Por Thiago Galdino

Uma árvore que observa o mundo ao redor sem ser percebida. É a partir dessa perspectiva que o curta-metragem A Mesa constrói sua crítica à relação entre humanidade e natureza. Dirigido e roteirizado por Luiza Gurgel, o filme transforma a experiência cotidiana de uma praça em Mossoró em reflexão sobre crise climática, exploração ambiental e responsabilidade individual.

Na entrevista ao Cine Ninja, Luiza fala sobre o processo de criação do filme, a construção sensorial da narrativa, a escolha por filmar em espaços vivos da cidade e a articulação entre política, estética e território no audiovisual produzido fora dos grandes centros. A diretora também comenta a trilha sonora original, a presença de mulheres em posições de liderança na equipe e o desejo de que o curta provoque deslocamentos no olhar do público.

A mesa constrói sua narrativa a partir de um ponto de vista pouco usual: uma personagem que observa o cotidiano, mas não é percebida por ele. Como surgiu essa escolha de deslocar o olhar para uma presença invisibilizada?

Luiza Gurgel: A Mesa pode, na verdade, tornar-se uma grande metáfora, talvez. Não só porque retrata uma árvore como protagonista, mas também por poder significar tudo aquilo que existe – muitas vezes, que é necessário e importante, como o que se passa no filme -, mas que pode não ser percebido (seja inconsciente ou conscientemente). O primeiro estalo que me deu para a ideia que, anos depois, virou este filme foi o acontecimento de uma derrubada de uma árvore centenária num bairro de São Paulo/SP, há alguns anos. Lembro muito bem que acompanhar a revolta de ativistas, moradores e moradoras da região, ambientalistas, simpatizantes da causa, pelas mídias sociais foi o grande motor para o filme. E eu me questionava muito acerca do porquê de aquilo estar acontecendo – mesmo não conhecendo aquela árvore específica. E assim o capitalismo vai consumindo e implodindo tudo: é uma floresta que é desmatada para virar tapete para o agronegócio; é um prédio histórico que é demolido para virar estacionamento; ou um rio que é morto para seguir o curso definido pelo homem. 

O filme nasce de um incômodo com a hipocrisia humana diante da natureza. Em que momento esse incômodo deixou de ser apenas uma reflexão e se tornou linguagem cinematográfica?

LG: Tudo é passível de ser cinematográfico, e isso é o mais legal do cinema e da arte como um todo. A questão é como isso, sendo retratado num filme, pode colaborar para a transformação do e no mundo real. Esse fator é o que me deixa mais entusiasmada ao fazer cinema e arte em geral e é o que faz mais sentido para mim, particularmente, enquanto artista. Um dia, entrevistando o diretor de cinema Carlos Segundo para o Festival de Cinema Alternativo de Mossoró (FACIM), aqui em Mossoró/RN, deparei-me com uma resposta dele que me tocou profundamente. Na ocasião, o convidado disse que, em seus filmes, busca provocar pequenas revoluções. E ao saber disso, de fato, é possível encontrar essas pequenas revoluções em cada obra dele. Vira uma identidade. Acho que é bem por aí, sabe? Não vejo sentido em fazer um filme (ou outra manifestação artística) que não reaja, mesmo que minimamente, na sociedade e no mundo. Tem que ter um objetivo. É nesse ponto que o que surge de um incômodo meu a partir de uma reflexão vira filme. Tudo (ou quase tudo) que se vê reproduzido numa obra cinematográfica acontece na vida real – às vezes, não literalmente, mas metafórica ou paralelamente. O ponto de virada vai ser como transformar isso em cinema. E, aqui, eu assumo, tem muito incômodo guardado dentro de mim. Quem sabe cada um deles vira filme um dia (risos). 

A personagem central parece condensar uma crítica ao modo como a natureza é tratada — útil, explorável, quantificável. Você pensou essa figura como alegoria? Ou ela se constrói mais pela experiência sensorial do filme?

LG: Olha, a protagonista de A Mesa não foi pensada para ser uma alegoria, mas bem que se encaixa também, viu? A ideia foi mesmo construí-la nesse contexto do sensorial, trazendo uma sensação quase que empírica, buscando causar uma relação de proximidade e identificação do público para com a personagem principal. Foi justamente a partir disso que todas as outras particularidades do filme foram pensadas: cor, som, fotografia, etc. Quem tiver a chance de assistir à obra vai conseguir perceber bem isso. A forma como a protagonista conversa com o público e reage diante do que se sucede ao seu redor, revelando, inclusive, traços de sua personalidade, fazem com que o público vá sendo conquistado por ela ao longo da trama, criando um elo, uma relação afetuosa, de carinho e empatia. Paralelo a isso, a personagem vai revelando, tanto pelo que ela fala quanto pelo que ela mostra, atitudes e ações de repugnância do ser humano, colaborando ainda mais para o objetivo da obra. 

Há uma decisão forte de filmar em espaços reais e em fluxo — especialmente na Praça do Rotary — incorporando o cotidiano como parte da narrativa. Como você trabalhou essa fronteira entre controle e imprevisibilidade?

LG: Muito bacana essa pergunta. Eu sou uma pessoa que naturalmente já gosta da imprevisibilidade das coisas. Acredito que tem uma beleza e uma força poética descomunal naquilo que não está previsto, sabe? Esse caráter foi fundamental para a narrativa de A Mesa, porque, como a ideia era mostrar o dia a dia de uma praça, nada melhor do que registrá-la como ela é efetivamente, com seus ruídos sonoros, seus visitantes fiéis e a poluição visual que constitui aquele lugar. Até porque a ideia era que a personagem central existisse tal qual como na vida real. Claro que tivemos que trabalhar o controle do espaço também – não estou dizendo que aceitar e acolher a imprevisibilidade é suficiente para construirmos um filme assim. Foi necessário todo um estudo acerca de localidade, iluminação, meteorologia, horários de pico de movimentação da praça de acordo com a cena a ser gravada e muitos outros elementos. Um exemplo disso foi um episódio em que tivemos que pedir para o estabelecimento ao lado baixar um pouco o som que estava sendo reproduzido no local na hora da gravação. Naquele instante, a imprevisibilidade teve que ser controlada (risos). Mas deu tudo certo! Ou um andarilho que passava na frente da câmera enquanto tudo estava sendo filmado. São coisas que acontecem. O segredo do limiar entre o controle e a imprevisibilidade foi mesmo respeitar a vida da praça, com suas belezas e seus horrores. 

O filme propõe uma crítica ambiental, mas também trabalha essa questão pela linguagem. Como você pensou esse equilíbrio entre posicionamento político e construção estética?

LG: Tudo na minha vida nasce de um posicionamento político. Viver em sociedade, exercer a cidadania, é quase sinônimo disso. Existir requer coragem, né? E isso atravessa diretamente o existir politicamente também. A questão é como transpor isso em outros elementos, comunicações e linguagens de uma forma em geral, como num filme. E, mais ainda: como fazer isso atraindo tudo e todos para o consumo da obra e, consequentemente, para a reflexão da mensagem por trás da narrativa. Tudo o que construímos ao longo das nossas vidas enquanto seres humanos e sujeitos subjetivos compõe o que nós somos no presente e no futuro, por isso, pensar e produzir A Mesa não haveria de ser diferente. A construção estética, neste caso, colabora para o posicionamento político intrínseco na obra. Posicionamento este que ultrapassa quaisquer limites ideológicos, uma vez que as consequências das ações do homem, escrachadas no curta-metragem, afetam diretamente a vida humana. Dessa forma, o equilíbrio entre a estética e os ideais políticos presentes na obra aplica-se muito mais na vontade de abarcar o máximo de pessoas, justamente para que a conscientização de si, do mundo e, principalmente, do meio ambiente, faça sentido.

Foto: Divulgação
Luiza Gurgel. Foto: Divulgação
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A paleta de cores acompanha transformações da narrativa — da vitalidade à ruptura, até chegar a tons terrosos. Em que medida essa construção visual foi pensada desde o roteiro?

LG: Sem sombra de dúvidas, desde o início do processo e em total colaboração com a construção do roteiro. A ideia central do meu filme A Mesa, desde quando estava pré-estabelecida (ainda na minha cabeça), já continha uma questão visual e estética predefinida. As cores, os efeitos de imagem e de som, já surgiam quase paralelamente às palavras do roteiro. É porque realmente são elementos que contam a história junto com a história em si, e, nesta obra, foram imprescindíveis para a subjetividade da narrativa. As cores do filme passam por quatro fases – algumas delas, inclusive, podem ser até despercebidas. Cada qual acompanhando o objetivo de cada cena.

LG: A trilha é algo interessante de se discorrer. Eu sempre gostei de escrever, e tinha uma poesia guardada escrita há pelo menos um ano. Quando A Mesa começou a se tornar realidade, a ser algo concreto de se produzir e sair do papel, eu gostaria de ter a experiência de ter uma trilha original. Foi aí que me veio aquela poesia guardada, que veio a se tornar a canção que permeia todo o curta-metragem. Ainda quase não se tratava de um mero poema, aquelas palavras tinham um ritmo na minha cabeça, um ritmo de coco (que, por sinal, é um dos que eu mais consumo). Peguei o celular, chamei meu companheiro e começamos a devanear em como aquela música poderia ficar (tenho esse registro improvisado até hoje, inclusive (risos)). Após isso, já na pré-produção do filme, convidei Romero Oliveira para assumir a direção musical junto comigo e, enquanto eu ia traduzindo o que eu queria, ele ia dando sugestões e me provocando a como tornar aquele som ainda mais contemporâneo. No final das contas, A Mesa é costurado por uma música que mescla o coco com o beat, o passado com o futuro, o rural com o urbano, o sertão com o litoral, e que emerge quase como uma manifestação de urgência: “o jeito é me virar bicho para tentar sobreviver, pois viver com tudo isso me fazendo morrer”. Ou seja, do jeito que está, não dá mais. Sobrevivendo nesse mundo, só virando bicho. E, de verdade, fiquei extremamente feliz com o resultado da canção. A mistura dos instrumentos, as vozes mulheristas, nasalizadas (que remetem às lavadeiras), a letra forte, grande e contínua, como coisa que não tem fim, tudo na trilha, no final, colaborou para o enredo do filme. E é nesse sentido que também se fortalece o território. Estamos falando de sertão. Sertão nordestino. Sertão potiguar. Lugar onde não se tem apenas fome, seca e ignorância – contexto em que nós somos inseridos quase que à força e estereotipados há anos. Por aqui, também se tem água (e muita), natureza, pessoas boas e pessoas ruins, hipocrisia, empatia e conscientização. E não deixamos de ser sertão por isso. Tudo isso está na música sem precisar falar que está. E, para mim, no final, a trilha ficou um produto à parte, completo e único. E eu estou louca para divulgá-la no Spotify! Logo, logo, vocês terão acesso a ela na íntegra nas plataformas digitais! Fiquem ligadas e ligados. 

Sua trajetória passa por diversas linguagens — dança, teatro, música, audiovisual. Em A mesa, essas experiências aparecem mais no corpo, no ritmo ou na composição das imagens?

LG: Eu acredito que em A Mesa, a artista Luiza, que normalmente está à frente das câmeras, assume e incorpora esse papel de diretora mesmo, silenciando mais para si e administrando mais o todo, entende? Eu sei que eu, artista, também estou ali atuando no filme com a minha voz, mas eu me senti, neste processo, menos como protagonista e muito mais como uma espécie de mãe; de guia de uma caminhada que não era só minha. Por isso, respondendo à pergunta, vejo que as minhas experiências surgem menos no corpo e mais nos aspectos que requerem a subjetividade das palavras e da mente, como o ritmo, a narrativa e as imagens. Se estivéssemos falando de uma corrida, por exemplo, o ponto-chave seria em como aconteceria a chegada. Para isso, o pensar do processo seria meticuloso, delicado e altamente ruminado. Nesta produção, me virei do avesso de mim para me ocupar do melhor para a obra final.

A produção mobiliza majoritariamente profissionais locais e uma equipe com forte presença feminina em posições de liderança. Isso foi uma decisão estética, política ou estrutural — ou as três coisas ao mesmo tempo?

LG: Com certeza, as três ao mesmo tempo. Estética, por querer um olhar mais cauteloso, responsável e profissional em cada pequeno detalhe (literalmente. O detalhe fez toda a diferença). E além de que o fato de ter majoritariamente profissionais locais na produção permite que o filme seja construído de forma coesa, já que toda a equipe divide a mesma experiência do viver e morar na cidade. Estrutural, pois se consolida como uma obra genuinamente nossa – potiguares e mossoroenses -. E política, uma vez que ter profissionais da cidade de Mossoró/RN na equipe de um filme e mulheres ocupando funções de liderança no cinema é, por si só, um ato político. Até hoje, ronda-se, de forma nebulosa, a ideia de que não se faz audiovisual, e mais, não se tem profissionais capacitados na área, em territórios nordestinos. Imagine numa cidade do interior potiguar. A manutenção do controle de poder que se reproduz na indústria cinematográfica centraliza o fazer audiovisual no eixo RJ-SP, carimbando os sudestinos como últimos capazes e qualificados para tal. No entanto, sabemos o quão ultrapassada essa ideia já é – sempre foi. A reparação aqui perpassa a questão das políticas públicas, ainda discrepantes em todo o país. Assim, os resultados continuam discrepantes. Diante disso, quando se assume e se agarra na ideia de produzir um filme com uma equipe totalmente local e liderada por mulheres nos mais variados setores dentro, a gente quebra esse ciclo de incapacidades e desejos frustrados, colocando esses públicos como protagonistas dos seus próprios sonhos. Isso é política: é você não conseguir enxergar possibilidades, mas mesmo assim insistir em encontrar. 

A Mesa fala sobre crise climática, mas também sobre responsabilidade individual. Que tipo de deslocamento você espera provocar no espectador após o filme?

LG: Espero que o público se desloque para o local da conscientização. Mesmo sabendo que aquela pessoa provavelmente não irá mudar o mundo, se ela já se sentir tocada, sobretudo, sobre si mesma, eu já fico feliz e satisfeita. O filme terá feito sentido. Eu realmente desejo que A Mesa chegue no máximo de lugares, espaços e pessoas, e que elas entendam a mensagem do curta. Assumirmo-nos hipócritas é o primeiro passo para o processo de conscientização ambiental e humana. Depois disso, é pensarmos em como podemos mudar o dia de amanhã. Eu espero, também, que o público entenda a obra não só como um apelo ambiental, mas sobre tudo o que prejudicamos enquanto seres humanos. E que, inclusive, apresenta-se em pequenos detalhes do dia a dia – como revela o filme. É mesmo sobre “responsabilidade individual”, como você falou na pergunta. A Mesa busca colocar o espectador frente a frente com ele mesmo, fazendo-o refletir sobre qual o futuro que ele está construindo para si e para o planeta. Que o silêncio pós-filme reverbere como protesto. 


Entre o sensorial e o político, A Mesa propõe uma reflexão sobre as formas de convivência entre humanidade e natureza, utilizando o audiovisual como espaço de inquietação e questionamento. Ao transformar uma árvore em protagonista e Mossoró em parte essencial da narrativa, Luiza Gurgel constrói um filme que dialoga com questões ambientais sem abrir mão da experimentação estética, da musicalidade regional e da valorização do cinema produzido no interior do Nordeste.