Por Sofia Missiato

As mulheres representam hoje 60% dos novos praticantes de atividade física no Brasil. O interesse feminino pelo esporte cresceu 20% desde 2020, mais que o dobro do avanço registrado entre os homens. Enquanto isso, globalmente, o esporte feminino deixou de ser tratado como nicho: segundo projeções da Deloitte, o setor deve ultrapassar US$ 3 bilhões em receita até 2026.

Academias lotadas, grupos de corrida femininos, mulheres ocupando trilhas, montanhas, provas de endurance, ciclismo e escalada ajudam a desenhar uma nova paisagem esportiva no país. Mas, por trás da expansão acelerada, permanece uma tensão menos visível: embora as mulheres estejam entrando em massa no esporte, as estruturas esportivas ainda carregam lógicas historicamente masculinas.

Para a professora da USP Katia Rubio, a transformação atual vai além de uma tendência passageira. Segundo ela, existe uma mudança profunda na forma como a atividade física passou a ser percebida socialmente.

“A atividade física já não é mais um hobby ou um lazer, mas uma necessidade de saúde”, afirma.

Rubio explica que, historicamente, o lazer esteve associado às classes mais altas, enquanto grande parte das mulheres enfrentava jornadas múltiplas de trabalho e cuidado. Nesse cenário, a prática esportiva aparecia como algo secundário ou inacessível. A mudança acontece quando o exercício deixa de ocupar apenas o campo do entretenimento e passa a ser incorporado como parte da prevenção em saúde.

“O mover-se não é mais entendido como privilégio de quem tem dinheiro ou tempo. Quando a atividade física invade o território da saúde, ela passa a ser incorporada por todas as classes sociais”, diz.

Ainda assim, a pesquisadora alerta que o crescimento da participação feminina não significa, necessariamente, uma transformação estrutural consolidada.

“Os estudos em representação social mostram que mudanças culturais profundas levam de três a quatro gerações. Por enquanto, eu diria que estamos vendo um sinal de transformação.”

Esse “sinal” aparece de forma concreta em modalidades que, durante décadas, foram dominadas por homens, especialmente nos esportes outdoor e de aventura. Escalada, mountain bike, ultramaratonas e provas de resistência passaram a receber um número crescente de mulheres, embora o acesso ainda esteja profundamente ligado à classe social.

“Essas práticas sempre envolveram poder aquisitivo. Equipamentos são caros. O esporte outdoor no Brasil ainda é um construto recente”, analisa Rubio.

Ela lembra que esportes como escalada e montanhismo foram historicamente desenvolvidos na Europa, onde as condições geográficas e culturais já favoreciam essas atividades muito antes de chegarem ao Brasil.

“O esporte não é uma cultura originária nossa. É uma invenção europeia. Essas práticas de aventura chegaram aqui muito recentemente.”

Se a pesquisadora observa a transformação pela lente histórica, a atleta olímpica Jaqueline Mourão viveu essa mudança na prática e no próprio corpo.

Primeira brasileira a disputar Jogos Olímpicos de Verão e de Inverno, pioneira no mountain bike olímpico e única atleta do país a competir no biatlo olímpico de inverno, Jaqueline começou no ciclismo nos anos 1990, quando mulheres ainda eram raridade nas competições.

“O mountain bike começou nos anos 90, e eu vivi esse início como uma verdadeira febre pelo esporte. Era uma sensação de liberdade e conexão com a natureza muito forte”, lembra.

Naquela época, segundo ela, quase tudo era pensado para homens, inclusive os equipamentos.

“Muitas vezes éramos poucas mulheres nas largadas. Até mesmo nossas roupas eram masculinas. O forro era masculino e machucava.”

Ao longo da carreira, Jaqueline viu a presença feminina deixar de ser exceção.

“Hoje existe mais visibilidade, mais incentivo, mais meninas começando cedo e, principalmente, mais mulheres acreditando que pertencem a esse ambiente.”

Mas ela ressalta que parte das desigualdades permanece.

“Ainda precisamos provar, muitas vezes, que nosso desempenho merece o mesmo valor.”

A atleta também chama atenção para outro tema raramente debatido no esporte de alto rendimento: o envelhecimento feminino. Aos 50 anos, ela segue buscando uma vaga para sua nona participação olímpica, em Milano Cortina 2026.

“A média de aposentadoria de um atleta olímpico gira em torno dos 27 anos. Continuar competitiva aos 50 acaba quebrando muitos paradigmas.”

A maternidade foi outro desafio vivido sem estrutura institucional. Jaqueline conta que, quando decidiu ter filhos e continuar competindo, praticamente não existia suporte para mães atletas.

“Não tive licença-maternidade. Quatro meses após o nascimento do meu filho, eu já estava competindo no Campeonato Mundial de esqui cross-country, amamentando e tentando me virar com toda a estrutura necessária.”

Hoje, ela reconhece avanços importantes, como bolsas para atletas gestantes e espaços voltados a mães em centros esportivos. Ainda assim, acredita que sua trajetória foi marcada justamente pela quebra constante de tabus.

“Primeiro pela modalidade, depois pela maternidade e agora também pela idade.”

Para Katia Rubio, a ocupação feminina de espaços historicamente masculinos produz uma transformação simbólica profunda.

“Essas práticas mostram que as mulheres podem estar onde quiserem estar.”

Ela destaca, porém, que as conquistas atuais foram abertas por gerações anteriores que enfrentaram resistência intensa.

“Essa porta que hoje vocês encontram aberta foi escancarada aos pontapés pela minha geração.”

Ao mesmo tempo em que o esporte feminino ganha audiência, investimento e interesse do mercado, a pesquisadora observa que a igualdade ainda está longe de ser plena.

“O mercado percebeu que existe dinheiro aí. O esporte feminino passou a interessar economicamente.”

Mas ela aponta que a representação feminina continua desigual em espaços de liderança, cobertura midiática e legitimidade narrativa.

“Quando a mulher escorrega em alguma informação, todo mundo cai de pau. Já homens que falam bobagem na televisão continuam validados pela posição que ocuparam como atletas.”