Sandro Veronesi lota a Feira do Livro e reflete sobre luto, literatura e a vida cotidiana
Vencedor do Prêmio Strega participou de conversa sobre o relançamento de “Caos Calmo”, refletindo sobre luto, cotidiano, liberdade criativa e o papel da literatura na compreensão da experiência humana
Por Safira Bezerra, especial para cobertura A NINJA Foi à Feira
Um dos nomes mais aguardados do primeiro dia da Feira do Livro de São Paulo, realizada em 30 de maio, o escritor italiano Sandro Veronesi participou de uma conversa com o público mediada pelo jornalista Ruan de Sousa. Vencedor do Prêmio Strega – a mais importante premiação literária da Itália – e autor de obras consagradas como O Colibri, Caos Calmo e Setembro Negro, Veronesi esteve no evento para celebrar o relançamento brasileiro de Caos Calmo e compartilhar reflexões sobre literatura, dor, memória e criação.
Com o espaço lotado e centenas de pessoas acompanhando a conversa pelos telões instalados do lado de fora, o autor atraiu uma multidão interessada na profundidade e na complexidade de sua obra. Conhecido por construir narrativas que transitam entre o luto, a ironia, a tristeza e as alegrias cotidianas, Veronesi explicou que seus romances nascem de um intenso processo de auto investigação, no qual experiências pessoais são transformadas em ficção por meio de personagens comuns.
Segundo o escritor, são justamente essas pessoas comuns que protagonizam as histórias mais importantes. Ele afirmou não ter interesse em escrever sobre grandes figuras históricas porque acredita que os acontecimentos cotidianos carregam os conflitos mais significativos da experiência humana: “Eu procuro falar com todos. Faço o possível para escrever bem, para estruturar meus romances de forma literariamente densa, mas quero falar com todos. E vamos ser claros: a maioria de nós somos pessoas comuns que fazem filas, trabalham…”.
Ao comentar a recepção de seus livros, Veronesi destacou que frequentemente encontra leitores que se reconhecem nas histórias que escreve. Para ele, esse reconhecimento nunca vem acompanhado de ressentimento, mas de gratidão,“as pessoas não têm ciúme da própria dor. Ninguém nunca me perguntou por que contei sua história. Elas ficam felizes por eu ter contado suas histórias, e é por isso que sinto que preciso continuar”, afirmou.

Em um debate marcado por momentos de emoção e também por muitas risadas, o escritor aprofundou temas presentes em Caos Calmo, romance que aborda a experiência do luto e das transformações provocadas pela perda. Para Veronesi, a dor é uma dimensão inevitável da existência humana e precisa ser vivida para que possa ser compreendida.
“Eu acho que a dor, na nossa época, foi criminalizada. Procuramos rejeitá-la de todas as formas possíveis e esquecemos que chegamos ao mundo através dela. A dor faz parte da nossa existência. Dor e sofrimento são terríveis, mas ninguém jamais pensou seriamente em eliminá-los da condição humana.”
O autor ainda refletiu sobre como a sociedade contemporânea busca constantemente mecanismos para evitar o sofrimento. Segundo ele, se a medicina encontrou formas de reduzir a dor física, a cultura contemporânea passou a buscar soluções para escapar também da dor emocional: “A nossa civilização começou a procurar maneiras de eliminar a dor mental. A difusão das drogas e essa ideia permanente de fugir do sofrimento criaram a ilusão de que é possível viver sem encontrar a dor. Mas superar uma dor é uma prova enorme e difícil. Depois disso, ela se transforma em algo real e passa a ocupar o lugar daquilo que foi perdido”.
Ao longo da conversa, Veronesi também comentou a presença do humor em suas obras. Em uma associação que passou por Peanuts e o escritor russo Fiódor Dostoiévski, o autor destacou como o trágico e o cômico frequentemente convivem na experiência humana. Para ele, a infância possui uma capacidade singular de ressignificar o sofrimento, transformando tragédias em momentos de leveza e aprendizado.
Questionado sobre seu lugar como escritor europeu em um cenário literário cada vez mais atento às questões de representatividade e diversidade, Veronesi afirmou que sua principal responsabilidade continua sendo escrever aquilo que considera verdadeiro, “o mercado e os leitores não precisam me dizer o que escrever. É melhor que eu simplesmente escreva. Pode chegar um dia em que as pessoas não queiram mais ler o que escrevo, isso já aconteceu com muitos autores. Mas escrever continua sendo a única coisa que posso fazer”, declarou.
O escritor relembra que a liberdade criativa possui um custo e depende de redes de apoio que tornam possível a dedicação à literatura. Ao comentar sua trajetória, agradeceu especialmente o apoio de sua esposa, lembrando que nenhum livro é construído de forma isolada, mas a partir de relações, afetos e experiências compartilhadas.
Encerrando o encontro, Veronesi resumiu a relação que mantém com seus personagens e com seus leitores. Para ele, escrever é também uma forma de cuidado e de conexão com as pessoas que inspiram suas histórias:
“a minha forma de rezar pelas pessoas é colocar homens e mulheres comuns dentro dos romances. É assim que eu rezo por elas”.
Ao final da mesa, o público recebeu ainda a notícia de que Terre Rare, obra que acompanha o personagem Pietro Paladini dez anos após os acontecimentos de Caos Calmo, ganhará tradução para o português e será publicada no Brasil em 2027 pela Editora Autêntica.



