João Menezes e Paulo Novaes misturam universos e fazem do encontro uma “Coisa Híbrida”
Projeto nasce da fusão entre trajetórias e linguagens, aproximando dois mundos musicais em um mesmo território criativo
Por Nicole Adler
O que acontece quando dois artistas de percursos distintos resolvem dividir o mesmo processo criativo? De um lado, João Menezes, ligado a uma pesquisa mais experimental, sensorial e aberta a camadas sonoras. Do outro, Paulo Novaes, com trajetória marcada pela canção, pela escrita direta e pelo diálogo com a tradição da MPB contemporânea.
É desse contraste que nasce um ponto de encontro. “Coisa Híbrida” (2026) é o resultado inicial dessa aproximação — um álbum, mas também um projeto em expansão. Com dez faixas e cerca de 25 minutos de duração, o disco, lançado em 27 de janeiro, nasceu de uma imersão dos músicos em uma casa de praia em Ubatuba (SP).

O ponto de fusão: o encontro criativo entre Paulo Novaes e João Menezes
Em entrevista, Paulo Novaes relata que teve o primeiro contato com as letras de João Menezes durante um show de Bruno Berle e que, desde então, ficou profundamente encantado com suas canções. Apesar de não saberem ao certo quando começaram a conversar, a colaboração entre os músicos tomou forma em 2023, a partir da primeira composição feita em conjunto. Durante um voo de retorno do Acre, após a gravação do álbum TXAI BAND (2024), Paulo recebeu um áudio de Menezes com parte de uma letra que acabaria se transformando na primeira composição da dupla, “Tudo Pode Ser Depois”. A faixa integra Costume, álbum solo que João lança em abril pelo Selo Risco, com produção de Bruno Berle e Gui Jesus Toledo.
A parceria se desenvolveu de maneira orgânica, transformando-os em colaboradores próximos e amigos. Desse convívio nasceram diversas composições até que, após o primeiro show juntos, surgiu naturalmente a decisão de registrar o encontro em um disco. Esse modo de criação colaborativa já se consolidou no processo artístico de Paulo Novaes, que, nos últimos anos, tem se dedicado a uma série de trabalhos conjuntos — entre eles, a parceria com Ítalo França, cujo álbum ele atualmente produz.
“Eu também componho muito sozinho, só que eu acho que tô encontrando os parceiros da minha vida agora, por isso eu sinto como se estivesse recomeçando a carreira.”
— Paulo Novaes
O processo de composição mantém a mesma organicidade que marcou o encontro entre os músicos, evidenciando um papel quase “vocacional” que cada um assume na criação: “Digamos assim, 70% das harmonias e melodias são mais minhas, com interferências do João — coisas que ele propôs. E 70%, mais ou menos, das letras são do João, com apontamentos meus e tal”. A foto abaixo, registrada por João Medeiros, parece ser a iconografia perfeita desse gesto de criação compartilhada.

O álbum “Coisa Híbrida” e seus desdobramentos
Tratando do álbum, Coisa Híbrida reúne dez faixas em cerca de 24 minutos de duração: “Clarita”, “Sempre que penso em você”, “Respiração de um monge”, “Passarinho alerta”, “Naomi”, “Deus é uma Mãe”, “Uma canção”, “Bem pertinho do céu”, “Covarde” e “Tiziu” — sendo as duas últimas, declaradamente, as que recebem um afeto particular por parte dos músicos.
Lançado pelos selos Esfera e Loco Records, o disco se insere no campo da MPB contemporânea, com forte inclinação ao folk. Participam também do trabalho músicos como Gabriel Altério, Guegué Medeiros, Vitor Arantes e Nyron Higor. A mixagem ficou a cargo de Tó Brandileone, enquanto a masterização foi realizada por Fred Pacheco. A gravação ocorreu em Gargolândia, e o projeto visual conta com fotografia de Bruno Mamede e arte de capa assinada por Mariana Andrade.

O nome — que veio depois de as músicas já estarem prontas — representa justamente essa mistura, abordada anteriormente, de dois universos, referências, percepções e visões de mundo distintos: Paulo Novaes, de São Paulo, branco, sudestino, mais velho; e João Menezes, de Alagoas, preto, nordestino, mais jovem. Gravado no litoral paulista, em Ubatuba, numa casa no meio do mato, de frente para a praia, o disco encontra no próprio espaço de criação o seu eixo de ligação: surgem, então, recorrências como os passarinhos (caso de “Passarinho Alerta” e “Tiziu”), o luar e o mar.
No que diz respeito às letras, é possível evocar uma técnica amplamente explorada na literatura: o fluxo de consciência. Trata-se de um modo de escrita que busca acompanhar o pensamento em seu estado mais bruto e contínuo, sem necessariamente obedecer a uma lógica linear ou a uma narrativa tradicional. Essa concepção aparece também na fala de Paulo Novaes em entrevista: “No meio do mato, uma coisa colorida, maravilhosa, tava chegando o carnaval, e é isso. A gente tá narrando essa cena de maneira… sabe? Mudando a sílaba tônica das coisas propositalmente, pra causar esse estranhamento, essa brincadeira”.
Desse hibridismo nasce também uma perspectiva de continuidade: a dupla sinaliza que o encontro não se esgota neste projeto. Além de já atuarem juntos na produção musical de outros artistas, Paulo Novaes e João Menezes acumulam novas colaborações em andamento. Entre os planos, está a realização de um próximo álbum, possivelmente ainda mais aberto ao diálogo com outros nomes, ampliando o caráter coletivo que já atravessa Coisa Híbrida. No limite, o disco deixa de ser um ponto de chegada e passa a funcionar como um gesto inaugural — uma obra que não se encerra em si, mas que aponta, desde já, para tudo aquilo que ainda pode vir a ser.



