu uma rotina rigorosa de treinamento. Por orientação de Telê, permanecia diariamente meia hora antes dos treinos e uma hora depois aperfeiçoando cruzamentos e fundamentos específicos da posição.
A história ajuda a entender uma característica frequentemente ignorada quando se fala sobre laterais: a posição costuma exigir investimento de longo prazo. E é justamente aí que a discussão encontra uma questão econômica.
O futebol brasileiro mudou

Desde os anos 1990, o mercado global do futebol passou por profundas transformações. A chamada Lei Bosman, decisão da Justiça Europeia de 1995, ampliou a circulação internacional de jogadores e acelerou a integração do mercado mundial de atletas. Estudos sobre o tema apontam que a medida contribuiu para aumentar a mobilidade dos profissionais e fortalecer a concentração de talentos nos principais centros econômicos do futebol europeu.
O impacto foi sentido diretamente no Brasil. Um levantamento do CIES Football Observatory identificou 3.020 jogadores brasileiros atuando no exterior nas ligas analisadas entre 2020 e 2025, o maior contingente do mundo. Nenhuma outra nação registrou números tão elevados.
Ao mesmo tempo, a venda de jovens atletas se consolidou como uma das principais fontes de receita dos clubes brasileiros. Em um cenário de dívidas recorrentes e desigualdade econômica em relação à Europa, formar e vender jogadores tornou-se parte essencial da sobrevivência financeira de muitos clubes.
A fábrica de pontas



As maiores transferências da história recente do futebol brasileiro ajudam a ilustrar essa transformação.
Entre os principais negócios realizados por clubes do país aparecem nomes como Neymar, Vinícius Júnior, Rodrygo, Estêvão, Endrick, Vitor Roque e Rayan. A lista é dominada por atacantes e pontas. São jogadores capazes de produzir impacto imediato, despertar interesse internacional ainda muito jovens e movimentar negociações milionárias antes mesmo de completar 20 anos.
A ausência de laterais entre as maiores vendas não comprova, por si só, uma mudança na formação dos atletas. Mas revela quais características o mercado tem valorizado de forma mais intensa nas últimas décadas. Para clubes pressionados por resultados financeiros, a mensagem é clara: os maiores retornos costumam vir de jogadores ofensivos.
Essa lógica é reconhecida por quem atua diretamente na formação de atletas. Em entrevista à ESPN Brasil, o coordenador das categorias de base do Palmeiras, João Paulo Sampaio, afirmou que o mercado paga pelo gol e pelo drible. Segundo ele, atacantes capazes de decidir partidas individualmente alcançam valores muito superiores aos de zagueiros e laterais, criando um cenário em que os clubes são incentivados a potencializar talentos ofensivos para garantir competitividade e sustentabilidade financeira.
Nesse contexto, surge uma hipótese que merece atenção. Se um jovem habilidoso, veloz e bom no drible pode se transformar em uma venda milionária atuando como ponta, quantos potenciais laterais acabam sendo direcionados para funções ofensivas ainda nas categorias de base?
A discussão não se limita ao aspecto financeiro. Para o diretor e scout português José Boto, o futebol brasileiro passou anos tentando reproduzir modelos de formação europeus e, nesse processo, perdeu parte da criatividade que historicamente o diferenciava. Em entrevista ao GE, Boto argumentou que a ponta se tornou um dos poucos espaços onde o drible, a improvisação e o jogo individual seguem sendo estimulados. Não por acaso, é justamente esse perfil de jogador que continua despertando o interesse dos grandes clubes europeus.
Não há dados conclusivos para determinar quantos jogadores deixam de se tornar laterais para atuar mais à frente. Mas a combinação entre demanda internacional, retorno financeiro e valorização dos atletas ofensivos sugere uma mudança importante nos incentivos da formação brasileira.
Se o mercado recompensa cada vez mais quem decide jogos no ataque, é natural que clubes, treinadores e categorias de base concentrem esforços na produção desses talentos. A questão é entender o que fica pelo caminho quando outras posições passam a oferecer menos retorno econômico.
Quem tem tempo para esperar?

O Brasil continua sendo uma potência mundial na formação de jogadores. Continua exportando atletas em escala recorde e abastecendo os principais campeonatos do planeta.
Talvez a questão não seja a falta de talento. Talvez o futebol tenha mudado mais rápido do que algumas posições conseguem acompanhar.
As reflexões de Filipe Luís e a trajetória de Cafu apontam para a mesma direção: formar um grande lateral exige tempo. Exige repetição. Exige aprendizado tático. Exige erros e amadurecimento. Mas o mercado contemporâneo parece valorizar justamente o contrário.
Em um sistema que recompensa cada vez mais quem pode ser vendido aos 17 ou 18 anos, o lateral enfrenta uma desvantagem estrutural. Raramente está pronto nessa idade.
A discussão sobre a posição, portanto, vai além das escolhas de treinadores ou das gerações da Seleção. Ela toca no modelo econômico que organiza a formação de atletas no país.
E deixa uma pergunta em aberto: em um futebol orientado pela venda precoce de talentos, quem está disposto a esperar o tempo necessário para formar um grande lateral?



