O silêncio que condena: Brasil e o cerco a Cuba
Brasil hesita diante do bloqueio a Cuba; omissão agrava crise e fere soberania e solidariedade latino-americana
por Bianca Borges*
Da política externa dependem vidas em todo o mundo. O cerco a Cuba por parte dos Estados Unidos nos convoca à responsabilidade de preservá-las. Desde que ousou, em 1959, sob o marco de sua revolução, pôr fim à ditadura de Fulgêncio Batista, transformar profundamente seu sistema político e universalizar o acesso à saúde e à educação, a ilha enfrenta um bloqueio econômico criminoso e ilegal que opera como um mecanismo contínuo de asfixia das condições de vida de um povo inteiro, com uma única finalidade: pressionar o regime cubano e condená-lo ao fracasso. Ainda sob essa agressão, a revolução segue de pé.
O recrudescimento recente dessas medidas, impulsionado por declarações e ameaças do governo de Donald Trump e pela imposição de sanções rigorosas a países que comercializem petróleo com Cuba, coloca os países latino-americanos diante de um dilema: assistir à escalada de uma política de coerção ou afirmar, na prática, os princípios do respeito à soberania e à autodeterminação dos povos.
É nesse ponto que o Brasil se torna incontornável. Sob a liderança de Luiz Inácio Lula da Silva, o país reconstruiu sua credibilidade internacional ao defender a cooperação Sul-Sul, o multilateralismo e o combate à fome. No entanto, diante da crise energética que se aprofunda em Cuba, a postura brasileira oscila entre a retórica solidária e a hesitação prática.
Não se trata de um debate abstrato ou de um tema ideológico, embora a ascensão da extrema-direita, tantas vezes, tente reduzir a defesa da vida e dos direitos humanos a uma posição de campo. O bloqueio à entrada de combustíveis no país impacta diretamente o funcionamento de hospitais, escolas e universidades, o transporte público, a produção de alimentos e o acesso à energia. Trata-se, portanto, de uma política que incide sobre a vida em si.
Há um elemento adicional que torna essa omissão ainda mais grave: a memória. Cuba jamais foi indiferente ao povo brasileiro. Ao contrário, construiu, ao longo das décadas, uma história concreta de solidariedade. Foi assim quando enviou milhares de médicos ao Brasil por meio do programa Mais Médicos, garantindo atendimento em regiões onde o Estado brasileiro nunca chegou de forma plena. Foi assim também ao acolher vítimas do acidente com o Césio-137, em Goiânia, oferecendo tratamento especializado a brasileiros expostos à radiação, em um gesto humanitário que atravessou fronteiras ideológicas.
Em diferentes momentos, inclusive durante a pandemia, Cuba reafirmou sua vocação internacionalista ao compartilhar conhecimento, profissionais de saúde e capacidade científica com diversos países que careciam desses recursos. Como sintetizou Fidel Castro, trata-se de uma política que escolhe “enviar médicos, não bombas”.
Diante disso, a omissão brasileira diante da demanda pelo envio de petróleo para a produção de combustíveis, a fim de amenizar a crise energética, ainda que travestida de cautela diplomática, é inaceitável. É cúmplice da deterioração das condições de vida de um povo submetido a uma guerra sem bombas, a uma política de asfixia econômica sem precedentes.
Historicamente, o Brasil construiu sua relevância internacional ao defender a não intervenção, a solução pacífica de conflitos e a soberania dos povos. Foi assim em momentos-chave da política internacional, e é isso que sustenta, até hoje, sua autoridade no cenário global. Assistimos agora ao rompimento silencioso dessa tradição — não por declaração formal, mas pelo silêncio diante de uma injustiça tão urgente quanto prolongada.
A comparação com outros países da nossa região é inevitável. Enquanto governos latino-americanos ensaiam medidas concretas de apoio por meio do envio de insumos energéticos, o Brasil, que reúne condições políticas, econômicas e logísticas para liderar uma resposta regional e fornecer diretamente petróleo à ilha, ainda não assumiu plenamente esse papel. Limitou-se ao envio de alimentos que, embora importante, sequer encontra logística para distribuição diante do bloqueio ao comércio de combustíveis com o país.
Não há pragmatismo eleitoral que justifique essa lacuna. A política externa não pode ser reduzida ao cálculo de custos quando estão em jogo 11 milhões de vidas. A hesitação, nesse caso, não preserva neutralidade, mas sinaliza retração e subordinação diante do intervencionismo estadunidense.
Mais do que uma questão ideológica, trata-se de uma questão civilizatória. Permitir que um país seja submetido a um cerco prolongado, com impactos diretos sobre sua população, sem uma resposta concreta, é aceitar que a força se sobreponha à dignidade dos povos. E isso ultrapassa Cuba: atinge toda a América Latina e redefine os limites do que será tolerado nas relações internacionais — inclusive em nosso próprio território.
Bianca Borges* é presidenta da UNE