Vaticano, o mediador global num mundo em conflito

Pedro e Paulo são considerados as “colunas” do Cristianismo primitivo e do Vaticano, mediador universal

Pedro e Paulo foram declarados apóstolos principais porque trabalharam mais do que os outros apóstolos para difundir a fé cristã. Entretanto, por maior que seja a sua importância na vida da Igreja, eles detinham diferenças entre si. São Pedro e São Paulo são considerados as “colunas” do Cristianismo primitivo. Pedro, o primeiro Papa, e Paulo, o Apóstolo dos Gentios, convergiram para Roma no século I. Suas pregações e seus martírios na capital do Império estabeleceram o alicerce espiritual e físico sobre o qual a Igreja Católica e o Vaticano foram construídos.

O apóstolo Pedro é um apóstolo clássico. Ele conheceu Jesus Cristo desde o momento em que foi chamado, possivelmente ainda no início de sua missão, e acompanhou Cristo em suas viagens. Ouviu seus ensinamentos, testemunhou como Jesus lidava com diversas situações e esteve próximo aos acontecimentos centrais de sua vida. Apesar do momento em que Pedro perdeu a esperança e negou Cristo, Jesus aceitou seu arrependimento e o restabeleceu como apóstolo. Além disso, ele era o apóstolo de Jesus Cristo com maior autoridade.

Foi a ele que Jesus disse: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mateus 16:18). A palavra grega “petra” traduz-se literalmente como “pedra” ou “rocha”.

Visitando a história, portanto, Simão Pedro foi escolhido por Jesus para ser a rocha sobre a qual a Igreja seria edificada. Como líder da primeira comunidade cristã, Pedro viajou para Roma. A Cidade do Vaticano foi erguida sobre a Colina Vaticana, exatamente no local tradicionalmente associado ao seu sepultamento, após seu martírio sob o Imperador Nero. A Basílica de São Pedro é o coração do catolicismo e marca o local onde os papas dão continuidade à missão de Pedro.

Mas Paulo era diferente. Ele não era um dos doze apóstolos, nem um dos setenta. Ele era um apóstolo “único”. Ele sequer conheceu Jesus Cristo durante sua vida terrena. Além disso, perseguiu os cristãos quando, após a morte e ressurreição de Jesus, o cristianismo começou a se espalhar pela Palestina e pela Síria. Contudo, seu encontro com o Jesus ressuscitado o transformou completamente. Ele se tornou o mais zeloso missionário da fé em Jesus Cristo.

Paulo foi frequentemente criticado por não ter conhecido Jesus antes de sua morte e ressurreição e por, segundo alguns, não possuir o direito de ser chamado de apóstolo. Mas Paulo persistiu. Qualquer outro em seu lugar poderia ter ponderado e duvidado: “E se eu estiver errado? E se eu estiver enganado?”. Entretanto, a dúvida não encontrou espaço em Paulo. Como poderia estar enganado quando o próprio Jesus ressuscitado lhe apareceu e o instruiu na fé? O fato de as cartas do apóstolo Paulo constituírem uma parte significativa dos textos do Novo Testamento demonstra o reconhecimento da Igreja sobre sua importância como um dos principais apóstolos.

Reafirmando o processo histórico, originalmente Saulo converteu-se e tornou-se o maior missionário da Igreja primitiva. Detentor de um caráter universalista, Paulo levou a mensagem cristã para além das fronteiras do judaísmo, alcançando os povos do Império Romano. Como legado documental, escreveu treze epístolas que compõem o Novo Testamento, estruturando a base doutrinária e teológica da Igreja.

Representando o conjunto do martírio cristão, ambos foram executados em Roma no mesmo período (c. 64-67 d.C.), consagrando a cidade como centro do Cristianismo. Para os católicos, eles representam unidade e missão. Juntos, simbolizam a união entre a raiz judaica (Pedro) e a abertura aos povos pagãos (Paulo). A tradição da Igreja Católica celebra ambos na mesma solenidade como expressão dessa unidade.

“O exemplo desses dois grandes homens demonstra que o cristianismo não é uma religião de ‘piedade mediana’, onde todos devem ser iguais, como soldados em formação. O cristianismo é uma religião do indivíduo. Cada cristão é um indivíduo único, uma imagem de Deus, com a missão de maximizar seu potencial espiritual e alcançar a semelhança com Deus. E, com a ajuda de Deus, tudo dará certo. Você só precisa realmente querer”, analisa o missionário Alexander Volkov.

Entretanto, deve-se ressaltar a grande importância atual do Estado do Vaticano na geopolítica, pelo respeito que recebe dos líderes globais e pelo vasto campo de atuação que possui, além da busca pela felicidade pessoal e do auxílio ao indivíduo na concretização de seu potencial.

O Estado do Vaticano foi formalmente estabelecido em 11 de fevereiro de 1929, por meio do Tratado de Latrão, assinado entre a Santa Sé e o governo italiano. Esse acordo encerrou a “Questão Romana”, um impasse de quase 60 anos iniciado em 1870, quando o Reino da Itália anexou os Estados Pontifícios e a cidade de Roma. Durante esse período, os papas recusaram-se a reconhecer a autoridade italiana e permaneceram isolados dentro dos muros do Vaticano, autodeclarando-se “prisioneiros”.

Contudo, com a assinatura do tratado liderado pelo Papa Pio XI e por Benito Mussolini, o Vaticano foi reconhecido como um país independente e soberano.

A importância do Vaticano no cenário contemporâneo vai muito além de sua extensão territorial de apenas 44 hectares e de sua população de cerca de 800 habitantes. Ele representa um centro espiritual global. Nesse contexto, o Vaticano atua como sede mundial da Igreja Católica, sendo a referência de fé para cerca de 1,5 bilhão de católicos romanos espalhados por todos os continentes.

Sua atuação diplomática e política tem na Santa Sé uma destacada posição internacional, com status de observadora permanente na ONU e relações diplomáticas estabelecidas com cerca de 180 nações. Sua diplomacia é voltada para a mediação de conflitos, a promoção da paz, a defesa dos direitos humanos, o diálogo inter-religioso e questões humanitárias.

Enquanto patrimônio histórico e cultural, o país constitui um polo insubstituível de arte e cultura. Abriga tesouros arquitetônicos como a Basílica de São Pedro, a Biblioteca Apostólica e os Museus do Vaticano, que incluem a Capela Sistina, atraindo milhões de peregrinos e turistas anualmente.

Detendo independência institucional, a estrutura da cidade-estado garante que o Papa exerça sua missão espiritual e administrativa livre de interferências ou pressões políticas de qualquer governo nacional.

O Vaticano, portanto, possui uma posição singular no cenário internacional, sendo uma instituição reconhecida por sua atuação diplomática e capacidade de diálogo com diferentes países e líderes mundiais. Sua presença permite a mediação de temas, conflitos e acordos internacionais, estabelecendo um papel distinto em relação a outros Estados e organizações globais.