Os ventos de Oyá e o legado de Tereza de Benguela
Mangueira celebra Oyá e o protagonismo das mulheres negras na construção da liberdade e da memória
Há histórias que insistiram em apagar, mas também existem mulheres cuja força atravessa os séculos, desafia o silêncio e continua guiando os nossos passos. Neste 25 de julho, quando celebramos Tereza de Benguela e o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, a Mangueira reafirma seu compromisso de manter essas histórias vivas.
Tereza de Benguela foi uma líder que governou o Quilombo do Quariterê com inteligência, estratégia e coragem. Em um Brasil escravocrata, mostrou que uma mulher negra podia comandar, proteger seu povo e construir um projeto coletivo de liberdade. Sua trajetória é uma resposta àqueles que insistem em negar o protagonismo das mulheres negras na formação deste país.
Na Mangueira, esse legado encontra um diálogo profundo com Oyá, a orixá que inspira o nosso próximo enredo. Senhora dos ventos, das tempestades e das transformações, Oyá nos ensina que nenhuma mudança acontece sem movimento. Ela não aceita a injustiça como destino; abre caminhos, enfrenta os desafios e nos impulsiona a seguir adiante.
Quando olhamos para Tereza e para Oyá, vemos a mesma força ancestral que habita tantas mulheres negras brasileiras. A força das mães que sustentam suas famílias, das ialorixás que preservam nossa espiritualidade, das trabalhadoras que enfrentam jornadas exaustivas, das artistas que transformam dor em beleza e das mulheres que fazem o Carnaval acontecer muito antes de o desfile cruzar a Marquês de Sapucaí.
Na Mangueira, elas estão em todos os lugares. Estão na bateria, na harmonia, nas baianas, na velha guarda, na costura, na administração, na pesquisa, na comunidade e na direção da escola. São elas que carregam saberes, acolhem gerações e mantêm viva uma das maiores expressões da cultura popular brasileira.
Não é por acaso que a nossa escola escolheu cantar Oyá. Em um tempo em que o racismo, o machismo e a intolerância religiosa ainda tentam impor o medo e o apagamento, falar da força de uma orixá é também afirmar o direito de existir, celebrar nossa ancestralidade e reconhecer as mulheres negras como protagonistas da nossa história.
Que os ventos de Oyá nos conduzam com a mesma coragem de Tereza de Benguela. E que o Carnaval continue sendo esse lugar onde a memória resiste, a cultura educa e a liberdade encontra voz.
Porque, quando uma escola de samba canta, ela também escreve a história que o Brasil precisa aprender.
Guanayra Firmino é a atual presidenta da Estação Primeira de Mangueira. Cria do Morro da Mangueira, iniciou sua trajetória aos 17 anos como vice-presidenta da associação de moradores. Atuou nos bastidores e na diretoria da Escola durante diversos mandatos e, hoje, conduz a Verde e Rosa valorizando os talentos da comunidade.