Um fantasma percorre a América Latina

O fantasma não espera. Já está aqui. E seus passos se ouvem cada vez mais fortes enquanto as urnas se aproximam na Colômbia e no Brasil.

Por Carlos Ernesto Cano, para Festivales Solidários

Não é o fantasma do qual Marx falou há quase dois séculos. Este, que hoje se estende como uma sombra sinistra sobre a América Latina, é o prelúdio do autoritarismo. Veste-se de discurso de ordem, promete mão dura contra o crime e encontra sua principal fonte de legitimação no salão oval da Casa Branca, onde Donald Trump tece uma rede de alianças com a ultradireita regional para acuar a democracia liberal.

O que estamos testemunhando não é um simples rearranjo das forças políticas do continente, mas uma estratégia deliberada de intervenção. O fantasma percorre de Buenos Aires até a Cidade do México, mas nestas horas seus passos reverberam com força especial no Brasil e na Colômbia, duas nações que enfrentarão eleições decisivas sob pressão explícita do poder norte-americano.

O retorno do “Grande Irmão” do norte

O governo Trump abandonou qualquer pretensão de “neutralidade” nos assuntos internos da região. Longe daqueles discursos de respeito à autodeterminação dos povos, hoje a Casa Branca age como uma espécie de matriz ideológica que abençoa candidatos e pune aqueles que considera adversários.

Em menos de um mês, Trump recebeu no Salão Oval o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva e, logo em seguida, o senador Flávio Bolsonaro, filho do ex-mandatário ultraderechista condenado por tentativa de golpe de Estado. Não se trata de uma diplomacia equânime: é uma mensagem cifrada ao eleitorado brasileiro. A foto com o herdeiro político do bolsonarismo, publicada no Truth Social com o elogio de Trump chamando-o de “um jovem inteligente que ama muito seu país”, vale mais do que mil discursos de campanha.

E as ações concretas acompanham as palavras. A designação das facções criminosas brasileiras PCC e Comando Vermelho como grupos terroristas — uma demanda explícita que Flávio Bolsonaro levou pessoalmente à Casa Branca — não é uma medida de segurança bilateral inocente. É munição política de grosso calibre, pois abre a porta para uma eventual intervenção militar norte-americana em território brasileiro, algo a que Lula se opõe firmemente enquanto seu rival a apresenta como prova de sua capacidade de gerir o apoio de Washington.

Brasil na encruzilhada de outubro

As eleições do próximo dia 4 de outubro no Brasil serão um divisor de águas não apenas para o país, mas para toda a região. A disputa entre Lula, que busca um quarto mandato, e Flávio Bolsonaro, que tentará capitalizar o legado do pai, se anuncia como uma das mais acirradas dos últimos tempos.

O mais preocupante é a estratégia de desestabilização econômica que parece acompanhar o apoio trumpista à ultradireita. O Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos, USTR, reativou uma investigação que poderia impor tarifas de 25% sobre as importações brasileiras, precisamente quando Flávio Bolsonaro voltava triunfante de seu encontro com Trump. Lula não tardou em chamar seu adversário de “traidor da pátria”, acusando-o de ter aberto a porta para que um país estrangeiro interfira nas decisões soberanas do Brasil.

Mas o estrago já está feito. O fantasma do autoritarismo não precisa vencer as eleições para semear desconfianças: basta polarizar o debate, deslegitimar as instituições e fazer os cidadãos acreditarem que a única alternativa ao caos é uma liderança forte que olhe mais para Miami do que para Brasília.

Colômbia: a sombra de Trump sobre Petro

A situação na Colômbia não é menos alarmante. Embora as informações concretas disponíveis sobre o apoio direto de Trump ao candidato de ultradireita naquele país sejam objeto de acompanhamento constante, tudo indica que a estratégia do presidente norte-americano é homogênea para a região: enfraquecer os governos progressistas e sustentar seus antagonistas.

O secretário de Estado Marco Rubio foi explícito ao apontar que “com exceção da Nicarágua, Cuba, Venezuela, Brasil e Colômbia, a região está repleta de aliados dos Estados Unidos”. A ausência da Colômbia dessa lista de “países amigos” não é casual. É um aviso. E no contexto das próximas eleições colombianas, esse aviso se traduz em apoio tácito — quando não aberto — ao candidato que prometa alinhamento automático com Washington.

Um continente partido pela ingerência

O mais grave deste fenômeno é que a intervenção trumpista não se limita aos apoios eleitorais. Há um projeto de reconfiguração hemisférica que passa pelo “Escudo das Américas”, uma iniciativa que em teoria combate o narcotráfico, mas que na prática funciona como um mecanismo de disciplinamento regional. Países como Argentina, Equador e Chile aderiram a ele; Brasil, Colômbia e México ficaram de fora, e a Guatemala permitiu que seu espaço aéreo fosse usado para bombardear supostos narcotraficantes.

A pergunta que os latino-americanos precisamos nos fazer é até onde estamos dispostos a permitir que Washington decida por nós. O apoio de Trump a Flávio Bolsonaro, sua tentativa de condicionar a relação comercial com o Brasil a desígnios eleitorais, sua pressão sobre a Colômbia para que se alinhe a uma visão unipolar do continente — são sintomas de um mesmo mal: o retorno da política do “porrete e da cenoura*” do século XIX, agora com redes sociais e tarifas como ferramentas de coerção. A doutrina “Donroe” — fusão dos nomes Donald Trump e Monroe.

A defesa da soberania como trincheira

Diante desse fantasma que percorre a América Latina, a resposta não pode ser o recolhimento. A defesa da democracia na região passa, paradoxalmente, por fortalecer os mecanismos de integração regional que o trumpismo tentou dinamitar. Também por compreender que o autoritarismo nem sempre chega com botas e tanques: às vezes o faz com tuítes elogiosos e promessas de investimento atreladas a lealdades políticas.

Lula entendeu bem isso ao denunciar a ingerência estrangeira nos assuntos brasileiros. A questão é se o restante da região terá clareza e força para fazer o mesmo quando chegar o momento. Porque o fantasma não espera. Já está aqui. E seus passos se ouvem cada vez mais fortes enquanto as urnas se aproximam na Colômbia e no Brasil.

E que a história não nos encontre dormindo…

*Nota de tradução: Referência à expressão inglesa “carrot and stick”, utilizada para descrever a combinação de coerção e incentivos como instrumento de poder e controle.