Foto: Rafael Smaira

 

Por Kaio Phelipe

Líder popular e uma das maiores sambistas do país, Leci Brandão abriu inúmeras portas: foi a primeira mulher a integrar a ala de compositores da Estação Primeira de Mangueira, tradicional escola de samba do Rio de Janeiro; primeira artista brasileira a se declarar lésbica (em entrevista para o jornal O Lampião da Esquina, n° 6, 1978); primeira mulher negra a cumprir quatro mandatos consecutivos na Assembleia Legislativa de São Paulo (ALESP) em defesa da cultura; e responsável por grandes sucessos da música brasileira, como “Zé do Caroço” e “Isso é Fundo de Quintal”.

 

Como foi a repercussão ao lançar as músicas “Ombro amigo”, “As pessoas e eles” e a entrevista para o jornal O Lampião da Esquina, em 1978?

O que houve, na verdade, foi um espanto. Nos anos 1970, falar sobre essas pautas, pautas que eram proibidas e criticadas, era quase impossível. As pessoas se surpreenderam pelo fato de eu ser uma mulher negra e que já era compositora da Estação Primeira de Mangueira falando de coisas impossíveis da minha pessoa falar. Mas eu cheguei de forma muito natural, muito autêntica, sem levantar bandeiras. Até porque as letras dessas músicas são letras que não dizem nada demais. São músicas que falam de amor, de sentimentos verdadeiros. A gente conseguiu colocá-las até em trilha de novela. Sobre a entrevista, a única coisa que aconteceu foi que algumas pessoas desavisadas foram até a quadra da Mangueira para levar o jornal e mostrar aos compositores, que não tiveram nenhuma reação ruim, apenas falaram que “a Leci é uma pessoa que nos trata com muito respeito, com muito carinho. Ela vem aqui e cumpre o papel dela, faz a ata da reunião, defende o samba de seus colegas e trata todo mundo com muita educação”. Então isso não me prejudicou em nada. Pelo contrário. As pessoas viram que eu estava ali mostrando um sentimento meu com muito respeito a todos. Não cometi nenhum mal. Não fiz nada que pudesse desabonar a minha conduta.

O samba é uma ferramenta política?

Bom, eu acho que posso dizer que tive sorte, que Deus me abençoou e me deu condições de compor muitas coisas sociais com o ritmo do samba. O samba é a música da alegria, segundo meu amigo Martinho da Vila. Quando você faz um samba com uma melodia boa, ele é assimilado facilmente pelas pessoas. Embora com letras que levantaram muitas discussões, com o meu samba consegui me impor enquanto artista. Quem acompanha o meu trabalho nesses anos todos observa que sou uma pessoa absolutamente verdadeira. Sou uma pessoa sensível e procuro traduzir no meu trabalho artístico todas as tensões, todos os impactos que o ser humano passa. Acho que é por isso que a gente está com quase 50 anos de carreira e sem demérito de nada. A arte é política. A arte tem uma responsabilidade muito grande politicamente. Foi com a minha música que construí a minha vida, meus pensamentos, meus lados políticos, minhas ideias sociais. Foi através da arte, do samba.

Sobre o combate à intolerância religiosa, qual medida é fundamental para que avancemos em direitos? 

Mostrar para as pessoas que a laicidade está na Constituição. O Estado é laico. O Estado tem que respeitar todas as religiões. Eu sei que a religião que sigo é muito mais perseguida por vir da ancestralidade. A religião que sigo vem da população negra, vem de longe, de África. E sempre foi a nossa força, sempre foi a forma como nós lutamos, que nos entendemos. A crença da população negra sempre traz o bem, acolhe e protege. Não faz o mal a quem quer que seja.

Foto: Rafael Smaira

Está nascendo um novo líder?

Eu acredito que hoje em dia, nas comunidades, tenha muitas pessoas que fazem o trabalho que Zé do Caroço fez com o alto-falante no Morro do Pau da Bandeira. Hoje a gente não vê só homens, mas mulheres também, muitas mulheres trabalhadoras que sustentam suas famílias e conseguem educar seus filhos, lutar e avançar na política progressista. As mulheres são muito fortes e são as grandes comandantes das comunidades atuais. Conheci o Zé do Caroço, mas antes de conhecê-lo, conheci a sua história. Foi realmente um cara que com um simples serviço de alto-falante conseguiu fazer muitas coisas importantes e válidas para aquela favela.

A senhora abriu muitas portas desse país e atuou em diversas áreas políticas e artísticas. Há algo que ainda deseja fazer profissionalmente?

Olha, eu não sei se é porque já vou fazer 80 anos no ano que vem (2024), mas já estou me sentindo bastante cansada. E eu tenho feito muita coisa. Somado a esse tanto de coisa, há também a minha questão emocional. Tenho recebido muitas homenagens. É livro, disco, filme, enfim. Tudo isso tem mexido muito com a minha cabeça e com o meu coração. Acredito que tudo o que tinha que acontecer já aconteceu. Isso me basta. Eu tô muito feliz. Muito feliz mesmo.

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