Foto: SP Invisível

Se você andou nas ruas de São Paulo, nos últimos anos, principalmente no centro da cidade, claramente notou o crescimento no número das pessoas em situação de rua da cidade. Não havia censo, pois o último registro desse número era de 2015, que contava 15.905 nessa situação de vulnerabilidade em São Paulo. Porém, amanhã a prefeitura irá lançar o novo censo. A coluna da Mônica Bergamo na Folha de São Paulo já divulgou alguns números e confirmou o que todos percebiam: o aumento da quantidade de pessoas nas calçadas da de São Paulo.

Em apenas 4 anos, o número cresceu mais que a metade, mais especificamente em 60%. Hoje, a cidade conta com 24.344 pessoas nas ruas. Esse número cresceu, em paralelo com o desemprego da cidade.

Isso reflete nas histórias que ouvimos no SP Invisível. Quando começamos, em 2014, ouvíamos muitas histórias que nos diziam – “vim do Nordeste, há muitos anos, consegui um emprego na construção civil, mas vim para a rua faz tempo” – histórias com mais tempo de rua, de uma maioria nortista ou nordestino. Hoje, conhecemos muitas pessoas que estão há um ano, meses ou semanas nas ruas e são daqui mesmo, de São Paulo, mas ficaram desempregadas.

Sozinho a vida é muito mais difícil. Sempre pergunto – “é possível confiar em alguém aqui? Você tem amigos na rua?” – A resposta é quase sempre a mesma, “não”. Isso se deve porque, antes de perder emprego ou perder casa, quem está na rua perde os vínculos, as pessoas. Na pesquisa, mostra que dentre os principais motivos que levaram a essa situação estão os conflitos familiares e o falecimento de parentes. Tudo relacionado aos vínculos. Os relacionamentos são muito importantes para quem vive na rua, são parte da sua identidade, isso que mostro no documentário “A sós – Relacionamentos em situação de rua”.

O racismo está presente em todo lugar. Na rua não é diferente. 69,3% das pessoas em situação de rua são pretas ou pardas e 28% são brancas, além das 1,7% indígenas e 0,9% amarelas. A invisibilização das pessoas em situação de rua é intencional e racista. Podemos ver isso pela ênfase e o cuidado que tratam histórias como a da Loemy Marques e de outros casos que a grande mídia adora contar e “recuperar”, enquanto há um descaso com todas essas 69,3% de histórias. São Paulo é uma cidade higienista. São Paulo é uma cidade racista.

Quanto a idade, não houve muitas mudanças entre o censo de 2015 e o de 2019. A maioria das pessoas em situação de rua tem entre 31 e 49 anos. Porém, é possível ver um aumento da proporção de crianças nas ruas. Em 2015, havia apenas 2,5% de crianças nas ruas, cerca de 403 crianças até 11 anos. Hoje, 3,9% do total de pessoas nas ruas são crianças, esse número é quase de 1000 crianças. Você já deve ter percebido isso quando alguma moça te aborda para pedir fralda ou leite para seus filhos, perto de uma farmácia. Cenas e números como esses, obrigam nossa cidade a pensar em questões como a de primeira infância e educação básica para essa população.

O censo será lançado na íntegra, amanhã (31). Sua importância é muito grande para facilitar, desde a organização de uma simples entrega na rua, até políticas públicas para as pessoas em situação de rua. Porém, o número de pessoas em situação de rua cresce a cada mês. Não se pode esperar quatro anos para ter um próximo censo, pois precisamos dele para trabalhar na redução desse número, inclusive.

Como criar campanhas de enfrentamento ao racismo e ao machismo nas ruas, se não sabemos o número de negros e mulheres nas ruas? Como criar uma política de saúde da mulher para a mulher em situação de rua? Como criar uma escola para todas as crianças da rua, se não sabemos quantas crianças existem nas ruas? Quantos são albergados e quantos estão na rua? Tudo isso, o censo nos mostra, por exemplo.

Além de dificultar a criação de políticas públicas, a falta do censo contribui com a invisibilização das pessoas em situação de rua, apesar do seu crescimento ser visível. Não sabemos se o próximo será apenas em 2023, 2025, 2030 ou ano que vem, já. Porém, esses números nos colocam diante de dois desafios: reduzir o número de pessoas em situação de rua para o próximo censo, tratar a vida na rua com dignidade enquanto não reduzimos esse número.

Para reduzir esse número, há apenas uma saída: casa. Existe um ditado na rua que diz – “dignidade é chave e endereço”.

Porém, é urgente políticas que deem a eles um banheiro, um bebedouro, emprego, refeição, assistência à saúde mental e várias outras demandas que podem ser encontradas a partir da escuta. Também é urgente políticas de conscientização sobre a vida nas ruas, para que não haja mais ações criminosas, como a morte de Carlos Roberto que foi queimado enquanto dormia.

Espero que com esses números, as organizações, as igrejas, os coletivos, os ativistas e os políticos que atuam com essa pauta, possam criar políticas e realizar ações que humanizem os invisíveis da cidade e dê a eles a dignidade necessária. Até porque, números são importantes, mas quando olhamos para a rua, não vemos números, vemos seres humanos e vemos histórias, assim como as nossas.

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