Qual o design do futuro? IA, poder e a disputa pela imaginação
Antes de perguntar o que a IA pode fazer, pergunte para quem ela foi feita
Por Ale Santos
O ano é 2026. Um empresário conhecido como Joh Fredersen controla a cidade do alto de seus arranha-céus. Os herdeiros das classes mais ricas vivem uma realidade utópica. A arte majestosa, as esculturas grandiosas e os veículos tecnológicos servem ao seu conforto e progresso. Enquanto isso, nos porões da cidade, a classe trabalhadora lida com toda a sujeira das máquinas. Para que a cidade não entre em colapso, os mais pobres são sacrificados para manter o funcionamento dos dispositivos mecânicos em perfeita harmonia.
O que não está nada harmônico são as condições do seu próprio trabalho. O mais inquietante é que essa utopia capitalista das máquinas foi escrita quase um século atrás.
É por isso que a inteligência artificial não representa uma ruptura. Ela é a continuação de um imaginário antigo — agora capturado como modelo de negócio. Essa imagem vem de 1927, em Metrópolis. O filme, que foi um marco da ficção científica no cinema, antecipou em quase 100 anos uma discussão sobre máquinas que parece emergir agora, com as inteligências artificiais cada vez mais no centro do debate econômico.
A chamada “Revolução das IAs” ainda causa grande euforia em várias áreas, da saúde à indústria e, principalmente, no meio digital em que vivemos. As previsões mais otimistas dizem que os algoritmos poderiam criar mais de 78 milhões de novos empregos no mercado global [https://intelexia.com.br/como-a-inteligencia-artificial-esta-revolucionando-o-mercado-de-trabalho-global/], com cargos e funções nunca vistos antes. Por exemplo, o engenheiro de consistência, que seria um especialista responsável por vasculhar erros de lógica dos sistemas de IA.
Você também deve ter lido sobre a principal promessa de que a IA liberaria humanos de tarefas repetitivas, elevando a produtividade em até 40% e permitindo maior foco na criatividade. Essa narrativa já foi repetida antes, em momentos muito parecidos com o que especialistas chamam de “euforia tech”.
O exemplo mais emblemático vem da Revolução Industrial. O economista Andrew Ure, em 1835, previu a “produtividade sem esforço humano”; sua visão encarava as máquinas como “autócratas” que emancipariam a força de trabalho humana de limitações pessoais, nivelando habilidades, acelerando o aprendizado e eliminando a necessidade de especialistas manuais. As atuais promessas das IAs parecem repetir exatamente esse ciclo. A promessa muda de linguagem, mas não de lógica. A máquina continua sendo apresentada como libertação, enquanto reorganiza quem controla e quem executa. Máquinas, algoritmos e inteligências artificiais tendem a operar dentro da lógica de quem as criou: o imaginário das elites econômicas mundiais.
Essa lógica tira o ser humano do centro da própria vida e exalta a mecanização da sociedade. Na arte e na política, sempre que esse pensamento surgiu, ele serviu para alimentar desigualdades ou construir visões opressivamente utópicas — exatamente como materializado por Metrópolis.
Os atuais magnatas das maiores empresas de tecnologia construíram o trono de Joh Fredersen, monopolizando a experiência dos usuários em sistemas próprios de algoritmos que servem aos seus lucros e às suas nações. No mercado mundial, conseguem expandir as fronteiras de suas próprias Metrópolis, transformando todo o Sul Global em uma periferia dentro da rede. A concentração de capital em poucos países e empresas faz com que nações periféricas fiquem dependentes de plataformas estrangeiras para educação, saúde e governança, afastando-as do debate sobre o próprio futuro.
O problema, então, não está na máquina em si, mas na história que contamos sobre ela. As primeiras experiências de imaginar o futuro estabeleceram a máquina como centro do progresso. A exaltação da aceleração do trabalho pela automação era tamanha que os futuristas italianos chegaram a defender a destruição dos museus. O que encontramos, na prática, são impactos nocivos às próprias culturas locais. Estudos já mostram que sistemas de recomendação tendem a reduzir a diversidade cultural, empurrando conteúdos dominantes e tornando outras narrativas periféricas ou invisíveis.
A promessa de liberação do trabalho com as IAs rapidamente deu lugar a uma concentração ainda maior de poder e a uma disputa escancarada por acesso e influência política por meio dos algoritmos digitais — um impacto muito mais sombrio do que os ficcionistas puderam prever. No final de Metrópolis, Freder, o filho do empresário, também chamado de mediador, trabalha para conquistar a união entre a elite dominante e a classe trabalhadora. A alegoria é clara: a união entre o cérebro e as mãos deve ser o coração.
Em 2026, no nosso mundo real, as grandes empresas de tecnologia passaram a ocupar espaços estratégicos no Estado e na infraestrutura global de dados, definindo não só como a tecnologia funciona, mas para quem ela funciona. Elon Musk, por exemplo, após comprar o Twitter, teve inserção significativa no governo Trump, ao mesmo tempo em que entrou em conflito com o STF no Brasil, insistindo em ignorar a legislação nacional.
A ideia de progresso e futuro, ainda centralizada nas máquinas, tem intensificado a cisão entre classes e criado novas formas de invisibilizar os mais pobres, repetindo ciclos de imaginação futurista construídos séculos atrás por povos europeus. Esse ideal de futuro não é novo; sua utopia e seu apocalipse já foram escritos por inúmeros pensadores. Esse ciclo nunca termina — apenas se renova com novas tecnologias ainda desconhecidas. Mas, se a IA que conhecemos hoje nasce de uma imaginação, é exatamente desse lugar que vamos encontrar novas saídas e possibilidades.
Nas últimas décadas, estamos presenciando novas histórias nascendo nas periferias globais. Futuristas e ficcionistas da América Latina têm especulado sobre a relação entre nossas populações e as máquinas. Design, história, arquitetura e cultura têm sido incorporados às visões de autores que não buscam reproduzir Metrópolis, mas construir novas utopias humanistas. Faço parte de um movimento que está construindo o afrofuturismo brasileiro e, nesta coluna, quero guiar você pelas intersecções entre passado e futuro em nosso próprio território, trazendo experiências periféricas e conectando-as com outras ao redor do continente.
A solução para impedir a utopia capitalista das máquinas é ancestral, mas só existirá quando começarmos a reconhecer os sonhos que irão configurar novos horizontes da experiência tecnológica e reflorestar o imaginário que materializará os algoritmos digitais. Precisamos encontrar artistas e pensadores que provam ser possível uma realidade em que usamos as máquinas e suas automações sem perder a identidade que carregamos.
Nessa busca, não iremos de naves espaciais nem de expressos ultravelozes. Iremos de barcos, como os que correm pelos rios amazônicos, no fluxo do tempo de nossas florestas tropicais, para desbravar novos futurismos latino-americanos.
Nosso ideal de futuro, trabalho e tecnologia não precisa ser Metrópolis.
A IA não nasceu no código. Nasceu na imaginação.
Ale Santos é escritor de ficção científica e a principal voz do Afrofuturismo na nova geração brasileira, citado pela Science Fiction Research Association. Duas vezes finalista do Jabuti e nomeado um dos 50 brasileiros mais criativos pela Wired Festival. É autor de O Último Ancestral (HarperCollins), A Malta Indomável e roteirista internacional da franquia Assassin’s Creed. Seu trabalho une cyberpunk, ancestralidade e crítica social para projetar novos futuros.