Rio dá exemplo com cotas trans nas universidades
Cotas trans nas federais do Rio marcam avanço histórico, mas permanência estudantil é essencial para garantir inclusão real.
Por Dani Balbi*
A recepção dos calouros na volta às aulas deste ano teve mais uma novidade, além das tradicionais boas-vindas ao campus: o Rio de Janeiro se tornou referência nacional na garantia de direitos para a população trans no ensino superior. Entre 2024 e 2025, as quatro principais universidades federais do estado — UFF, UFRRJ, UNIRIO e UFRJ — aprovaram cotas para pessoas trans, travestis e não binárias. Nenhum outro estado concentra tantas federais com essa política de reparação histórica.
A UFF abriu caminho em setembro de 2024, destinando 2% das vagas. Logo depois, ainda em 2024, UFRRJ (com 3% de vagas supranumerárias) e UNIRIO seguiram o mesmo caminho. Em outubro de 2025, a UFRJ — maior federal do país — aprovou a reserva de 2% das vagas, consolidando o Rio como estado pioneiro. Esse avanço não foi casual. Resultou da organização do movimento estudantil e do movimento trans, da atuação de coletivos LGBTQIA+, da pressão da ANTRA e do compromisso de gestões universitárias que reconheceram a urgência da pauta.
As cotas trans não são benevolência. São reparação. São justiça.
O Brasil lidera o ranking mundial de assassinatos de pessoas trans — um a cada 34 horas, segundo a ANTRA. A maioria das vítimas é negra, periférica e jovem. Dados do IBGE mostram que 82% das pessoas trans não concluem o ensino básico, expulsas pela transfobia e pela violência institucional. Mas aprovar cotas não basta. Levantamento do jornal O Globo aponta que apenas 34% das vagas destinadas a pessoas trans nas federais são preenchidas. A razão não é falta de demanda — é falta de estrutura.
Precisamos de políticas de permanência: bolsas específicas que considerem gastos com a transição de gênero; moradia estudantil segura; bandejões gratuitos; acompanhamento psicológico; protocolos contra transfobia; formação de docentes; e editais de pesquisa protagonizados por pessoas trans.
O Rio deu um passo histórico. Agora precisamos garantir que essa conquista se materialize em vidas transformadas, diplomas conquistados e carreiras construídas. Universidade pública é direito de todas, todos e todes — incluindo mulheres trans, homens trans, travestis e pessoas não binárias por tanto tempo excluídas. A luta continua.
*Dani Balbi é roteirista, escritora, professora e deputada estadual (PCdoB/RJ)