Por Nicole Adler

Entre a tradição e a invenção, o novo álbum Isto dando Samba, de Ajítẹnà Marco Scarassatti, surge como um gesto de escuta radical que desloca o samba de seus contornos mais reconhecíveis para um território expandido e experimental, sendo lançado pelo selo Outra Música. Com trajetória que atravessa a composição, a pesquisa sonora e a educação, o artista propõe aqui uma obra que tensiona os limites entre oralidade e escrita, tradição e ruptura, reunindo um coletivo diverso de vozes e instrumentistas. O disco está à venda em vinil no Bandcamp e disponível em todas as plataformas digitais desde terça-feira, 7 de abril.

Concebido ao longo do período pandêmico, o projeto parte da ideia de áudio-partitura como dispositivo criativo: um convite à escuta ativa que orienta, mas não determina, os gestos musicais. A partir desse método, nomes como Juçara Marçal, Negro Leo e Inés Terra integram uma rede de colaborações em encontro, e o resultado é uma paisagem em que o samba aparece menos como forma fixa e mais como espírito, afirmando-se como um campo vivo de experimentação.

Capa do álbum ‘Isto dando Samba’. Foto: Divulgação

O projeto e a origem do álbum: a áudio-partitura como método de criação

Ajítẹnà Marco Scarassatti constrói uma trajetória que transita entre a composição musical, a improvisação e a pesquisa em arte sonora, consolidando-se como um “artista da escuta”. Professor de Composição na UFMG, sua atuação também se estende ao campo acadêmico e editorial, sendo autor de livro sobre Walter Smetak, figura central para pensar a experimentação sonora no Brasil. Ao longo dos anos, Scarassatti tem desenvolvido projetos que articulam música, pensamento e espiritualidade, como Orixás Sonoros e Escutas do fim do mundo: Música e Arte Sonora no Antropoceno, nos quais investiga as relações entre som, cosmologia e contemporaneidade.

Antes de Isto dando Samba (2026), seu trabalho já apontava para uma prática que desafia formatos convencionais de composição, privilegiando processos colaborativos e a escuta como dispositivo criativo. Sua experiência como coordenador no Formação Intercultural para Educadores Indígenas (FIEI/UFMG) também atravessa sua produção, incorporando dimensões de oralidade, coletividade e escuta expandida.

Ajítẹnà Marco Scarassatti. Foto: Reprodução/Bandcamp

O ponto de partida de Isto dando Samba está na elaboração de um método que desloca a lógica tradicional da composição musical: a áudio-partitura. Desenvolvido durante o período de isolamento da pandemia, o recurso consiste em um registro sonoro que orienta, mas não fixa, a criação dos participantes, funcionando como um guia aberto para intervenções e improvisações.

Ao priorizar a escuta em vez da escrita, Scarassatti propõe um processo que recupera a oralidade como eixo estruturante, permitindo que diferentes artistas dialoguem a partir de um mesmo disparador sonoro, sem a necessidade de compartilharem o mesmo espaço ou tempo. Nesse deslocamento, a composição deixa de ser um gesto individual e fixo para se tornar um campo relacional, em que o som circula e se transforma.

Um álbum construído em rede

Nessa lógica de criação compartilhada, o álbum se estrutura como uma rede de escutas e respostas, em que cada participação soma e transforma o material sonoro inicial. Sem a mediação de encontros presenciais, o processo se organiza a partir de trocas indiretas, nas quais os artistas dialogam com uma mesma áudio-partitura, mas não entre si. O resultado é um tecido coletivo que evidencia o caráter comunitário da obra, construindo dinâmicas mais orgânicas.

Essa rede se materializa na presença de um conjunto diverso de colaboradores, que atravessam diferentes campos da música e da arte sonora. Entre as vozes, destacam-se Juçara Marçal, Inés Terra, Negro Leo e Matéria Prima, enquanto instrumentistas como Flavia Goa, Felipe José, Gustavo Infante, Dudu Pinheiro, Jhonata Cardoso, Marcos Campello, Antônio Beirão, Marcos Alves, Rossano, Paulinho Bicolor e Yuri Vellasco constroem uma base rica em cordas e percussões associadas ao universo do samba. Soma-se ainda a participação de Mbé, na colagem sonora, ampliando as possibilidades tímbricas do disco.

As impressões dos artistas que integram Isto dando Samba revelam não apenas a diversidade de abordagens, mas também a força do processo coletivo proposto por Scarassatti. Para Juçara Marçal, o convite implicava um desafio conceitual e sensível: “Quando o Ajitena me chamou para participar numa faixa do disco ‘Isto dando samba’, criando algo que tivesse a ver com o samba, mas não explicitamente, me senti desafiada a encontrar nas melodias, na rítmica e nos temas o que era síntese, o que era fator determinante, o que era elemento chave quando pensamos em samba.” A cantora destaca ainda o caráter aberto e liberto do processo, realizado sem conhecimento das demais contribuições.

“O samba está presente no disco como marca inequívoca de sonoridade da música brasileira, mas também é (como sempre foi!) matéria de experimentação.”

Juçara Marçal (cantora e compositora)

Essa dimensão de liberdade também aparece no relato de Mbé, que enfatiza o caráter expandido da experiência artística: “O que sempre me motivou a trabalhar ou aceitar convites como esses era entender o quanto de liberdade existia para poder se criar uma experiência que vai além da conclusão do trabalho.” Ao destacar sua relação com Scarassatti, o artista aponta para uma conexão que atravessa música e ancestralidade: “Desde que conheço o Marco tive a oportunidade dessa troca musical e ancestral que temos em comum.”

Por fim, Negro Leo enfatiza tanto sua relação com o tempo quanto a admiração pelo trabalho de Scarassatti: “Eu sou um pouco avesso ao tempo das coisas que necessitam de certa presteza, porque sou assumidamente indolente, mas quando recebi o convite de mestre Marco […] não pude declinar, pela simples admiração que nutro pela sua arte.” Sobre o processo, ele aponta para uma adesão direta e intuitiva: “Peguei o áudio-partitura, instruído de que a coisa seria desdobrada, e dei rec. Nem pensei muito, porque, se uma coisa é batizada como ‘Isto dando samba’, eu sou brasileiro suficiente.”

Seis faixas, múltiplas camadas: o papel da escuta na composição

Dividido entre os lados A e B, o disco organiza suas seis peças como desdobramentos de um mesmo gesto de escuta. No lado A, “Isto dando Samba I”, “Isto dando Samba II” e “Isto dando Samba III” apresentam as primeiras camadas desse processo, enquanto o lado B — com “Isto dando Samba IV”, “Isto dando Samba V” e “Isto dando Samba VI” — aprofunda e tensiona as possibilidades abertas pelas interações iniciais.

Entre as seis peças, algumas se destacam pela forma como evidenciam o método e a potência do encontro sonoro. Em “Isto dando Samba I”, por exemplo, a montagem revela um jogo de escutas cruzadas: “escutei um jogo não coincidente, entre a cuíca do Paulinho Bicolor e a fricção gutural que a Inés fazia”, afirma Ajítẹnà Marco Scarassatti ao descrever a construção da faixa. A presença de Juçara Marçal, com um canto que ele define como “ritualístico”, e a entrada do trompete de Marcos Campello ampliam o campo de referências, levando a peça a um território híbrido — “como um regional fazendo música de câmara, um samba encontrando um jazz”.

Já em “Isto dando Samba II”, o processo ganha contornos ainda mais experimentais: diante da intervenção de Matéria Prima, que rompeu a duração proposta, Scarassatti reconfigura o material — “fui picotando os versos gravados do Matéria e passei a criar beats com eles” — aproximando a faixa de uma lógica de remix e colagem. Em contraste, “Isto dando Samba III” assume uma dimensão mais radical, sendo descrita como “o mais exúnico de todos”, marcada pelo improviso de Negro Leo.

“Isso tudo me levou a montar a composição dessa faixa de uma forma mais fragmentada, mas com evocações especiais do samba, como uma escola em construção.”

Scarassatti (sobre “Isto dando Samba III”)

No lado B, “Isto dando Samba IV” aparece como núcleo gerador do projeto: “Essa faixa é que deu origem ao todo”, afirma Scarassatti, destacando o papel central da cuíca de Paulinho Bicolor e a condução de Juçara Marçal, cujo improviso “assumiu a condução da peça de maneira magistral”. A faixa também evidencia o caráter mutável da instrumentação, com o violão de sete cordas de Flavia Goa sendo transformado digitalmente e a inclusão posterior do baixo elétrico.

Em “Isto dando Samba V”, a dimensão da colagem se intensifica com a participação de Mbé, que, “trazendo do canto gutural pigmeu ao sax do Brötzmann”, contribui para que a peça “virasse uma peça de rádio-arte”, além de explicitar a própria áudio-partitura como elemento sonoro. Por fim, “Isto dando Samba VI” retoma o diálogo entre Negro Leo e Felipe José, criando a sensação de improviso simultâneo: “Deu a impressão de que os dois estavam improvisando no mesmo ambiente, um escutando o outro”. Nessa faixa, “o samba e a improvisação correm como um rio”, sintetizando o princípio que atravessa todo o álbum: a escuta como força organizadora de uma composição em constante movimento.

Ao fim, Isto dando Samba reafirma a escuta ativa não apenas como ferramenta, mas como princípio ético e estético da criação musical. Mais do que o simples “ouvir”, trata-se de uma escuta que implica atenção e abertura — um gesto que desloca hierarquias e se abre ao imprevisto. Nesse sentido, o álbum propõe uma inversão sutil, porém decisiva: é a escuta que organiza o som, e não o contrário.