Por Thiago Galdino

O curta-metragem Umbuzeiro, dirigido por Emílio Ribeiro e roteirizado em parceria com Camila Paula, propõe uma abordagem sensível e ética sobre as marcas duradouras da violência contra a mulher. Em vez de representar o ato violento, o filme se concentra em suas consequências psíquicas, explorando a memória fragmentada, o silêncio e a permanência do trauma ao longo do tempo.

Ambientado em um casarão antigo no interior do Nordeste, o curta constrói uma atmosfera marcada por luz rarefeita, espaços fechados e uma temporalidade suspensa. A narrativa acompanha uma mulher idosa que vive reclusa, cercada por lembranças e lapsos, mas que permanece agente de sua própria história. A obra articula estética e posicionamento político ao tratar de um tema delicado sem recorrer à espetacularização ou à vitimização.

O filme dialoga com a tradição do chamado “gótico feminino”, transformando a casa em extensão simbólica do corpo e da subjetividade da protagonista. Ao mesmo tempo, reafirma um cinema nordestino autoral, comprometido com o território, com a memória e com questões estruturais que atravessam gerações.

Realizado com a parceria da PROEX/UERN, do Cineatro/UERN e do BNB Cultural Mossoró, além do apoio de instituições locais, Umbuzeiro evidencia a importância da articulação entre universidade, produção independente e redes culturais para o fortalecimento do audiovisual no interior do Nordeste.

Umbuzeiro aborda a violência contra a mulher a partir de suas consequências psíquicas e duradouras, e não do ato em si. Como foi construir essa narrativa a partir da memória fragmentada e do trauma, evitando tanto a espetacularização quanto a vitimização da personagem? 

Camila Paula: Para construir Umbuzeiro, partimos do entendimento da violência contra a mulher como algo que se estende para além da vítima e do ato em si. O trauma que se manifesta de forma fragmentada, por meio de lapsos, silêncios e repetições, e não como um relato linear ou explicativo, demonstra que a violência não é um fato pontual e de experiência individual, mas um retrato cruel de como a sociedade patriarcal se estrutura e se sustenta no atravessamento de trajetórias e gerações. O roteiro foi estruturado nesse ritmo quebrado da memória, permitindo que o passado emerja de maneira indireta, expondo o que nunca foi dito pela personagem, como também não é dito por muitas mulheres que sofrem violência, ainda que as marcas da violência não desapareçam. Optamos por não representar o ato violento, mas seus efeitos persistentes no corpo, no espaço e no cotidiano da personagem.

E, para não cair na vitimização, buscamos construir uma figura feminina complexa, que carrega marcas profundas da violência, mas que também age, escolhe ficar. Essa abordagem foi, acima de tudo, uma decisão ética e estética: tratar o tema com respeito, recusando o choque fácil e apostando na força da resistência.

Emílio, você é professor de Língua e Literatura de Língua Inglesa na Universidade do Estado do Rio Grande do Norte e também atua com estudos sobre literatura gótica e adaptações fílmicas. Como esse percurso acadêmico e docente dialoga com as escolhas estéticas e narrativas de Umbuzeiro?

Emílio Ribeiro: Meu percurso como pesquisador do gótico dialoga diretamente com Umbuzeiro sobretudo na forma como penso a narrativa como espaço de memória, trauma e silêncio. A literatura gótica sempre me interessou menos pelo excesso do sobrenatural e mais pela capacidade de materializar conflitos psíquicos em espaços, objetos e atmosferas. Em Umbuzeiro, essa herança aparece na centralidade da casa como lugar opressivo, na presença do passado que insiste em retornar e na construção de uma temporalidade marcada por fragmentos, lapsos e repetições.

As adaptações fílmicas que estudo academicamente também influenciaram minhas escolhas estéticas, especialmente na tradução de estados emocionais em imagens: o uso da luz, da sombra, do enquadramento e do ritmo narrativo busca expressar aquilo que não é verbalizado. Como docente e pesquisador, estou acostumado a pensar o cinema como linguagem, e isso me levou a privilegiar uma narrativa sensorial e poética, em que o não dito tem tanta força quanto a palavra.

O filme se aproxima do chamado “gótico feminino”. Como você articulou essa estética com a realidade do Nordeste e com a experiência concreta de mulheres que atravessam silêncios, medo e isolamento?

Camila Paula: A aproximação com o chamado “gótico feminino” surgiu da necessidade de pensar o medo, o silêncio e o confinamento como experiências vividas no cotidiano. Essa estética foi trabalhada a partir da casa como espaço ambíguo: lugar de abrigo, mas também de controle, vigilância e isolamento, especialmente para as mulheres.

Esses espaços intensificam a sensação de clausura e dialogam diretamente com a experiência de mulheres que atravessam silêncios impostos, medo e solidão. Inseridos no contexto do Nordeste — com interiores escuros, calor e isolamento — esses elementos fazem do gótico uma linguagem enraizada no território e na vivência cotidiana, e não uma abstração estética.

O filme foi gravado no Casarão da Fazenda Trigueiro, em Pereiro (CE). Como o espaço físico contribuiu para a construção da atmosfera opressiva e para o ritmo marcado por silêncios e luz rarefeita?

Emílio Ribeiro: O Casarão da Fazenda Trigueiro foi essencial para a construção da atmosfera opressiva de Umbuzeiro porque carrega, em sua própria arquitetura, marcas históricas de controle e confinamento.

No Casarão da Fazenda Trigueiro, em Pereiro, a luz rarefeita e a escassez de aberturas naturais reforçam um ritmo marcado por silêncios e suspensão do tempo. Essa relação entre espaço, opressão e memória é central no gótico, que transforma a arquitetura em expressão material da violência, do trauma e da impossibilidade de escape.

Foto: Divulgação
Emílio Ribeiro. Foto: Divulgação
Camila Paula. Foto: Divulgação
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A personagem vive reclusa em um casarão, cercada por lembranças e delírios. Como você pensou essa casa como extensão simbólica do corpo e da subjetividade feminina?

Camila Paula: A casa foi pensada desde o início como uma extensão direta do corpo e da subjetividade da personagem. O casarão carrega marcas do tempo, do abandono e do silêncio, assim como o corpo feminino marcado pela violência e pela repressão. Cada espaço interno — corredores, portas fechadas, quartos escuros — reflete estados emocionais, funcionando como materialização da memória e do trauma. 

Assim, a casa não é apenas cenário, mas organismo vivo, que respira, oprime e guarda lembranças. Ela se transforma num espaço simbólico onde passado e presente se misturam, traduzindo visualmente a subjetividade feminina atravessada pelo medo, pelo silêncio e pela persistência da memória.

Ao escrever sobre uma mulher idosa sobrevivente de violência, que tipo de representação você buscou construir? O que significa, para você, colocar no centro da narrativa uma mulher que carrega marcas do passado, mas que ainda é agente de sua própria história?

Camila Paula: Ao escrever sobre uma mulher idosa sobrevivente de violência, busquei construir uma representação que acolhesse a complexidade de uma vida marcada por traumas profundos e persistentes. A personagem carrega marcas do passado que continuam atuando sobre sua memória, seu corpo e sua relação com o espaço, sem que isso seja resolvido ou apaziguado pelo tempo. A velhice, no filme, aparece como um território de permanência dessas feridas, e não como esquecimento.

Colocá-la no centro da narrativa significa reconhecer sua condição de sujeito até o limite, alguém que pensa, decide e age dentro das possibilidades — e também das restrições — que lhe foram impostas ao longo da vida. Mesmo reclusa, ela não é passiva: sua relação com as lembranças, com a casa e com o presente revela uma agente silenciosa, tensionada, que sustenta o filme e convida o espectador a encarar a densidade dessa existência sem oferecer respostas fáceis.

Camila, sua trajetória passa pela comunicação, pela poesia e pela militância na Marcha Mundial das Mulheres. De que forma essas experiências atravessaram a escrita do roteiro e a construção da protagonista?

Camila Paula: Minha trajetória na comunicação e na poesia são totalmente atravessadas pela militância na Marcha Mundial das Mulheres e Umbuzeiro não está fora disso. A comunicação nos sensibiliza para a semiótica das imagens, das palavras, gestos e ações. A poesia influencia o ritmo e a linguagem do filme, especialmente na construção de uma personagem marcada por camadas de tempo, memória e sensação. Já a militância trouxe um olhar atento às formas sutis e estruturais da violência, permitindo construir uma protagonista que não é definida apenas pelo trauma, mas por sua complexidade, resistência e humanidade. Essas experiências se cruzam no filme para dar forma a uma personagem que carrega inquietação, denúncia e não conformidade com a opressão.

Você afirmou, em outro momento, que Umbuzeiro é um filme que exige cuidado — com o tema, com o território e com as pessoas envolvidas. Como esse cuidado se traduziu, na prática, nas decisões de direção e no trabalho com elenco e equipe?

Emílio Ribeiro: Quando digo que Umbuzeiro exige cuidado, refiro-me a um posicionamento ético que atravessou todo o processo de realização. O tema da violência contra a mulher foi tratado com atenção constante para não espetacularizar a dor nem transformar o sofrimento em efeito dramático fácil. Na direção, isso se traduziu em escolhas de sugestão em vez de exposição, trabalhando o trauma a partir do silêncio, da memória e da atmosfera.

O cuidado com o território envolveu respeito ao espaço filmado e à sua história, compreendendo o ambiente como algo vivo e carregado de sentidos. Já no trabalho com elenco e equipe, o processo foi baseado no diálogo, na escuta e na criação de um ambiente seguro, especialmente nas cenas emocionalmente mais densas. As decisões foram sempre compartilhadas, respeitando limites e tempos individuais. Assim, Umbuzeiro se construiu como um filme em que a forma, a ética e a sensibilidade caminham juntas, dentro e fora de cena.

O curta dialoga com a tradição do gótico, mas também reivindica um cinema nordestino múltiplo e autoral. Que referências cinematográficas ou literárias orientaram esse processo de criação?

Emílio Ribeiro: O processo de criação de Umbuzeiro dialoga com o gótico entendido menos como gênero fechado e mais como uma sensibilidade estética e política. No campo literário, há referências à tradição anglo-americana em autores como Edgar Allan Poe e Nathaniel Hawthorne, especialmente na forma como o passado, a culpa e o silêncio se inscrevem nos espaços. Mas foi fundamental também o diálogo com autoras que pensam o gótico a partir da experiência feminina e da violência estrutural.

Textos de Charlotte Perkins Gilman, sobretudo The Yellow Wallpaper, e de Mariana Enriquez, foram referências centrais por transformarem a casa, o corpo e a memória em territórios de opressão, trauma e resistência. Essa perspectiva atravessa Umbuzeiro na recusa ao espetáculo da violência e na construção de uma atmosfera marcada pelo não dito.

No cinema, o diálogo se estabelece tanto com um gótico autoral contemporâneo quanto com um cinema nordestino que pensa o território de forma poética e crítica. Buscamos construir um filme em que a paisagem, a arquitetura e o silêncio podem carregar tensões históricas. Assim, Umbuzeiro se constrói nesse cruzamento entre tradição gótica, escrita sobre a mulher e um cinema nordestino múltiplo e autoral.

O projeto contou com a parceria da PROEX/UERN, do Cineatro/UERN, do BNB Cultural Mossoró, e apoio de instituições locais. Como você enxerga a articulação entre universidade, produção independente e fortalecimento do audiovisual no interior do Nordeste?

Emílio Ribeiro: A articulação entre universidade, produção independente e instituições culturais é fundamental para o fortalecimento do audiovisual no interior do Nordeste. No caso de Umbuzeiro, a parceria com a PROEX/UERN e com o Cineatro/UERN demonstra como a universidade pode atuar como espaço de criação, formação e circulação cultural, extrapolando os limites da sala de aula.

É uma pena que tantos artistas locais, com tantas ideias boas e dispostos a produzir, ainda não consigam viver da sua arte, muito em virtude da falta de editais e de investimento, principalmente por parte das prefeituras. A participação do BNB Cultural Mossoró e o apoio de instituições locais reforçam a importância de redes colaborativas para viabilizar projetos autorais e descentralizar a produção audiovisual. Esse tipo de articulação cria condições reais para que filmes sejam pensados a partir do território, com autonomia estética e compromisso social, contribuindo para consolidar um cinema nordestino plural, crítico e sustentável fora dos grandes centros.

Sessões Especiais de Pré-Estreia, voltadas à convidados e apoiadores:

Data: 24 de fevereiro de 2025
Horário: 19h
Local: Auditório da Estação das Artes Eliseu Ventania – Mossoró/RN

Data: 25 de fevereiro de 2025
Horário: 19h
Local: Auditório da FAFIC/UERN – Mossoró/RN