Vergonha e resistência, ou quando o futebol se torna poder
Quando as regras do futebol podem ser reescritas ao capricho de um mandatário, o jogo limpo se transforma em papel molhado.
Por: Carlos Ernesto Cano, fotojornalista guatemalteco com mais de 15 anos de experiência cobrindo eventos sociais na Guatemala, México e Mesoamérica. Escreve no Festivales Media, El Salto e La Directa na Espanha, e em diferentes meios de comunicação na América Latina.
No ardente verão de 2026, cortesia da destruição climática, quando o furor da Copa do Mundo de Futebol acendeu nos estádios do México, Estados Unidos e Canadá, não somos testemunhas apenas da paixão esportiva, mas de uma execução pública da alma do futebol. A FIFA, esse monstro de 211 associações-membro — maior que a própria ONU —, precipita-se com uma velocidade asquerosa rumo ao abismo de ser um lacaio da ultradireita global. Seu servilismo provoca vergonha.
Em primeiro lugar, foquemos o holofote na aliança mais turva: o jogo de poder descarado entre o presidente da FIFA, Gianni Infantino, e o presidente dos EUA, Donald Trump. O fato de Infantino ter criado um inventado “Prêmio da Paz” para entregá-lo a Trump não é apenas adulação, mas uma violação grotesca da neutralidade esportiva.
Pior ainda: sob pressão direta da Casa Branca, Infantino se permitiu intervir na disciplina arbitral para anular cartões vermelhos de jogadores estadunidenses. Quando as regras do futebol podem ser reescritas ao capricho de um mandatário, o jogo limpo se transforma em papel molhado. O jornal alemão Bild acertou: Infantino está vendendo o futebol sem pudor, transformando-o num show que fede a dinheiro e poder. A direção da FIFA sequestrou a si mesma a serviço dessa lógica, enquanto os chamados de investigação do Parlamento Europeu ecoam em seus ouvidos surdos.
No entanto, em meio a essa tormenta política, ainda brota uma luz de humanidade. O técnico do Egito, Hossam Hassan, após classificar historicamente sua equipe às oitavas de final, ergueu com firmeza a bandeira da Palestina. Diante das ruínas da guerra em Gaza, não escolheu o silêncio: dedicou a vitória a “seus irmãos palestinos que sofrem o bombardeio”, a todo o mundo árabe. Essa solidariedade aberta e pública, no tabuleiro cheio de cálculos políticos da FIFA, traça uma linha ética nítida e corajosa. Enquanto a FIFA se arrasta diante do poder, Hassan, com uma bandeira, defende o mais essencial do futebol: que ele pertence ao povo, à justiça, a quem sob as bombas ainda ergue o olhar para o céu.
E cabe perguntar: que culpa tem o futebol? Como escreveu Eduardo Galeano em Futebol ao Sol e à Sombra: “O futebol é como um rito, um jogo repleto de magia. Mas também é um espelho que reflete todas as nossas virtudes e todos os nossos pecados, todas as nossas misérias e todas as nossas paixões.”
Esse espelho, em 2026, reflete a covardia da FIFA, a prepotência política de uma superpotência e as regras pisoteadas pelo capricho do poder. Quando o “Prêmio da Paz” é um adorno servil, quando as normas são barro nas mãos do forte, e quando os ingressos são um espólio ao torcedor, o futebol deixa de ser o ópio do povo para se tornar bola dos poderosos.
Galeano também disse que a história do futebol é a história de um belo jogo transformado num negócio miserável. A Copa de 2026 pode ser o espelho mais cruel desse processo. Mas a bandeira tremulando na mão do técnico egípcio nos lembra que, mesmo neste terreno contaminado, há quem continue lutando pela alma do futebol, gritando com o gesto mais simples: há coisas que valem mais que o poder e o dinheiro — a dignidade, por exemplo.