Eu tinha pensado em alguns temas para o nosso primeiro contato, carxs leitores, sobre as coisas que mais me movem na vida: os impactos da tecnologia na sociedade. Com a chegada da pandemia causada pelo COVID19  e seus efeitos em escalas que ainda não podemos mensurar, fui surpreendida com essa sensação de suspensão da vida, insegurança e incertezas. Neste momento em que a guerra da informação é sentida de forma tão avassaladora, se você não se atentar, nesses dias de quarentena, podemos passar o dia todo consumindo notícias vindas de muitas bolhas, grupos de aplicativos de mensagens, sites de notícias, skypes e redes sociais, tudo sobre o coronavírus. Eu não sei vocês, mas já percebi que estou carregando mais vezes o celular por dia, a bateria dura menos, porque eu não largo o celular, 100% conectada.

Nesse momento, o desafio de escrever nesta coluna algo que possa contribuir com as pessoas que estão lendo esse conteúdo me deixou ainda mais angustiada. O que dizer em um momento onde respostas estão longe de serem dadas? Para fazer boas perguntas é necessário um pouco mais de tempo para reflexão. Desde que comecei a trabalhar no Olabi e nesse universo da tecnologia e da cultura maker (cultura do fazer) uma frase sempre serviu de lente para olhar para o mundo e pautar nossas práticas: em um mundo em que a única certeza é a incerteza, aprender a aprender é fundamental. Aprendi isso com a Gabi Agustini, minha parceira no Olabi. Nessa indecisão sobre o que escrever nessa estreia, esta frase voltou à minha mente como um mantra.

Desde o início da quarentena tenho me reservado o direito de não emitir muitas opiniões sobre presente e futuro. Tenho ficado em silêncio, com os ouvidos e olhos atentos sobre as novidades que chegam a cada dia, a cada hora. Tenho observado e até contribuído de uma certa forma com o que acredito ser o importante, ainda que seja difícil definir prioridades e entender como colaboramos.

Para além do que já é notícia e dos esforços de mobilização que estamos vendo nas redes, me deu muita vontade de falar sobre essa onda de solidariedade que estamos vendo acontecer, no micro e no macro, que tem na internet seu principal meio para se articular e difundir. Aulas online de tudo que podemos imaginar nunca foram tão requisitadas como estamos vendo atualmente. De grande centros formais de ensino a indivíduos que abriram seus HDs em prol de compartilhar saberes: aulas de yoga, ginástica, dança, culinária. O Afrofunk, a Casa Venus, Yoga Marginal, a Juliana Luna no @alunametodo, são alguns dos projetos que estão compartilhando nos seus @s conteúdos sobre cuidados com o corpo e mente.

A mobilização de organizações sociais, grupos e coletivos em favelas e periferias para fazer a informação, a comida, os materiais de limpeza e a gentileza chegarem a quem mais precisa nesse momento. Segue aqui alguns links de vakinhas online para quem pode ajudar: Complexo da Maré contra o Coronavírus, Covid-19 nas Favelas, Uneafro, Redes da Maré, entre outros, que estão fazendo acontecer para a ajuda chegar em quem precisa.

Receitas de misturas naturais para ajudar o corpo e potencializar a imunidade, terapeutas se colocando à disposição para cuidar das pessoas que precisam de mais atenção em relação a saúde mental. Conteúdos e brincadeiras para fazer com as crianças em casa, pessoas se voluntariando para fazer compras em mercados, farmácias para quem precisa. Construção de pontes entre médicos, makers, especialistas para pensar e criar materiais que possam ser produzidos a partir da fabricação digital, para proteção de agentes de saúde. Esse lado é o lado bonito de ver o que essa epidemia vem causando na gente.

Ao fazer parte dessa corrente, também me deparo com algo que venho pensando e falando há um tempo: qual o papel que as tecnologias vem desempenhando nas nossas vidas e como somos afetados por elas? De repente, o que parecia coisa de gente paranoica com questões de vigilância de dados e privacidade na rede, se abre na nossa cara. Quase tudo foi (só) para o online. Quais implicações que isso vai trazer para gente? Se todo mundo está cada vez mais dependente da internet, o que acontece se os grandes servidores, provedores de internet pararem amanhã? Se todo mundo ficar vendo Netflix o dia inteiro, não vai faltar banda de internet pra quem precisa? O Coletivo Intervozes – organização que trabalha pelo direito humano à comunicação – “protocolou um requerimento na Anatel para proibir a suspensão de serviços de conexão à Internet móvel ou fixa por 90 dias, sob qualquer motivo”. Sabemos que a maioria das pessoas não tem internet de banda larga e acessam a rede a partir dos seus pacotes de dados. Ainda segundo o Intervozes, cerca de 85% da classe C e D só acessam a rede por meio dos celulares. Essa medida é para impedir que pessoas mais vulneráveis fiquem sem acesso à comunicação em um momento como esse.

O presidente do Ivan Allen College em Estudos de Mídia no Instituto de Tecnologia da Geórgia, Ian Bogost, disse em sua coluna para o The Atlantic, “hoje em dia, fazer algo real, com seu próprio corpo, às vezes parece mais estranho do que convocá-lo por smartphone”. É verdade que estamos nos preparando há um tempo para isso e estamos nos condicionando para a digitalização da vida faz alguns anos. Todas essas transformações e os impactos delas – que ainda não conseguimos medir, têm efeitos em todos nós. Talvez não estivéssemos contando com uma quarentena em massa, é verdade. Mas com esse consumo exacerbado de internet e que nós sabemos que é desigual, ilimitado para alguns e  limitado para muitos outros, porque boa parte das pessoas só tem internet no celular e outra parcela nem acesso ao celular tem.

Se tudo agora é online, como vamos fazer com as pessoas que ficam excluídas desse círculo? Devemos olhar para o acesso à internet como um direito que faz parte da cidadania, assim como sua regulamentação, que deve ter como centro o cidadão.  Uma crise que começa na saúde e que tem impacto em todas as dimensões da vida está nos ensinando como o comportamento de cada humano influencia no todo. E como a somos dependentes de contato humano, por mais que as tecnologias nos auxiliem.

Reforçando mais uma vez o que disse acima, mais do que nunca, aprender a aprender nunca fez tanto sentido.

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