Quem tem o poder de contar a história?
O que as indicações do Oscar 2026 revelam sobre o lugar das mulheres no cinema
Por Mariana Vargas de Oliveira

O Oscar se aproxima e, na reta final para a cerimônia, uma pergunta inevitável volta a incomodar: onde estão as mulheres quando a Academia anuncia os nomes do ano?
A resposta mais rápida parece simples, visto que, todos os anos, dez vagas estão ocupadas por atrizes nas categorias de Melhor Atriz e Melhor Atriz Coadjuvante, performances reconhecidas pela indústria que fazem parte da própria estrutura da premiação. Mas a questão não se resume a contar quantas mulheres aparecem na lista, mas onde elas aparecem.
Quando o olhar se desloca das categorias de atuação para outras áreas, como direção, fotografia e roteiro, que são três atributos diretamente ligados à construção da narrativa e construção cinematográfica, é possível perceber que a presença feminina é mínima ou até mesmo inexistente. Em contrapartida, ao observar categorias como figurino e design de produção, as mulheres são maioria.
Fica claro, portanto, que uma estrutura se repete: à mulher ainda é reservado o espaço de embelezar a história, enquanto ao homem cabe decidir o que ela conta.
Dar nome é também um ato político
Mesmo em categorias tradicionalmente associadas à presença feminina, é importante reconhecer o trabalho das artistas indicadas este ano.
Entre as protagonistas que concorrem ao prêmio este ano estão Jessie Buckley, por ‘Hamnet’; Rose Byrne, por ‘If I Had Legs I’d Kick You’; Kate Hudson, por ‘Song Sung Blue’; Renate Reinsve, por ‘Sentimental Value’; e Emma Stone, por ‘Bugonia’. Stone, aos 37 anos, se torna a mulher mais jovem a acumular sete indicações ao Oscar, superando o recorde de Meryl Streep.

Entre as coadjuvantes, Wunmi Mosaku, por ‘Sinners’; Teyana Taylor, por ‘One Battle After Another’; Elle Fanning e Inga Ibsdotter Lilleaas, ambas por ‘Sentimental Value’; e Amy Madigan, por ‘Weapons’.

Cada indicação marca o reconhecimento de um trabalho que encontrou repercussão entre público, crítica e indústria.
Mas olhando para a lista completa de indicadas, não é respondido: quantas dessas mulheres estão em filmes que contam histórias a partir do olhar feminino e quantas interpretam personagens que existem apenas para servir à jornada de um homem?
Porque uma coisa é estar na tela, outra bem diferente é estar no centro da narrativa, como sujeito da história, como alguém cujos desejos, dores e escolhas movem o filme para a frente. E nesse quesito, o Oscar ainda tem um longo caminho a percorrer.
Direção: uma em cinco
Na categoria de Melhor Direção, temos cinco indicados e apenas uma mulher: Chloé Zhao por ‘Hamnet’, drama histórico sobre a família de Shakespeare e o luto pela morte do filho, evento esse que inspirou a escrita de ‘Hamlet’, uma das maiores obras da literatura e do teatro ocidental. Sozinha entre os indicados, Chloé representa metade da população mundial numa categoria que decide quem conduz a narrativa e define o tom e o ritmo de um filme.

https://time.com/collections/women-of-the-year/7377903/chloe-zhao-interview/
O cenário deste ano não é um caso isolado. Em quase cem anos de Oscar, apenas três mulheres levaram a estatueta de Melhor Direção: Kathryn Bigelow em 2009, por ‘Guerra ao Terror’; Chloé Zhao em 2020, por ‘Nomadland’; e Jane Campion em 2021, por ‘Ataque dos Cães’. Três nomes em quase um século.
Não há falta de talento, as diretoras existem, trabalham e entregam filmes extraordinários. A questão está na indústria, que ainda parece ter dificuldade em enxergá-las e em oferecer a elas o mesmo espaço para reconhecimento que concede aos colegas homens.
Fotografia: espaço ainda raro para mulheres
Na categoria de Melhor Fotografia, o cenário é ainda mais impressionante.
Autumn Durald Arkapaw concorre este ano por ‘Sinners’, o thriller de vampiros dirigido por Ryan Coogler que soma 16 indicações e estabelece um recorde histórico no Oscar. Ela é apenas a quarta mulher a ser indicada na história da categoria em 98 anos de premiação.

https://vogue.ph/lifestyle/culture/cinematographer-autumn-durald-arkapaw-profile/
Rachel Morrison, indicada por ‘Mudbound’ (2017), Ari Wegner, indicada por ‘Ataque dos Cães’ (2021), Mandy Walker, indicada por ‘Elvis’ (2022), e agora Autumn Durald Arkapaw compõem o grupo ainda restrito de mulheres que já chegaram à disputa na categoria.
Vale ressaltar que nenhuma mulher levou a estatueta de Melhor Fotografia na premiação até a presente data.
Esse histórico ajuda a explicar por que a presença feminina na categoria continua sendo tratada como exceção dentro da indústria cinematográfica.
Roteiro: o silêncio
Em Melhor Roteiro Original, nenhuma mulher aparece creditada como autora principal entre os indicados de 2026 e, novamente, a categoria é dominada por roteiros assinados majoritariamente por homens.
O espaço que sobra para a presença feminina no Oscar
Para disputar o prêmio de Melhor Som, a presença feminina se resume a uma única indicação entre as cinco vagas. Ela vem da equipe 100% feminina de ‘Sirāt’, composta por Laia Casanovas, Yasmina Praderas e Amanda Villavieja, um feito raro que, no entanto, não esconde o isolamento delas na categoria.
Em categorias como Melhor Figurino, a lista é composta com os seguintes nomes:
- Deborah L. Scott – Avatar: Fogo e Cinzas
- Kate Hawley – Frankenstein
- Malgosia Turzanska – Hamnet
- Miyako Bellizzi – Marty Supreme
- Ruth E. Carter – Sinners
Enquanto para Melhor Maquiagem e Penteado, as mulheres indicadas foram:
- Cliona Furey — Frankenstein
- Naomi Hibino — Kokuho/O Preço da Perfeição
- Shunika Terry — Sinners
- Anne Cathrine Sauerberg — A Meia-Irmã Feia
Já em Melhor Design de Produção, as representantes são:
- Tamara Deverell — Frankenstein
- Fiona Crombie — Hamnet
É como se houvesse um lugar reservado para as mulheres no cinema: o lugar do cuidado estético, do embelezamento, da superfície. O lugar de vestir os personagens, de construir os cenários e de maquiar os rostos.
Entretanto, quando se trata de decidir o que esses personagens vão viver, de escrever a história ou definir como ela será filmada, a conversa muda e o espaço diminui.
Não se pode denominar de conspiração, já que é algo mais sutil e enraizado. Isto é, a maneira como a indústria foi se moldando ao longo de décadas, criando zonas de conforto que acabam empurrando as mulheres para determinadas áreas e mantendo os homens em outras.
Mulheres negras no Oscar: recordes que avançam, barreiras que permanecem
Quando o recorte se afunila para mulheres negras, os números contam uma história ainda mais complexa.
Na categoria de Melhor Atriz Coadjuvante, duas artistas negras concorrem em 2026: Wunmi Mosaku, por ‘Sinners’, e Teyana Taylor, por ‘One Battle After Another’. Mosaku interpreta Annie, uma praticante de Hoodoo ligada ao personagem de Michael B. Jordan, enquanto Taylor vive Perfidia Beverly Hills, uma revolucionária negra e latina que marca o início do filme de Paul Thomas Anderson.
Caso uma das duas vença, a categoria pode registrar um feito inédito de três vitórias consecutivas de atrizes negras ou afro-latinas em Melhor Atriz Coadjuvante, após Da’Vine Joy Randolph por ‘Os Rejeitados’ (2024) e Zoe Saldaña por ‘Emilia Pérez’ (2025). Seria um marco simbólico em uma história marcada pela sub-representação.
Desde a criação do Oscar, em 1929, mais de 3 mil estatuetas já foram entregues, mas, segundo levantamento da Academy of Motion Picture Arts and Sciences e bases de dados como The Academy Awards Database e Statista, pouco mais de 20 foram para mulheres negras. Até hoje, apenas uma mulher negra venceu Melhor Atriz: Halle Berry, por ‘A Última Ceia’ (Monster’s Ball), em 2002.
Nas categorias técnicas, porém, alguns recordes estão sendo quebrados.
A figurinista Ruth E. Carter, indicada por ‘Sinners’, tornou-se a mulher negra mais indicada da história do Oscar, com cinco nomeações (Malcolm X, Amistad, Pantera Negra, Pantera Negra: Wakanda Forever e Sinners). Ela já venceu duas vezes, ambas por filmes da franquia ‘Pantera Negra’.

https://www.latimes.com/entertainment-arts/books/story/2023-05-24/oscar-winner-ruth-e-carter-costume-design-book
Outras profissionais negras também aparecem entre os indicados do filme: Hannah Beachler, vencedora do Oscar por ‘Pantera Negra’, concorre novamente em Design de Produção e Shunika Terry está indicada em Maquiagem.

Os dados revelam um movimento paradoxal que indica avanços visíveis, como novas indicações, recordes sendo quebrados e maior presença em categorias diversas, mas o reconhecimento ainda se concentra em áreas específicas. Quando se trata de categorias associadas à direção, roteiro ou fotografia, há um espaço limitado para mulheres, principalmente quando se olha para o recorte racial.
O discurso que ecoou
Em 2018, ao receber o prêmio de Melhor Atriz por ‘Três Anúncios Para um Crime’, Frances McDormand fez um discurso que ficou na história. Antes de subir ao palco, ela pediu que todas as indicadas da noite, atrizes, diretoras, roteiristas, produtoras, se levantassem. E ali, diante da plateia do Dolby Theatre, cunhou uma expressão que se tornou bandeira: “inclusion rider” (traduzido como inserção de grupos minoritários ou sub-representados), a cláusula contratual que exige diversidade de gênero e raça nos elencos e equipes dos filmes.
“Olhem à sua volta, senhores”, disse ela, com o olhar percorrendo o teatro. “Nós temos histórias para contar.” (tradução livre).
Naquele momento, McDormand não estava apenas celebrando uma vitória individual, estava apontando para uma estrutura que mantém as mulheres e outros grupos sub representados às margens da narrativa cinematográfica, oferecendo uma ferramenta concreta para mudar isso.
Sete anos depois, a pergunta que fica é: quantas dessas histórias estão sendo contadas? E quantas ainda esperam por alguém que dê a elas o espaço que merecem?
O retrato escancarado
No fim, o que os números do Oscar 2026 revelam não é uma falha individual. Cada mulher foi indicada por mérito, talento e trabalho duro. O que os números revelam é uma falha estrutural, uma maneira de organizar a premiação que ainda reserva às mulheres espaços muito específicos e limita muitos daqueles que justamente definem a narrativa.
Há uma espécie de divisão silenciosa no funcionamento da indústria, que designa às mulheres, o cuidado com a aparência, a superfície, o embelezamento da história e aos homens, o comando sobre o que essa história vai dizer e como ela será contada.
O Oscar não mostra apenas quem fez os melhores filmes do ano, ele mostra também quem tem espaço para imaginar o mundo e quem ainda está tentando entrar nessa conversa.
O que ainda precisa mudar
No mês em que se comemora o Dia Internacional da Mulher, olhar para a premiação é lembrar que a representação não se resume a números, mas, sim, ao poder de decisão, o lugar de fala e a “cadeira na mesa” onde a história é escrita. E essa mesa ainda tem poucos espaços ocupados por mulheres.
Que nos próximos anos este texto se torne obsoleto e que um dia a pergunta “onde estão as mulheres no Oscar?” soe tão estranha quanto perguntar “onde estão os homens?”.
Até lá, seguimos olhando, nomeando, questionando. Porque todas as histórias merecem ser contadas.
Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.