Por Raquel Palomino*

Roberto Sánchez, candidato da esquerda peruana, venceu no Peru, mas a candidata de extrema-direita Keiko Fujimori, filha do ex-ditador Alberto Fujimori, deverá tornar-se a nova presidente devido à vantagem que obterá no voto no estrangeiro. Com 99,75% da contagem oficial — processada em 23 de junho — sobre um total de 27 milhões de eleitores, Fujimori mantém uma vantagem de apenas 41 mil votos sobre Sánchez. Trata-se de um resultado eleitoral extremamente renhido, ainda não formalmente concluído, que revela fragilidades na representação, mas que os meios de comunicação passaram a apresentar como definitivo a favor de Fujimori já no dia seguinte às eleições.

Tudo isto ocorre num contexto em que o fujimorismo, a partir da sua forte presença no Congresso, consolidou uma concentração de poder que compromete a independência institucional, intensifica a perseguição aos seus adversários e continua a legislar, preparando já o terreno para o que se poderia chamar de um “Fujimorismo 2.0”. Esta situação gera um sentimento de inquietação, especialmente entre aqueles que perderam entes queridos em crimes de Estado.

Déjà vu de um país destruído

Os resultados atuais apresentam uma semelhança notável com os de 2021, quando o candidato rural — hoje destituído — Pedro Castillo enfrentou Keiko Fujimori num segundo turno que também foi decidido por cerca de 40 mil votos. Cinco anos depois, Roberto Sánchez, do partido «Juntos pelo Peru», que representou politicamente aquele projeto, disputa a presidência contra Fujimori na sua quarta candidatura.

Sánchez, psicólogo de formação e influenciado pela Teologia da Libertação, utilizou como símbolo central da sua campanha o chapéu chotano, parte do traje rural que também foi associado a Castillo, e o lema «Pedro Castillo, liberdade». Representa, assim, um projeto político que foi duramente discriminado e obstruído num mandato que durou apenas um ano e meio, em meio a um processo que seus apoiadores atribuem a articulações do fujimorismo, de elites empresariais e de setores do sistema de justiça, como revelou Miguel Torres, candidato a vice-presidência pelo fujimorismo.

A persistência do voto rural e do voto urbano

A semelhança mais marcante é que a população rural das regiões mais excluídas — especialmente do sul e do centro do país, pertencentes aos setores D e E — voltou a votar naquele que representava politicamente Castillo. Num cenário fragmentado, esses 12% de votos iniciais permitiram que uma candidatura da esquerda popular chegasse novamente ao segundo turno para enfrentar uma Keiko Fujimori que conta com apoio histórico das elites. Sánchez reconheceu esse apoio, afirmando: “Se estamos aqui, é graças ao voto dos mais pobres”.

O mapa político praticamente reproduz a divisão de 2021 e o desempenho de Castillo: Sánchez, aliado a grupos de centro-esquerda e ao movimento antifujimorista, no segundo turno, venceu em 16 regiões, enquanto Fujimori se impôs em 8, incluindo a capital e o exterior. Em regiões do sul andino, como Ayacucho, Huancavelica e Puno, de maioria indígena e altos índices de pobreza, Sánchez obteve entre 70% e 80% de apoio. Essas são as mesmas regiões que protestaram contra o que consideram um golpe político contra Castillo e onde o governo de Dina Boluarte, apoiado pelo fujimorismo, foi acusado de massacres e execuções extrajudiciais — classificadas pela Anistia Internacional como “racismo letal” — que resultaram na morte de cerca de 50 peruanos.

Ao mesmo tempo, Lima continua a ser o bastião da Fuerza Popular, uma capital marcada por populações migrantes, onde a insegurança cidadã atinge sobretudo os setores populares e o discurso de Keiko sobre “ordem” encontra forte ressonância. A isso somam-se os votos da diáspora peruana, que também favoreceram Fujimori nas duas últimas eleições. Por esses resultados, Fujimori venceria Sánchez por uma margem muito estreita, apesar de o candidato de esquerda ter vencido na votação nacional.

Os resultados revelam diferenças importantes no interior do setor popular: enquanto a população rural reivindica direitos e maior presença do Estado, a população urbana periférica de Lima — as chamadas “empreendedoras” — tende a encarar o Estado como uma barreira burocrática. Segundo o politólogo Andy Philipps Zeballos, esse segmento valoriza suas conquistas individuais no contexto do modelo neoliberal fujimorista, dinâmica que a campanha de Keiko teria explorado ao mobilizar o medo do “comunismo” representado por Sánchez, apresentado como uma ameaça ao que já teria sido conquistado.

Entre denúncias e pressão midiática

Sánchez advertiu que não reconhecerá a vitória de Fujimori caso a autoridade eleitoral não avance, previamente, na investigação da denúncia sobre a alteração das regras eleitorais realizada uma semana antes da eleição presidencial, o que teria violado a inviolabilidade do processo. Essa mudança teria permitido o transporte físico de votos do estrangeiro sem os padrões de segurança exigidos, segundo a defesa jurídica do partido — uma medida implementada sob a liderança de Carlos Pareja no Ministério das Relações Exteriores. O diplomata, ligado ao fujimorismo, foi fotografado recentemente com Carlos Díaz Rosillo, assessor de Keiko, conforme reportado pelo semanário Hildebrandt en sus trece.

Por sua vez, o poder mediático — cujo alinhamento excessivamente favorável a Fujimori durante o processo eleitoral foi observado pela Missão de Observadores Eleitorais da União Europeia — passou, desde o dia seguinte à contagem dos votos, a construir a percepção de que Keiko havia vencido as eleições, contribuindo para legitimar antecipadamente o que viria a ser o seu mandato presidencial.

Autoritarismo recrudescente e resistência

O processo eleitoral não ocorreu sob um regime plenamente democrático; a The Economist Intelligence Unit (EIU) classifica o Peru como uma «democracia híbrida». O fujimorismo controla instituições-chave, desde o Congresso até órgãos judiciais, utilizando-as para pressionar autoridades eleitorais e inabilitar adversários políticos.

Analistas preveem que, caso Keiko Fujimori assuma o cargo em 28 de julho, o autoritarismo e a repressão tendem a se intensificar; outros apontam que esse processo já teria começado, com medidas sendo tomadas para “abrir caminho” à sua posse. Já se observa uma espécie de “caça” a adversários políticos, jornalistas e operadores da justiça por parte do Ministério Público e da Controladoria-Geral, sob sua influência, além de iniciativas legislativas no Congresso voltadas a garantir impunidade a militares e policiais acusados de crimes contra a humanidade.

O cenário delineia um «fujimorismo 2.0»: um regime de perfil policial e repressivo, com enfraquecimento da separação de poderes, parlamentares cooptados (à semelhança dos anos 1990), políticas pró-empresariais e um sistema de clientelismo popular que tensiona direitos fundamentais.

Diante desse panorama, organizações sociais e políticas ligadas ao «Juntos pelo Peru» têm se mobilizado em defesa da vontade popular; outros atores políticos afirmam que atuarão como oposição democrática, enquanto diversos coletivos antifujimoristas anunciam a continuidade da resistência ao que consideram uma nova fase do fujimorismo.

Por sua vez, familiares das vítimas do governo de Dina Boluarte declararam que não reconhecerão um eventual governo de Keiko Fujimori e que seguirão na luta por justiça. Essas organizações, desde a repressão violenta do governo Boluarte, já denunciavam que, no Peru, «esta democracia já não é democracia». Hoje, paradoxalmente, as eleições acabariam por aprofundar o enfraquecimento do que resta dela.

Raquel Palomino é Licenciada em Jornalismo, Mestre em Sociologia e ativista defensora dos direitos humanos.