‘Bendita’: curta potiguar une espiritualidade, memória e relações entre mulheres
Mickaelly Moreira comenta o processo criativo do curta e a importância das políticas públicas para o cinema local
Por Thiago Galdino
Entre cartas escritas à mão, rezas e pequenos gestos cotidianos, Bendita, novo curta-metragem da diretora mossoroense Mickaelly Moreira, acompanha a rotina de uma freira cuja vida no convento é atravessada pela chegada inesperada da irmã mais nova. Sem recorrer a grandes acontecimentos, o filme constrói sua narrativa a partir da convivência, da escuta e das formas de cuidado que atravessam as relações familiares.
Realizado com recursos da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), o curta estreia no dia 27 de maio, às 19h, no novo espaço cultural do Banco do Nordeste em Mossoró, instalado no Teatro Lauro Monte Filho. A sessão gratuita também contará com uma roda de conversa entre equipe e público. Em entrevista ao Cine Ninja, Mickaelly fala sobre o processo de criação do filme, a presença da espiritualidade em sua trajetória e os desafios de produzir cinema no interior do Rio Grande do Norte.
Bendita parece construir uma narrativa muito ligada aos gestos mínimos, aos silêncios e às permanências do cotidiano. Como surgiu o desejo de contar uma história a partir dessas delicadezas, em vez de acontecimentos mais explícitos ou dramáticos?
Mickaelly Moreira: Acho que essa escolha reflete muito o meu momento de vida. Tenho vivido uma fase mais madura, de recolhimento e reflexão, e isso atravessa a forma como eu olho para as histórias e para o cinema. Hoje me interessa muito mais aquilo que permanece em silêncio, os pequenos gestos, os detalhes que às vezes parecem mínimos, mas que carregam afetos, ausências e memórias profundas.
Também tem muito do tipo de obra que me emociona como espectadora. Eu gosto muito de filmes que conseguem despertar sentimentos a partir do singelo, do cotidiano, sem precisar necessariamente de grandes acontecimentos. Acho bonito quando um filme consegue fazer alguém sentir através de um olhar, de uma pausa, de um silêncio, de um arrastar de cadeira. E Bendita nasce desse lugar.
O som acaba tendo uma importância muito grande dentro do filme. Os barulhos da casa, da respiração, dos passos, do vento atravessando o espaço, das rezas, dos objetos sendo tocados… tudo isso também narra. Existe uma tentativa de deixar que o ambiente fale, que a memória daquele espaço apareça através das sonoridades dele.
E acho que a própria relação do filme com o religioso pede essa escuta mais atenta. Porque a espiritualidade que me interessa em Bendita não está no espetáculo ou no excesso, mas justamente no cotidiano, nos rituais simples, nas pequenas repetições, na intimidade.

A protagonista vive em um convento e estabelece sua relação com o mundo através da escuta, da fé e do cuidado. O que mais te interessava investigar nessa experiência de recolhimento e presença?
MM: Eu sou uma pessoa de fé e sempre enxerguei muito amor dentro dela. Não uma fé ligada ao espetáculo ou às grandes demonstrações, mas uma fé mais silenciosa, cotidiana, construída no cuidado, na presença e na forma como as pessoas escolhem permanecer umas nas vidas das outras.
Eu acho que tenho me interessado cada vez mais por personagens que demonstram afeto de formas menos óbvias. Pessoas que amam através da constância, do cuidado, da permanência. E queria olhar para essa vivência religiosa também a partir de um lugar mais humano, mais íntimo, distante daquela ideia grandiosa ou idealizada da fé.
E isso também diz muito sobre meu olhar estético como diretora de fotografia. Eu gosto do simples bem cuidado. Da imagem que encontra beleza na luz natural entrando por uma janela, nos objetos de uma casa, nas texturas, nos silêncios e nas pequenas permanências do espaço. Acho que existe muita potência visual nas coisas que parecem pequenas quando são olhadas com atenção e sensibilidade.
Também me interessava muito a ideia do silêncio como linguagem. Dos sons da casa, das rezas, dos passos, do vento, dos objetos… como se aquele espaço também falasse junto com ela. O convento acaba funcionando quase como uma extensão emocional da personagem, porque tudo ali guarda memória, repetição, permanência e espiritualidade.
Em diferentes trabalhos seus, como Bença e A Culpa é da Mãe, existe uma atenção recorrente às mulheres, às formas de resistência e às dimensões afetivas da existência. Em Bendita, de que maneira essa pesquisa continua ou se transforma?
MM: Todas as minhas obras têm muito do meu olhar feminista e da forma como eu enxergo as relações entre mulheres. Eu quero engrandecer as mulheres comuns, os afetos femininos, os cuidados invisibilizados e as formas de resistência que existem no cotidiano.
O roteiro de Bendita também nasceu de um momento muito pessoal meu. Ele começou a ser escrito depois da morte da minha tia, e isso mexeu profundamente com a minha família. Minha tia era uma dessas pessoas que parecem ter vindo ao mundo com a missão do cuidado. Ela cuidava de todo mundo. Era alguém muito presente, muito próxima, que vibrava pelas pessoas, que queria ver todo mundo bem. E quando uma mulher assim parte, parece que alguma coisa muda dentro da estrutura da família inteira.
Além dela, eu também perdi minha avó recentemente. E minha avó, apesar de não seguir exatamente uma religião, tinha uma fé muito forte. Existia algo muito espiritual nela, principalmente através da reza. Durante muito tempo, acho que nós nos sentimos protegidas pelas orações dela, como se ela segurasse emocionalmente muitas coisas ao redor de todas nós. Depois que ela partiu, ficou uma sensação muito forte de desamparo, como se uma proteção tivesse ido embora junto com ela.
Eu venho de uma família formada quase inteiramente por mulheres e sinto que Bendita nasce desse amor refletido em cuidado entre mulheres. Desse amor que acolhe, fortalece, sustenta e permanece mesmo diante da ausência. Pra mim, existe muita potência nessas relações construídas através da escuta, do cuidado e da presença cotidiana.
E acho que isso continua aparecendo em todos os meus trabalhos. Mesmo quando os contextos mudam, eu continuo interessada em olhar para mulheres de forma humana, sensível e complexa, entendendo também o afeto como uma forma de permanência e resistência.

O filme aproxima espiritualidade e intimidade sem transformar a fé em um discurso necessariamente institucional. Como você trabalhou essa dimensão mais humana e subjetiva da religiosidade dentro da narrativa?
MM: Eu sou uma pessoa de fé e sempre me interessei mais por essa dimensão íntima da espiritualidade do que por uma ideia institucional da religião. Acho que a fé aparece muito nas pequenas coisas, nos rituais cotidianos, nas rezas, nos silêncios, na forma como as pessoas cuidam umas das outras e seguem tentando permanecer mesmo diante das perdas e das incertezas.
E tudo isso ganha ainda mais força dentro de Bendita justamente porque a personagem é uma freira. Mas me interessava olhar para essa vivência religiosa sem transformar ela em algo distante ou idealizado. Antes de ser freira, ela continua sendo uma mulher cheia de afetos, dúvidas, saudades e conflitos. E acho que era justamente essa dimensão mais humana da espiritualidade que eu queria mostrar com o filme.
Também me interessa mostrar a fé como um espaço de acolhimento e permanência. Principalmente sendo parte de uma família de mulheres muito ligadas ao cuidado e a essas formas mais silenciosas de amor. Minha avó, por exemplo, não seguia exatamente uma religião, mas tinha uma fé muito forte. Existia uma sensação de proteção nas rezas dela. E acho que isso acabou entrando no filme de forma muito natural.
A chegada da irmã mais nova parece romper a estabilidade daquele cotidiano e trazer à tona afetos, ausências e tensões familiares. Como você pensou essa relação entre distância emocional e permanência dos vínculos?
MM: A relação entre as duas irmãs em Bendita não nasce de uma distância afetiva. Pelo contrário. Elas são muito próximas, existe muito amor entre elas, e a promessa feita pela protagonista surge justamente desse medo intenso de perder alguém que ocupa um lugar tão importante na vida dela.
O filme fala muito sobre esse amor que permanece e sustenta quando tudo parece ameaçado. E a promessa cheia de sacrifícios nasce desse desespero silencioso de querer manter viva uma pessoa que ela ama profundamente.
Isso também vem muito de um lugar pessoal meu. Eu fiquei muito contagiada pela dor que a partida da minha tia deixou nas irmãs dela. É muito forte perceber como aquela ausência foi reorganizando emocionalmente toda a família. Como uma mulher que sempre cuidou, acolheu e esteve presente continua existindo de alguma forma dentro de todas as relações, mesmo depois da partida.
E acho que Bendita acaba sendo também sobre isso. Sobre o medo de perder quem sustenta partes importantes da nossa vida afetiva. Sobre esse amor entre mulheres que é tão profundo que muitas vezes se transforma quase em devoção, cuidado e permanência.
Bendita aposta em uma construção visual intimista, voltada para detalhes, objetos e pequenas ações do cotidiano. Como fotografia e direção de arte ajudaram a criar essa atmosfera mais contemplativa e silenciosa?
MM: A construção visual de Bendita era uma das coisas mais importantes pra mim desde o início, justamente porque o filme nasce muito dos silêncios, das pequenas ações e do cotidiano. Então eu fiz questão de estar diretamente envolvida tanto na direção de fotografia quanto na direção de arte, porque queria que tudo conversasse emocionalmente: os objetos, as texturas, a luz, os vazios, os sons…
Como diretora de fotografia, eu tenho um interesse muito grande pelo simples bem cuidado. Então a fotografia e a arte foram pensadas muito a partir dessa delicadeza. Dos detalhes, dos objetos religiosos, das cartas, da luz natural entrando pelos espaços e dessa sensação de tempo desacelerado.
E dividir esse processo com Wigna Ribeiro foi muito importante pra mim. Eu a escolhi justamente porque sinto que nós temos visões diferentes, mas que se complementam de uma forma muito perfeita pro que eu esperava do filme. Existe uma troca muito sensível entre a gente, porque ao mesmo tempo em que compartilhamos delicadezas parecidas, também conseguimos provocar novos caminhos estéticos uma na outra. Acho que uma consegue tirar a outra de um lugar de conforto de forma muito respeitosa e complementar.
Bendita pedia por uma construção muito íntima entre fotografia e arte. Às vezes um objeto, uma sombra, um quadro na parede ou a forma como a luz toca um espaço dizem mais sobre aquela personagem do que um diálogo inteiro.
O filme estreia justamente no novo equipamento cultural do Banco do Nordeste em Mossoró, localizado no Teatro Lauro Monte Filho, marcando um momento importante para a circulação do audiovisual local. O que representa para você lançar Bendita nesse espaço e, possivelmente, inaugurar esse novo ciclo cultural da cidade?
MM: Pra mim, existe algo muito simbólico nisso tudo acontecer justamente nesse espaço. O Teatro Lauro Monte Filho faz parte da minha trajetória afetiva e artística. Foi lá onde eu estreei como atriz de teatro, então voltar agora com Bendita, em outro momento da minha vida e da minha carreira, tem um peso emocional muito grande.
E acho muito importante que isso aconteça através do Banco do Nordeste. Porque o BNB tem uma importância histórica muito forte no fortalecimento da cultura nordestina e, principalmente, no incentivo a artistas e produções que muitas vezes acontecem fora dos grandes centros. Existe algo muito potente em ver um equipamento cultural desse porte sendo pensado dentro de Mossoró e abrindo espaço justamente para produções locais.
Acho que Mossoró vive há muito tempo uma necessidade de espaços que realmente acolham e fortaleçam a produção cultural local. Principalmente o audiovisual, que durante muitos anos foi construído muito na colaboração e na insistência de quem acreditava que era possível produzir cinema aqui.
Voltar pro espaço onde comecei artisticamente, agora lançando um filme tão íntimo e pessoal, dentro de um equipamento cultural apoiado pelo Banco do Nordeste, acaba tendo um significado muito forte pra mim.
Bendita foi realizado com uma equipe formada majoritariamente por profissionais do audiovisual mossoroense. Como você percebe o amadurecimento dessa cena local e o que esse filme representa dentro desse processo?
MM: Bendita representa muito esse amadurecimento do audiovisual mossoroense. Não só por ser um filme feito majoritariamente por profissionais da cidade, mas por ser construído principalmente por uma equipe muito feminina. E isso tem um significado importante pra mim, porque existe uma potência muito grande quando mulheres ocupam esses espaços de criação, técnica e decisão dentro do cinema.
Ao mesmo tempo, todas as pessoas que estavam ali foram escolhidas pela capacidade, pela sensibilidade e pela confiança que eu tenho no trabalho delas. Era um filme de baixíssimo recurso, com um cronograma extremamente apertado, então eu precisava estar cercada de pessoas realmente comprometidas em fazer aquilo acontecer da melhor forma possível.
E, apesar da correria, foi um set muito leve, atendendo a tudo que o filme pedia. Nós gravamos dentro de um seminário, que já era um espaço muito bonito, silencioso e rico esteticamente. Então existia uma necessidade muito grande de sintonia entre a equipe, porque o próprio ambiente foi conduzindo o ritmo do filme e da gravação.
Bendita foi gravado praticamente em uma diária e meia, o que é algo muito intenso pra um filme tão cheio de detalhes. Então existia uma relação de confiança coletiva ali. Todo mundo entendia o tamanho do desafio e, ao mesmo tempo, acreditava muito no projeto. Acho que isso também diz muito sobre o cinema que vem sendo construído em Mossoró: um cinema feito na colaboração, na resistência e na vontade genuína de criar, mesmo diante das limitações.
O curta foi realizado com recursos da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB). Em um contexto ainda marcado por limitações estruturais para o cinema no interior, como você percebe o impacto dessas políticas públicas na possibilidade de continuidade do audiovisual potiguar?
MM: Eu acho impossível falar sobre continuidade do audiovisual no interior sem falar sobre políticas públicas de cultura. Durante muito tempo, fazer cinema em cidades como Mossoró significou trabalhar exclusivamente na colaboração e no esforço pessoal de artistas que acreditavam na potência das suas narrativas sem nenhuma estrutura adequada.
E, ao mesmo tempo, acho importante também não romantizar essas dificuldades. Bendita foi realizado através da PNAB municipal, e esse recurso foi muito importante para que o filme pudesse existir. Mas ainda estamos falando de um orçamento muito pequeno para a complexidade que é realizar cinema. Foram dez mil reais que praticamente cobriram apenas os custos da equipe.
Isso abre uma reflexão importante sobre valorização profissional. Porque existe uma tendência muito forte de achar que, no audiovisual do interior, as pessoas fazem cinema “por amor à arte”, quando na verdade estamos falando de profissionais extremamente capacitados, que estudam, trabalham, pesquisam e constroem uma cena cultural inteira sem o reconhecimento financeiro adequado.
Bendita foi construído por uma equipe muito comprometida, muito talentosa e que acreditou profundamente no projeto mesmo diante das limitações orçamentárias e do desafio enorme de gravar um filme inteiro praticamente em uma diária e meia.
Mas eu acredito que políticas públicas como a PNAB seguem sendo fundamentais justamente porque ajudam a nos manter existindo e resistindo. Permitem que artistas continuem criando, que equipes continuem trabalhando e que histórias produzidas a partir do nosso território possam existir. E acho que fortalecer o audiovisual potiguar também passa por entender que cultura é trabalho, é profissão e precisa ser tratada com dignidade.
Bendita parece falar sobre aquilo que permanece mesmo diante do tempo, da distância e das incertezas. Que tipo de sentimento ou reflexão você espera deixar no espectador após a sessão?
MM: Acho que eu quero que Bendita deixe uma sensação de permanência e de reconhecimento. Que as pessoas saiam da sessão entendendo que existe um cinema sendo feito em Mossoró, e um cinema feito com muita técnica, empenho, sensibilidade e delicadeza. Existe uma cena artística muito potente na cidade, existem profissionais extremamente capacitados aqui, e eu quero muito que cada pessoa presente enxergue isso.
Principalmente as mulheres. Porque Bendita também nasce desse desejo de olhar para mulheres de forma humana, sensível e complexa, tanto dentro da narrativa quanto nos espaços de criação do próprio filme. Então eu espero que as pessoas consigam perceber a força dessas artistas que estão construindo cinema no interior com muita dedicação.
Também quero que o filme provoque uma reflexão mais afetiva sobre a fé. Sem estigmas, sem caricaturas ou julgamentos. Mas como um espaço de amor, entrega, cuidado e permanência. Porque a espiritualidade que me interessa em Bendita está muito mais ligada ao afeto e à presença do que a qualquer ideia rígida ou institucional.
E, no fundo, acho que eu desejo que o público saia tocado pelas pequenas coisas. Pelos silêncios, pelos gestos, pelos vínculos e por tudo aquilo que continua existindo mesmo quando o tempo passa e a vida muda de lugar.
Ao falar sobre Bendita, Mickaelly Moreira também fala sobre um modo de fazer cinema em Mossoró: colaborativo, atravessado pelas limitações de produção, mas sustentado por uma cena artística que segue encontrando formas de existir. Com uma equipe formada majoritariamente por profissionais locais, o curta reforça o amadurecimento do audiovisual mossoroense e a importância de políticas públicas para a continuidade dessas produções.Sem recorrer a grandes acontecimentos, Bendita aposta na observação dos espaços, dos sons e das relações construídas no cotidiano. É desse lugar que o filme organiza sua narrativa: acompanhando personagens que permanecem próximas mesmo quando atravessadas pela distância, pela ausência e pelo tempo.






