Por Alessandra Costa*

Fotos: Katie Maehler / Mídia NINJA

“Quando eu engravidei, um dos meus maiores medos e receios era que meu filho não tivesse pai, não tivesse a presença paterna. Isso me incomodava muito, até porque eu tive uma gestação solitária, sem nenhum apoio, seja moral ou financeiro, do pai biológico”, lamenta uma mãe que enfrentou o abandono paterno durante a gestação.

“Eu sei o quanto o meu abandono paterno refletiu na minha gestação, o quanto isso me trouxe — e ainda traz — inseguranças em relação à criação do meu filho. Sempre soube que não ia conseguir fazer o papel de pai. Algumas mulheres entram nessa de querer suprir, mas desde sempre deixei isso claro. Isso se tornou uma situação que mexe comigo até hoje. A falta da estrutura familiar, de me sentir sozinha… e, no meu caso, o que mais pesa não é o financeiro, é o apoio psicológico e emocional mesmo”, completa.

Quantas Martas, Cecílias, Renatas e Patrícias já fizeram exatamente esse relato? Ele é mais comum do que se imagina. Esse é o meu relato: o de Alessandra Costa, mãe do Dayo, que passou por um episódio de abandono paterno — situação que vem aumentando a cada ano no Rio e que, possivelmente, é um retrato do Brasil.

A 5ª edição do Mapa da Mulher Carioca, realizada pela Secretaria Municipal de Políticas para as Mulheres do Rio de Janeiro e publicada nesta terça-feira (03), escancara uma realidade que atravessa gerações: em cinco anos, os casos de abandono paterno cresceram 25% na cidade do Rio de Janeiro.

Os números confirmam o que tantas mulheres já vivem em silêncio. Não se trata apenas de ausência financeira. É a ausência na consulta médica, na reunião da escola, na madrugada febril, na decisão difícil. É o silêncio onde deveria haver parceria. É a sobrecarga emocional que transforma mulheres em estruturas inteiras: base, teto e parede.

O abandono paterno não começa no registro civil em branco. Ele começa na gestação solitária, na mensagem não respondida, na responsabilidade negada. E seus efeitos não terminam na infância. Eles ecoam na autoestima da criança, na forma como ela entende afeto, compromisso e pertencimento. Ecoam também na mãe, que carrega o peso de ser suficiente em dobro, mesmo sabendo que ninguém deveria criar um filho sozinha.

Falar sobre isso não é promover guerra entre homens e mulheres. É cobrar responsabilidade. É reconhecer que paternidade não é favor, é dever legal, moral e afetivo. É também exigir políticas públicas que amparem essas mães e garantam às crianças o direito à convivência e ao cuidado.

Muito mais do que apenas registrar, é fundamental que o pai assuma o filho em sua integralidade, exercendo de forma concreta e responsável o seu papel paterno. Ter o nome no registro é importante, mas é imprescindível que a criança e a mãe saibam que o genitor está verdadeiramente presente, oferecendo apoio, cuidado e compromisso sempre que precisarem.

O Mapa não traz apenas estatísticas. Ele traz rostos, histórias, noites sem dormir e mulheres que seguem, apesar de tudo. Que o dado publicado nesta terça-feira não seja só mais um número em um relatório. Que ele seja ponto de partida para um debate sério, para ações concretas e para uma cidade que entenda que abandono paterno não é um problema privado: é uma questão social.

Porque quando um pai vai embora, não é só a mãe que fica.
Fica uma criança tentando entender por que, às vezes, o amor falha.

*Alessandra Costa é jornalista e atua na área de assessoria de imprensa nos segmentos da cultura, terceiro setor e política.